Winston Churchill dizia o seguinte: “O vice tem apenas duas funções; assistir cerimônias fúnebres e esperar a morte do presidente”. Churchill pode até ter exagerado, mas não esteve muito longe da verdade: vices realmente não têm muito o que fazer, a não ser esperar o chamado do destino.
O Brasil, nos últimos dias, viu vários vices subirem ao poder. O do prefeito carioca Eduardo Paes e o do governador mineiro Romeu Zema, por exemplo, já assumiram suas novas funções. Quais são seus nomes? Não sabem, não é? Estamos falando respectivamente de Eduardo Cavaliere e de Mateus Simões.
Já governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, que foi vice em 2018, deixou o cargo ontem sem um substituto original. É que seu companheiro de chapa em 2022 foi indicado para assumir uma cadeira no tribunal de contas do estado. Resultado: a Assembleia Legislativa vai promover uma eleição indireta para escolher o substituto de Castro.
No Paraná, porém, o economista Darci Piana não terá o gostinho de comandar o estado. O governador Ratinho Jr. desistiu de concorrer à presidência e ficará no Palácio Iguaçu até o final do mandato, algo bastante raro para quem não pode buscar a reeleição, já que ele esteve comandando os paranaenses desde 2019.
Geraldo Alckmin é vice e tem experiência neste métier. Antes de ser governador de São Paulo, foi o imediato de Mário Covas de 1995 a 2001, substituindo-o após a morte do titular. Era tão discreto que, em 2000, quando foi candidato à prefeitura de São Paulo, não foi reconhecido pelos funcionários da produtora de vídeo que iria trabalhar em sua campanha.
Na prefeitura de São Paulo, o atual, Ricardo Nunes, já foi vice de Bruno Covas, que por sua vez foi segundo de João Doria. E Gilberto Kassab, antes de concorrer ao cargo e vencer, era o substituto de José Serra.
Na história recente dos presidentes brasileiros, tivemos três vices que se tornaram titulares: José Sarney, Itamar Franco e Michel Temer. Antes deles, houve Floriano Peixoto (substituto de Deodoro da Fonseca), Nilo Peçanha (Afonso Pena), Delfim Moreira (Rodrigues Alves, que faleceu durante a epidemia de gripe espanhola), Café Filho (Getúlio Vargas, que cometeu suicídio) e João Goulart (Jânio Quadros, que renunciou).
A sucessão de episódios envolvendo vices mostra como esse cargo, muitas vezes tratado como figurativo, acaba tendo peso concreto na vida institucional do país. A política brasileira convive com mudanças inesperadas e com a necessidade de continuidade administrativa mesmo em cenários de crise. Nesse ambiente, a figura do vice permanece como uma espécie de reserva permanente do sistema, sempre à espera de ser acionada quando a estabilidade exige alguém pronto para assumir responsabilidades que, em teoria, não deveriam chegar tão cedo.
Machado de Assis resumiu essa condição com precisão ao dizer que o vice-presidente é como o suplente do destino, alguém que aguarda indefinidamente a ausência do titular. A frase, escrita há mais de um século, continua a ecoar porque descreve uma função que vive entre a sombra e a possibilidade repentina de protagonismo. No Brasil, onde a história registra tantas transições inesperadas, essa espera nunca é totalmente tranquila. É um posto que parece secundário, mas que, por aqui, sempre pode se tornar central de um dia para o outro.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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