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Com 21 bilhões de toneladas de nódulos no Pacífico, robôs gigantes avançam no fundo do oceano para abastecer carros elétricos

Laila Por Laila
15/05/2026
Em Ciências Naturais

No fundo do Pacífico, robôs do tamanho de caminhões já conseguem rastrear o leito oceânico em busca das pedras que alimentam baterias modernas. A mais de 4.000 metros de profundidade, esses tratores submarinos coletam nódulos ricos em níquel, cobre, manganês e cobalto, mas levantam uma disputa ambiental ainda sem resposta.

O que são os nódulos polimetálicos e onde estão os principais depósitos do mundo?

A Zona Clarion-Clipperton (ZCC) é uma região do Pacífico central com cerca de 6 milhões de km², maior que o território brasileiro, delimitada entre o México e o Havaí. Estima-se que o leito oceânico da ZCC contenha mais de 21 bilhões de toneladas de nódulos polimetálicos, com concentrações médias de manganês (28–30%), níquel (1,3–1,4%), cobre (1,1–1,2%) e cobalto (0,2–0,25%).

Enquanto uma mina terrestre exige remoção de rocha, perfuração e processamento pesado, os nódulos simplesmente repousam sobre o sedimento, acessíveis à superfície do leito oceânico. Isso torna a ZCC o maior depósito mineral de metais críticos para baterias de carros elétricos já identificado no planeta.

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Como funcionam os robôs que coletam pedras a 4.000 metros de profundidade?

O veículo coletor é um robô rastreado que se locomove sobre o sedimento abissal usando esteiras largas, similares às de um trator agrícola, projetadas para distribuir o peso sobre uma lama extremamente mole. O gerente ambiental da The Metals Company (TMC), Michael Clarke, descreveu o sistema diretamente: é como um aspirador de pó gigante que rasteja lentamente pelo leito oceânico.

O veículo usa jatos de água de baixa pressão para desprender os nódulos do sedimento e sugá-los por diferencial de pressão. Após a coleta, os nódulos sobem por um riser vertical de 4.300 metros até o navio de superfície, onde são desidratados e armazenados no porão, enquanto a água residual é devolvida ao oceano.

Sistema leva nódulos do robô no fundo do mar até o navio de superfície

O que é o Hidden Gem, o único navio de mineração profunda operacional do mundo?

O Hidden Gem, da empresa holandesa Allseas, é um ex-navio de perfuração de petróleo convertido especificamente para a mineração de nódulos. Segundo as especificações publicadas pela Allseas, o navio tem 228 metros de comprimento, potência instalada de 43.740 kW, acomodações para 140 pessoas e seis propulsores de 4.500 kW cada para posicionamento dinâmico preciso durante as operações.

Para visualizar os robôs em operação no leito oceânico, o canal da The Metals Company, com 2,56 mil inscritos e 4.306 visualizações, registrou o momento em que o veículo coletor foi implantado pelo Hidden Gem e dirigiu pelo fundo do oceano pela primeira vez:

O que o teste de 2022 provou sobre a coleta industrial de nódulos?

Em outubro de 2022, a TMC e a Allseas conduziram o primeiro teste integrado em escala industrial na ZCC, a 4.280 metros de profundidade. Os resultados, publicados na Nature em 2025, foram expressivos: o robô percorreu 80 km de leito oceânico e coletou mais de 3.000 toneladas de nódulos, atingindo taxa de 86 toneladas por hora em operação sustentada.

O coletor perturbou apenas os 3 cm superficiais do sedimento, contra os 80 cm registrados nos testes experimentais dos anos 1970. A TMC se comprometeu a deixar pelo menos 30% das suas áreas de contrato intocadas para facilitar a recolonização por organismos dependentes dos nódulos.

Quais outros países têm robôs operando no fundo do oceano?

O campo está longe de ser monopólio da TMC. A Global Sea Mineral Resources (GSR), do grupo belga DEME, testou seu veículo Patania II na ZCC, gerando estudos sobre impacto em comunidades de meiofauna abissal. Em outubro de 2024, a China Minmetals submeteu à ISA um estudo de impacto ambiental para testes de seu próprio veículo coletor programados para 2025.

A Coreia do Sul, por meio do KIOST, desenvolve seu sistema nacional com foco em integração entre veículo, riser e navio. Em março de 2026, a NOAA declarou conformidade substancial da aplicação da TMC para licença de mineração comercial, ampliando a área coberta de 25.000 km² para 65.000 km², com recurso estimado de 619 milhões de toneladas de nódulos úmidos.

Por que extrair minerais do fundo do oceano é uma contradição ambiental?

Os nódulos contêm exatamente os metais necessários para fabricar baterias de carros elétricos, que existem para reduzir emissões de carbono. Mas extraí-los destrói ecossistemas que levaram milhões de anos para se desenvolver. Os estudos publicados até 2026 apontam para impactos que não se dissipam facilmente:

  • As cicatrizes dos testes dos anos 1970 ainda são visíveis no leito oceânico cinco décadas depois
  • A fauna séssil, como esponjas, desaparece completamente das áreas onde os nódulos são removidos
  • Os nódulos crescem a milímetros por milhão de anos, tornando-os efetivamente não renováveis em qualquer escala de tempo humana

Os robôs já funcionam, mas as regras ainda não existem

A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) é o organismo da ONU que regula a mineração em águas internacionais. A sessão de julho de 2025 terminou sem consenso sobre o Código de Mineração, o conjunto de regras que definiria como e em que condições a exploração comercial seria permitida.

Os robôs já provaram que a extração em escala industrial é tecnicamente possível. O que ainda falta não é engenharia, é governança: um acordo global sobre como explorar o fundo do oceano sem destruir o que ainda não conhecemos completamente.

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