Foi em 8 de setembro de 1612 que o francês Daniel de La Touche ergueu o Forte Saint-Louis na ilha de Upaon-Açu, em homenagem ao rei-menino Luís XIII. São Luís é a única capital do Brasil fundada por franceses, foi ocupada por holandeses e moldada por portugueses, somando dois títulos da UNESCO em uma só cidade.
A capital com três colonizadores em três décadas
Daniel de La Touche, conhecido como Senhor de La Ravardière, chegou à ilha em agosto de 1612 acompanhado de cerca de 500 homens vindos das cidades francesas de Cancale, Granville e Saint-Malo. Segundo a Prefeitura de São Luís, a fundação oficial aconteceu em 8 de setembro com a missa dos capuchinhos e a construção do Forte Saint-Louis, em homenagem ao rei francês Luís XIII e ao patrono da França Luís IX.
A ocupação francesa durou pouco. Os portugueses retomaram o território em 1615, sob comando de Jerônimo de Albuquerque, e o engenheiro-mor Frias de Mesquita desenhou o traçado quadrilátero ortogonal que sobrevive até hoje no Centro Histórico. Entre 1641 e 1644, os holandeses ainda ocuparam a cidade. Em 1621, quando o Brasil foi dividido em duas unidades administrativas, São Luís tornou-se capital do Estado do Maranhão.

Por que conhecer a capital com 2 títulos da UNESCO?
Poucas cidades no mundo somam dois reconhecimentos da UNESCO. O Centro Histórico de São Luís foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade em 6 de dezembro de 1997, durante a 21ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial em Nápoles. O título reconheceu o conjunto como exemplo excepcional de cidade colonial portuguesa adaptada às condições climáticas equatoriais da América do Sul.
O segundo veio em 2019, quando o Complexo Cultural do Bumba Meu Boi do Maranhão foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A festa se divide em cinco sotaques distintos (matraca, orquestra, zabumba, baixada e costa de mão), cada um com ritmo, figurino e coreografia próprios. O calendário se estende de abril a setembro, com ensaios, batismo no dia de São João, apresentações e morte simbólica do boi.

A cidade que reúne o maior conjunto de azulejos das Américas
Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Centro Histórico abriga cerca de 4 mil imóveis tombados dos séculos XVIII e XIX, distribuídos em mais de 220 hectares. A capital foi tombada pelo IPHAN em 1974 e preserva o maior conjunto de azulejos portugueses da América Latina, com fachadas que protegem do calor e da umidade equatorial.
A função dos azulejos vai além da estética. As placas cerâmicas refletem o sol equatorial, isolam termicamente as paredes e resistem ao salitre. As Ruas Portugal, da Estrela e do Giz concentram os melhores exemplares. A capital também é apelidada de “Atenas Brasileira” pela tradição literária que formou Gonçalves Dias, Aluísio Azevedo e Graça Aranha. São Luís ainda divide com a Jamaica o título de capital mundial do reggae, ritmo que chegou nos anos 1970 pelos vinis dos marinheiros e ganhou as radiolas em festas que duram a noite inteira.
O que fazer em São Luís
O roteiro mistura herança colonial, gastronomia maranhense e festas populares. O Centro Histórico é compacto e dá para conhecer caminhando, mas vale separar pelo menos três dias para combinar a capital com Alcântara e os Lençóis Maranhenses:
- Centro Histórico: Patrimônio Mundial da UNESCO, com cerca de 4 mil casarões coloniais, fachadas azulejadas e ruas de pedra de cantaria preservadas desde o século XVIII.
- Palácio dos Leões: sede do governo do Maranhão, construído sobre as fundações do antigo Forte Saint-Louis, com vista para a Baía de São Marcos.
- Convento das Mercês: erguido em 1654 e inaugurado pelo padre Antônio Vieira, hoje abriga a Fundação da Memória Republicana Brasileira.
- Casa do Maranhão: museu instalado em antigo trapiche da Praia Grande, com salas dedicadas ao Bumba Meu Boi, ao reggae e à cultura popular maranhense.
- Casa das Tulhas: mercado coberto do século XIX com bancas de especiarias, doces tradicionais e o famoso guaraná Jesus.
- Teatro Artur Azevedo: inaugurado em 1817, é um dos teatros mais antigos do Brasil em funcionamento contínuo.
- Museu do Reggae: na Rua da Estrela, documenta a história das radiolas, dos vinis jamaicanos e dos clubes que fizeram da cidade a capital brasileira do gênero.
A gastronomia maranhense mistura vinagreira, frutos do mar e sabores que não existem em nenhum outro estado:
- Arroz de cuxá: prato símbolo do Maranhão, feito com folha de vinagreira, gergelim, gengibre e camarão seco.
- Caranguejo na panela de barro: tradição da Praia Grande, servido com farinha de mandioca e pimenta.
- Suco de juçara: fruto parente do açaí batido com farinha de mandioca, vendido nas ruas do centro.
- Torta de camarão: receita herdada da culinária portuguesa adaptada com camarão fresco do litoral maranhense.
- Guaraná Jesus: refrigerante rosa criado em 1920 e símbolo afetivo da cidade, servido gelado em mercados e bares.
Quem sonha em descobrir os encantos de São Luís, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Status Viajante, que conta com mais de 237 mil visualizações, onde Fabi Caçol mostra um roteiro completo de 2 dias pelo Maranhão, passando pelo centro histórico e a Avenida Litorânea:
Quando visitar a Atenas Brasileira?
O clima é equatorial úmido, com duas estações bem definidas: chuvas intensas de janeiro a maio e tempo seco de junho a dezembro. A temperatura é alta o ano inteiro, com média acima de 26°C. Veja como o calendário se distribui:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
O ápice acontece em junho, quando o Bumba Meu Boi toma o Centro Histórico durante todo o mês. O São João do Maranhão é considerado um dos maiores festejos juninos do Brasil e atrai turistas para apresentações nos arraiais espalhados pela cidade. Para combinar com os Lençóis Maranhenses, o melhor período vai de junho a setembro, quando as lagoas estão cheias e o sol firme.
Conheça a única capital fundada por franceses no Brasil
São Luís reúne em uma só ilha a herança francesa do Forte Saint-Louis, o maior conjunto de azulejos portugueses da América Latina, dois títulos da UNESCO, a tradição literária da Atenas Brasileira e o batuque do Bumba Meu Boi. A capital fundada em 1612 segue viva nas ladeiras do Centro Histórico, nas radiolas de reggae e nos sabores do arroz de cuxá.
Você precisa atravessar a Baía de São Marcos rumo a Alcântara, dançar agarradinho ao som das radiolas e entender por que essa ilha do Maranhão guarda quatro séculos de histórias em cada azulejo das Ruas Portugal e da Estrela.

