Enquanto Lula se reúne hoje em Washington com Donald Trump, o verdadeiro tema da mesa não é apenas diplomacia bilateral, tarifas ou acordos comerciais. O centro da disputa global mudou. O novo petróleo do século XXI atende por outro nome: minerais críticos. E a aprovação, ontem, pela Câmara dos Deputados, da Política Nacional de Minerais Críticos, incluindo a criação de um Fundo Garantidor da Atividade Mineral (FGAM) de até R$ 5 bilhões para o setor, mostra que o Brasil finalmente começou a perceber que o mundo entrou numa nova corrida estratégica. Uma corrida menos visível que as guerras tradicionais, mas talvez ainda mais decisiva. Porque quem controlar as terras raras controlará parte relevante da indústria, da energia, da tecnologia e até da defesa global nas próximas décadas.
Durante anos, o Ocidente acreditou que globalização significava eficiência infinita. Transferiu produção, refino e cadeias industriais inteiras para a Ásia em troca de custos menores e margens maiores. Agora descobriu o preço dessa escolha. Hoje, cerca de 90% do refino global de terras raras está concentrado na China. Isso significa que carros elétricos, turbinas eólicas, satélites, chips avançados, sistemas militares, drones e inteligência artificial dependem, direta ou indiretamente, de uma cadeia produtiva que Pequim pode influenciar. Não se trata mais apenas de comércio. Trata-se de dependência estratégica. É justamente nesse momento que países antes tratados apenas como fornecedores periféricos de commodities passam a ocupar outro lugar no tabuleiro. E o Brasil está entre eles.
O ponto central é que o Brasil talvez tenha demorado demais para entender o valor do que possui. O país sempre agiu como quem vende matéria-prima para depois recomprar tecnologia pronta a preços multiplicados. Exportamos riqueza natural e importamos valor agregado. Mas as terras raras mudam parcialmente essa lógica porque o mundo simplesmente não consegue mais ignorar quem as possui. O problema é que reserva mineral sem estratégia industrial vale menos do que parece. O minério bruto tem preço. O domínio da cadeia tem poder. A diferença entre os dois é gigantesca. A China entendeu isso há décadas. Não ficou rica apenas extraindo minerais. Ficou poderosa porque dominou o refino, a separação química, a cadeia industrial e a dependência global ao redor dela. É exatamente aí que o Brasil ainda corre o risco de repetir seus velhos erros históricos: celebrar o potencial geológico sem construir soberania econômica real.
A aprovação da nova política na Câmara é importante porque sinaliza uma mudança de mentalidade. Mas R$ 5 bilhões não podem ser tratados como simples incentivo setorial. Isso deveria ser o embrião de algo muito maior: um fundo estratégico soberano brasileiro voltado à segurança mineral e energética do país. O Brasil vive hoje uma combinação rara: grandes reservas minerais e um ciclo extremamente favorável do petróleo. Com o barril operando em níveis elevados, a arrecadação extraordinária gerada pelos royalties e pela exploração poderia alimentar justamente esse fundo, criando uma lógica semelhante, ainda que em escala menor, ao modelo norueguês.
A Noruega entendeu cedo que riqueza natural sem inteligência financeira vira apenas consumo passageiro. Transformou petróleo em patrimônio geracional. O Brasil poderia usar parte do excedente petrolífero para financiar refino nacional de terras raras, reservas estratégicas, tecnologia de separação química, cadeias industriais e proteção econômica de longo prazo. Porque o século XXI não premiará apenas quem possui recursos naturais. Premiará quem souber transformar recursos em influência, indústria e soberania real.
**Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
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