A alta dos combustíveis voltou ao centro do debate econômico e político no Brasil em meio ao avanço do petróleo no mercado internacional e à reação do governo por meio de medidas tributárias e compensatórias. No entendimento dos participantes do Painel BM&C, a volatilidade externa funciona como gatilho, mas o problema central continua sendo doméstico: a baixa capacidade de refino, a dependência de importação de diesel e a ausência de planejamento de médio e longo prazo para segurança energética.
Na avaliação do economista Carlos Honorato, o Brasil convive com uma contradição estrutural ao produzir petróleo bruto em grande escala, mas permanecer vulnerável ao custo do combustível refinado. Ele destacou que o perfil do petróleo extraído no país e a dependência do modal rodoviário ampliam essa exposição, ao mesmo tempo em que a falta de investimento em refinarias limita a capacidade de resposta a choques internacionais.
“A geopolítica, ela traz o impacto da conjuntura, mas o nosso problema é estratégico e de planejamento de médio e longo prazo”, afirmou o economista.
Refino, diesel e a distorção da matriz energética
Ao discutir a dependência do diesel importado, Honorato afirmou que o país precisa comprar entre 20% e 30% do combustível no exterior para abastecer uma economia fortemente apoiada nas rodovias. Para ele, esse quadro mostra que o debate sobre energia no Brasil não pode se restringir ao preço na bomba, mas deve incluir o desenho da infraestrutura e a eficiência da cadeia de refino.
O economista também argumentou que o histórico de atrasos, entraves regulatórios e problemas de execução compromete projetos que exigem horizonte mais longo. Nesse contexto, a instabilidade geopolítica apenas revela de forma mais aguda um déficit de estratégia que, segundo ele, já existia e continua limitando a capacidade de o país transformar produção de petróleo em segurança energética.
“Qualquer coisa que precisa de médio e longo prazo, planejamento e investimento, a gente fica pelo caminho”, avalia Carlos Honorato.
Petrobras, arrecadação e risco de interferência
No campo político, Miguel Daoud sustentou que a Petrobras segue exercendo papel central não apenas no abastecimento, mas também na arrecadação federal. Segundo ele, o governo depende dos resultados da estatal em um momento de pressão fiscal, o que ajuda a explicar a resistência em adotar medidas que comprometam o lucro da companhia, ainda que o discurso político volte a defender combustíveis mais baratos.
“A Petrobras é um agente arrecadador do governo, isso interessa para o governo”, afirma Daoud.
A leitura foi reforçada por Alex André, que afirmou que o mercado tende a interpretar mudanças tributárias, subsídios e discussões sobre preços como parte de um padrão recorrente de atuação estatal. Para ele, a preocupação não se limita à Petrobras, mas se estende ao ambiente institucional como um todo, já que qualquer sinal de intervenção reforça a percepção de risco para empresas sob influência do governo.
“Isso pode dizer o seguinte, se afeta a Petrobras, pode afetar qualquer outra empresa estatal”, avalia Alex.
Tributação, previsibilidade e ambiente de investimento
Ao analisar a tentativa de compensar o impacto dos combustíveis com ajustes em impostos e taxações, os debatedores argumentaram que esse tipo de solução pode aliviar pressões imediatas, mas tende a desorganizar os sinais econômicos relevantes para investimento e concorrência. Honorato avaliou que o problema se agrava em um mercado ainda distante de uma competição plena, no qual a Petrobras preserva forte poder de decisão.
Nesse ponto, o economista chamou atenção para o efeito combinado de monopólio, regulação falha e improviso fiscal. Na leitura apresentada no programa, a dificuldade do país não está apenas em lidar com a alta do petróleo, mas em operar com regras pouco previsíveis, que afetam preços, distorcem incentivos e reduzem a confiança na formulação de políticas de longo prazo.
“Você tem um monopólio que é de fato, se alguém perguntar para Petrobras se eles são monopólio, não, nós não somos, distribuição e tal, mas eles são um monopólio porque tem o poder de decisão”, analisa Carlos Honorato.
Juros, alavancagem e recuperação judicial
O debate também avançou para os efeitos dos juros elevados sobre o ambiente corporativo, especialmente em setores intensivos em capital. Ao comentar os casos recentes de empresas em dificuldade, Honorato argumentou que o custo do dinheiro pesa, mas não explica sozinho deteriorações financeiras. Para ele, parte relevante dos problemas decorre de decisões estratégicas equivocadas, apostas concentradas e falta de capacidade de adaptação a mudanças tecnológicas e de mercado.
Alex André seguiu linha semelhante ao afirmar que empresários não controlam a Selic e, por isso, precisam estruturar projetos com maior conservadorismo. Na avaliação dele, operar de forma excessivamente alavancada em um país de juros altos amplia a vulnerabilidade a choques e enfraquece a governança, sobretudo quando as teses de crescimento dependem de condições macroeconômicas que podem não se materializar.
“Então, se você não tem controle sobre isso, faça o seu MVP ali dos seus projetos, não mais conservadorismo”, avalia o economista.
Gasto público, Selic e impasse econômico
Na etapa final do painel, os participantes voltaram ao vínculo entre política fiscal e juros. Daoud afirmou que o governo conhece a relação entre despesas públicas, inflação e custo do dinheiro, mas não demonstra disposição para promover um ajuste capaz de abrir espaço para uma queda mais consistente da Selic. Na leitura dos debatedores, o Banco Central segue condicionado por um ambiente em que a política fiscal mantém pressão sobre expectativas e limita o alívio monetário.
Honorato acrescentou que essa combinação atinge diretamente o cotidiano das famílias e das empresas, reduzindo crédito, comprimindo consumo e travando investimento. O resultado, segundo ele, é uma economia que opera sob tensão permanente, com elevada alavancagem e pouca margem para absorver choques de petróleo, inflação ou juros sem produzir efeitos mais amplos sobre atividade e mercado.
“O mundo está precisando de uma RJ”, afirma o economista Carlos Honorato.













