A edição especial do Money Report, exibida pela BM&C News e gravada durante o evento Mulheres Notáveis, reuniu executivas para discutir entraves ainda presentes na trajetória profissional das mulheres. O programa analisou fatores institucionais, culturais e familiares que influenciam a construção da liderança feminina e seus reflexos sobre o ambiente de negócios.
Participaram do debate Daniella Marques, chairperson da Legend Capital, Rafaela Rezende, CEO da VTEX, e Sofia Bresser, fundadora da Rapid by Sophie. Ao longo da conversa, as entrevistadas relacionaram temas como assédio, inclusão financeira e governança corporativa a uma agenda mais ampla de produtividade e competitividade econômica.
Liderança feminina e inclusão financeira como instrumento de transformação
Ao relembrar sua passagem pelo comando da Caixa Econômica Federal, Daniella Marques explicou que assumiu a instituição em meio a denúncias de assédio e optou por estruturar uma resposta institucional baseada em mudança cultural. A estratégia, segundo ela, priorizou ações voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher, ao estímulo ao empreendedorismo feminino e à ampliação do acesso ao sistema financeiro.
Na leitura apresentada, a presença nacional do banco permitiu transformar a rede de agências em pontos de acolhimento e orientação. Para Marques, a autonomia financeira surge como fator decisivo para romper ciclos de vulnerabilidade e ampliar a participação econômica feminina.
“Metade das mulheres que trabalham são vítimas de algum tipo de assédio, e acho que essa pauta é totalmente atrasada e urgente”, afirma Daniella Marques.
Governança corporativa e tolerância zero ao assédio
No setor privado, Rafaela Rezende defendeu que o combate ao assédio deve ocupar posição central na agenda de governança corporativa. A CEO ressaltou a necessidade de canais estruturados de ética, compliance e responsabilização efetiva como forma de preservar ambientes produtivos e seguros.
Além das medidas institucionais, a dirigente destacou que o avanço da presença feminina em cargos estratégicos também depende de mudanças na dinâmica familiar. Em sua avaliação, a divisão equilibrada de responsabilidades domésticas influencia diretamente a capacidade de desenvolvimento profissional das mulheres.
“Assédio para a gente é tolerância zero, não tem justificativa, a gente tem canal de ética, compliance e a gente efetivamente executa, a gente executa afastamento, a gente executa demissão por justa causa”, destaca Rafaela Rezende.
Sobrecarga feminina e divisão das responsabilidades domésticas
Para Daniella Marques, a sobrecarga feminina ainda é tratada de forma inadequada nas organizações, muitas vezes por meio de soluções pontuais que não enfrentam a origem da desigualdade. A chairperson argumenta que a baixa corresponsabilidade masculina no cuidado com filhos e tarefas do lar compromete a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho.
Experiências de gestão relatadas por ela indicam que políticas direcionadas exclusivamente às mulheres podem gerar efeitos indiretos sobre a percepção de desempenho e progressão na carreira. Nesse contexto, o reequilíbrio das funções familiares aparece como condição essencial para garantir produtividade sustentável e ampliar a presença feminina na liderança.
“Se os dois estão no front office, se os dois estão no back office e os dois estão na gestão da startup, então, a gente tem um trabalho e a gente tem a startup junto, vamos gerir a startup junto”, avalia Daniella Marques.
Nova geração, autopercepção e permanência de padrões culturais
Sofia Bresser chamou atenção para desafios relacionados à autopercepção de mulheres jovens em ambientes profissionais majoritariamente masculinos. Segundo a empreendedora, o machismo estrutural pode influenciar o posicionamento feminino em reuniões e espaços de decisão, exigindo um processo contínuo de fortalecimento da confiança.
Ela também destacou que sua atuação como influenciadora digital contribui para ampliar o debate sobre feminilidade e empreendedorismo. A autenticidade, em sua visão, pode funcionar como elemento estratégico na construção de autoridade e respeito no ambiente corporativo.
“Eu vejo, às vezes, entra um homem na mesa e eu, automaticamente, me sinto menor, porque ele entrou”, observa Sofia Bresser.
Machismo estrutural e impactos nas trajetórias profissionais
Na avaliação de Rafaela Rezende, o avanço das mulheres na liderança ocorre em um cenário ainda marcado por barreiras estruturais que se manifestam de forma sutil no cotidiano. Muitas dessas limitações, segundo a CEO, não são explícitas, mas influenciam decisões profissionais, organização familiar e percepção de competência.
Reconhecer essa realidade é, para ela, passo fundamental para promover transformações efetivas nas empresas e na sociedade. A dirigente ressalta que a construção de ambientes mais equilibrados exige revisão de práticas consolidadas e maior conscientização coletiva.
“Eu acho que talvez ele só fosse mais escancarado. Hoje a gente vive um machismo velado, a primeira coisa que a gente precisa fazer é reconhecer, a sociedade é machista, o machismo é estrutural”, analisa Rafaela Rezende.
Perspectivas para liderança e competitividade empresarial
O debate indicou que a ampliação da presença feminina em posições estratégicas depende de mudanças simultâneas na cultura organizacional, nos modelos de governança corporativa e na dinâmica familiar. Lideranças mais colaborativas e orientadas à escuta tendem a responder melhor a desafios contemporâneos relacionados à saúde mental e produtividade.
Nesse contexto, a discussão sobre diversidade na alta gestão tende a ganhar espaço crescente na agenda econômica. O programa sugere que a competitividade das organizações dependerá, cada vez mais, da capacidade de construir ambientes equilibrados, diversos e adaptados a novas demandas sociais e produtivas.












