A cada estação de chuvas, o rio Chao Phraya engole calçadas, invade garagens e transforma ruas inteiras em canais improvisados. Bangkok, capital da Tailândia e metrópole de mais de 11 milhões de habitantes, afunda sobre uma camada de argila mole enquanto o mar sobe ao seu redor. O cenário que cientistas descrevem para as próximas décadas não é ficção: sem intervenções drásticas, a cidade pode ficar submersa ainda neste século.
Por que a capital tailandesa afunda mais rápido que o mar sobe?
Bangkok foi erguida no século XVIII sobre o delta pantanoso do Chao Phraya, após a queda de Ayutthaya para o Império Birmanês. O solo sob a cidade é uma camada de argila compressível com 12 a 16 metros de espessura, segundo estudo publicado na ScienceDirect. A extração descontrolada de água subterrânea, que saltou de 0,65 milhão de m³/dia em 1975 para mais de 2 milhões de m³/dia na virada do século, comprimiu os aquíferos e acelerou o afundamento.
Nos anos 1980, algumas áreas registraram subsidência de até 120 mm por ano. A taxa diminuiu com restrições à perfuração de poços, mas a subsidência acumulada desde 1960 já ultrapassa 125 cm em partes da região metropolitana, conforme modelagem publicada na revista Groundwater. Hoje, a capital tailandesa afunda cerca de 1 a 2 cm por ano, ritmo dez vezes superior à elevação do nível do mar, segundo o Stockholm Environment Institute (SEI).

O templo engolido pelo mar a 38 km de Bangkok
O que acontece quando o chão desce e a água sobe pode ser visto no vilarejo de Khun Samut Chin, a cerca de 38 km ao sul do centro. Ali, o Wat Khun Samut Chin já foi o coração de uma comunidade cercada por 76 rai de terra firme. Hoje, o templo sobrevive isolado em uma pequena ilha, acessível apenas por uma passarela de concreto. Escolas, casas e estradas desapareceram sob a maré. Os monges ergueram o piso do salão de orações em quase um metro para continuar rezando acima da água.
A erosão costeira consumiu cerca de 1 km de litoral nas últimas três décadas na região. Os postes de eletricidade que sustentavam a antiga estrada do vilarejo agora se erguem em linha reta dentro do mar, como monumentos silenciosos de um lugar que deixou de existir. O fenômeno ali é um ensaio do que pesquisadores projetam para toda a metrópole.
A enchente de 2011 que custou US$ 46 bilhões
Em 2011, Bangkok viveu o pior desastre hídrico em mais de cinco décadas. Chuvas recordes durante a monção, combinadas com a passagem da tempestade tropical Nock-ten, inundaram 65 das 77 províncias tailandesas. A capital ficou parcialmente submersa por semanas. O Banco Mundial estimou as perdas econômicas totais em US$ 46,5 bilhões, o equivalente a cerca de 1,4 trilhão de bahts. A seguradora Swiss Re classificou o evento como a enchente de água doce mais custosa da história para o setor de seguros global.
As águas mataram mais de 800 pessoas e afetaram 13,6 milhões. Fábricas de multinacionais como Sony, Honda e Toyota pararam, provocando escassez global de discos rígidos e peças automotivas. A subsidência do solo agravou o desastre: diques que protegiam a cidade também estavam afundando, reduzindo sua capacidade de contenção.
Cenários para 2030 e 2050 segundo estudos internacionais
Relatório do Banco Mundial intitulado Climate Risks and Adaptation in Asian Coastal Megacities projeta que quase 70% do aumento nos custos de enchentes em Bangkok até 2050 virá da subsidência do solo, e não da mudança climática em si. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que 5 dos 10 milhões de moradores estarão expostos a risco de inundação até 2070.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que o nível médio do mar subiu cerca de 0,2 metro no último século por ação humana. No Golfo da Tailândia, o ritmo local é ainda mais agressivo: cerca de 4 mm ao ano, segundo dados da Agência de Geoinformática e Tecnologia Espacial da Tailândia (GISTDA). Boa parte de Bangkok já se encontra abaixo do nível do mar. Sem adaptação, um estudo citado pela PreventionWeb/UNDRR projeta 40% de inundação da cidade até 2030 em cenário de chuvas extremas.

O parque que engole enchentes no coração da cidade
Uma resposta criativa ao problema surgiu em 2017, quando a Universidade Chulalongkorn inaugurou o Parque Centenário, projetado pela arquiteta paisagista Kotchakorn Voraakhom. O terreno de 11 acres, avaliado em US$ 700 milhões, não virou shopping nem torre comercial. Virou uma esponja urbana capaz de reter até 3,8 milhões de litros de água da chuva.
O parque tem inclinação de três graus, o que permite à gravidade conduzir a água do telhado verde até alagados construídos e, depois, a uma lagoa de retenção. Em dias de tempestade, a lagoa dobra de tamanho ao invadir o gramado central. A American Society of Landscape Architects (ASLA) premiou o projeto em 2019. A inspiração veio de uma metáfora do rei Bhumibol Adulyadej: assim como um macaco guarda comida nas bochechas para usar depois, Bangkok deveria guardar água de enchente para os meses secos.
Uma corrida contra o relógio e contra a maré
Bangkok divide com Jacarta, Veneza e Nova Orleans o posto de cidade que afunda muito mais rápido do que o oceano sobe. A diferença é a escala: são mais de 11 milhões de pessoas sobre uma planície de argila a poucos metros, ou centímetros, acima da água. A combinação de subsidência, elevação do mar e urbanização sem planejamento torna a capital tailandesa uma das metrópoles mais vulneráveis do planeta.
Quem visita Bangkok hoje ainda encontra templos dourados, mercados flutuantes e uma energia urbana difícil de igualar. Conhecer a cidade enquanto ela luta para se manter acima da água é também testemunhar um dos maiores desafios ambientais do século.

