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Sobre os Minerais de Terras Raras

A disputa por terras raras é apresentada como um teste para a capacidade do Brasil de transformar recursos minerais em tecnologia, indústria e soberania nacional.

Marcus Vinícius de FreitasPor Marcus Vinícius de Freitas
08/05/2026

Durante muito tempo, o Brasil acostumou-se a enxergar seus recursos naturais apenas como commodities destinadas à exportação. Ferro, soja, petróleo, café, manganês, bauxita. Extraímos, exportamos, arrecadamos impostos e seguimos adiante. O problema é que o mundo mudou — e alguns minerais deixaram de ser apenas recursos econômicos para se tornarem ativos estratégicos de poder. É exatamente isso que ocorre hoje com os chamados minerais de terras raras.

Embora o nome sugira algo exótico, muitos desses minerais não são propriamente raros do ponto de vista geológico. O verdadeiro desafio está na concentração economicamente viável, no refino químico extremamente complexo e na capacidade industrial necessária para transformar minério bruto em produtos de alto valor agregado. E é aí que reside a verdadeira questão.

Terras raras não significam apenas mineração. Significam: tecnologia, inteligência artificial, semicondutores, radares, satélites, energia renovável, carros elétricos, drones, defesa militar, fibras ópticas e soberania industrial. Quem controla as terras raras não controla apenas as minas. Controla cadeias tecnológicas inteiras.

A China compreendeu isso há décadas. Aceitou elevados custos ambientais, baixos retornos iniciais e investimentos massivos na capacidade de refino para construir um domínio estratégico sobre uma das cadeias mais importantes do século XXI. Hoje, o mundo percebe, que não basta possuir reservas minerais. É preciso dominar o processamento, a separação química, a metalurgia, os ímãs permanentes e a indústria de alta tecnologia associada. É justamente nesse contexto que o Brasil precisa refletir seriamente sobre a crescente corrida internacional por minerais estratégicos em seu território.

Os Estados Unidos, preocupados com sua dependência da China, passaram a buscar fontes alternativas de terras raras ao redor do mundo. O Brasil naturalmente entrou no radar. O problema é que há um enorme risco de repetirmos um velho padrão histórico: exportar natureza e importar inteligência industrial.

Se empresas estrangeiras comprarem minas brasileiras, extraírem o minério e realizarem toda a etapa de refino e industrialização fora do país, o Brasil continuará ocupando a posição clássica de fornecedor primário na divisão internacional do trabalho. E isso seria um erro estratégico monumental.

O debate não deveria ser: “devemos ou não aceitar investimento estrangeiro?” O debate correto deveria ser: “em quais condições estratégicas o Brasil permitirá a exploração desses recursos?”

Existe uma diferença enorme entre abrir o setor ao capital internacional e entregar integralmente o controle de ativos minerais críticos sem qualquer política de soberania tecnológica. Afinal, se esses minerais são considerados estratégicos para as grandes potências, por que não seriam também estratégicos para o Brasil?

Se Washington considera as terras raras essenciais para sua segurança nacional, sua indústria militar, sua transição energética e sua liderança tecnológica, seria ingenuidade imaginar que esses recursos deveriam ser tratados pelo Brasil apenas como mais uma commodity de exportação.

O Brasil deveria agir com inteligência estratégica e compreender que, neste momento, possui algo de que as grandes potências efetivamente necessitam. E quando todos precisam de algo que você possui, o correto não é entregar o ativo rapidamente. O correto é utilizar essa vantagem para negociar tecnologia, transferência de conhecimento, formação industrial, pesquisa, inovação e desenvolvimento nacional.

Talvez o caminho mais inteligente fosse justamente fomentar uma competição estratégica saudável entre os diferentes interessados internacionais — Estados Unidos, China, Europa, Japão, Coreia do Sul — exigindo contrapartidas concretas para o desenvolvimento brasileiro.

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O Brasil já possui exemplos históricos relativamente bem-sucedidos nesse sentido. O desenvolvimento conjunto do caça Gripen com a Suécia demonstrou que é possível estruturar acordos que envolvam transferência tecnológica, treinamento de engenheiros, participação industrial nacional e fortalecimento de capacidades estratégicas locais.

Da mesma maneira, a não concretização da venda da Embraer revelou-se, retrospectivamente, uma decisão extremamente importante para a preservação de uma das poucas empresas brasileiras efetivamente inseridas nas cadeias globais de alta tecnologia. Caso a Embraer tivesse sido integralmente absorvida por interesses externos, o Brasil provavelmente perderia não apenas uma empresa, mas também uma capacidade estratégica acumulada ao longo de décadas.

Adicionalmente, há um exemplo internacional contemporâneo que o Brasil deveria estudar com atenção: a Indonésia e sua estratégia em relação ao níquel. Durante anos, a Indonésia exportava minério de níquel bruto, obtendo pouco valor agregado. Em 2020, o governo indonésio decidiu proibir a exportação de minério não processado e exigiu que os investidores estrangeiros construíssem fundições e refinarias no país. O resultado foi notável: bilhões de dólares em investimentos, principalmente da China, a criação de uma indústria emergente de processamento de níquel e um enorme salto na participação do país nas cadeias globais de baterias para veículos elétricos. Claro, a medida gerou tensões comerciais (inclusive uma ação na Organização Mundial do Comércio) e trouxe desafios ambientais. Mas a Indonésia passou da condição de mera fornecedora de matéria-prima para uma posição de maior protagonismo industrial, ao compreender que a verticalização da produção aumentaria o valor agregado do níquel, visando não apenas exportar o metal processado, mas também fabricar baterias acabadas.

O caso do níquel indonésio ensina uma lição valiosa para o Brasil: é possível, sim, exigir o processamento local e a transferência de tecnologia, desde que haja coerência regulatória, paciência estratégica e disposição para negociar com firmeza. É exatamente essa reflexão que deveria orientar o debate sobre terras raras.

O Brasil não precisa fechar as portas ao investimento estrangeiro. Isso seria irrealista e contraproducente. Mas também não pode agir como se as terras raras fossem apenas mais um minério qualquer. Faria sentido, por exemplo, exigir joint ventures obrigatórias com empresas brasileiras, preservando uma participação nacional relevante e impedindo a futura diluição do capital brasileiro. Além disso, seria fundamental exigir a transferência de tecnologia, o processamento parcial no território nacional, a formação de mão de obra especializada, a criação de centros de pesquisa mineral e a integração com uma política industrial de longo prazo. O verdadeiro valor econômico não está apenas na mina. Está na cadeia tecnológica construída em torno dela.

O risco para o Brasil não é apenas ambiental — embora os impactos ambientais sejam relevantes, envolvendo resíduos tóxicos, uso intensivo de água e processos químicos complexos. O maior risco talvez seja geopolítico e civilizacional: transformar-se novamente em mero exportador de matéria-prima em um século definido precisamente pela disputa tecnológica.

Naturalmente, uma estratégia dessa magnitude exigiria estabilidade regulatória, coordenação entre o Estado e o setor privado e capacidade de planejamento industrial de longo prazo — precisamente áreas em que o Brasil historicamente enfrenta dificuldades.

O mundo entrou numa nova era de competição estratégica. Terras raras deixaram de ser um tema de mineração para se tornarem uma questão de soberania nacional. É hora de o Brasil deixar de agir como mero fornecedor passivo de recursos naturais e começar finalmente a pensar estrategicamente.

A pergunta que o país precisa responder é simples: Queremos ser donos de uma cadeia tecnológica ou apenas proprietários do buraco da mina?

*Coluna escrita por Marcus Vinícius de Freitas, professor visitante na China Foreign Affairs University, e Senior Fellow no Policy Center for the New South. Tem vasta experiência em relações internacionais e é colunista da BM&C News.

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

*Leia mais colunas do autor clicando aqui. 

 

Foto: Divulgação

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Tags: BrasilChinaEstados UnidosIndústriainteligência artificialminerais estratégicossemicondutoressoberania tecnológicaTECNOLOGIAterras raras

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