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A cidade medieval que sumiu em uma noite e levou 660 anos para ser encontrada sob o Mar do Norte

Vitor Por Vitor
14/03/2026
Em Cidades

Durante séculos, pescadores da costa da Alemanha juravam ouvir sinos tocando sob as ondas em noites calmas. A história parecia folclore, até que geofísicos encontraram os alicerces de uma igreja de 40 metros de comprimento enterrados na lama do Mar de Wadden, exatamente onde a lenda apontava.

O que aconteceu com Rungholt em janeiro de 1362?

Rungholt era um assentamento comercial na região da Frísia do Norte, no que hoje é o estado de Schleswig-Holstein. Arqueólogos estimam que a cidade abrigava entre 1.000 e 2.000 habitantes, com casas erguidas sobre montes artificiais chamados terps, um porto ativo e comércio de gado, peixes e possivelmente âmbar com mercados na Holanda e em Flandres.

Na noite de 15 para 16 de janeiro de 1362, um ciclone extratropical de proporções extremas atingiu toda a costa sul do Mar do Norte, da Inglaterra à Dinamarca. A tempestade, conhecida como Grote Mandrenke (“Grande Afogamento de Homens” em baixo-saxão), coincidiu com uma maré de sizígia amplificada pela lua nova. A água avançou mais de 25 km continente adentro. Pelo menos 25 mil pessoas morreram, algumas estimativas apontam até 100 mil. Um total de 44 vilas foram destruídas. Rungholt desapareceu por completo.

A cidade medieval que sumiu em uma noite e levou 660 anos para ser encontrada sob o Mar do Norte (imagem ilustrativa)

A catástrofe que os próprios habitantes ajudaram a criar

A Grote Mandrenke não foi apenas um evento climático. A ocupação humana intensiva das planícies costeiras contribuiu para a vulnerabilidade da paisagem. Desde o século XII, colonos frísios construíram diques e drenaram pântanos para transformar turfeiras em terras de cultivo. A extração massiva de turfa para combustível e produção de sal rebaixou o nível do solo, que ficou abaixo da marca da maré alta.

Um estudo publicado na Nature Scientific Reports em 2024 confirmou esse cenário. A equipe liderada pelo geofísico Dennis Wilken, da Universidade de Kiel, identificou que Rungholt ocupava uma planície costeira dominada originalmente por turfeiras extensas. Quando a tempestade rompeu os diques já enfraquecidos, não havia mais elevação natural para conter a água. A terra fértil virou planície de maré em questão de horas.

De lenda da punição divina à descoberta científica

A história oral transformou Rungholt em mito. Segundo a lenda mais conhecida, jovens bêbados tentaram obrigar um padre a dar a extrema-unção a um porco numa taverna. O clérigo, furioso, rezou pedindo que Deus punisse a cidade. Partiu no dia seguinte, e a tempestade veio logo depois. O poeta alemão Detlev von Liliencron imortalizou a história em 1882 no poema Trutz, Blanke Hans, cujo verso de abertura diz: “Hoje naveguei sobre Rungholt; a cidade afundou há seiscentos anos.”

A existência real do assentamento só foi aceita de forma ampla no século XX, quando restos de diques e cerâmicas começaram a aparecer nas planícies de maré perto da ilha Hallig Südfall. Levantamentos nas décadas de 1920 e 1930 registraram marcas de arado e valas de drenagem na lama exposta pela maré baixa, mas a dinâmica das correntes cobria e descobria os vestígios de forma imprevisível, impedindo qualquer mapeamento sistemático.

A cidade medieval que sumiu em uma noite e levou 660 anos para ser encontrada sob o Mar do Norte (imagem ilustrativa)

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Como geofísicos mapearam uma cidade inteira sob a lama

A virada veio entre 2017 e 2024, com o projeto interdisciplinar financiado pela Fundação Alemã de Pesquisa (DFG). Pesquisadores da Universidade de Kiel, da Universidade Johannes Gutenberg de Mainz, do Centro de Arqueologia Báltica e Escandinava (LEIZA-ZBSA) e do Departamento de Arqueologia de Schleswig-Holstein combinaram gradiometria magnética, indução eletromagnética e sísmica marinha para enxergar o que havia sob os sedimentos.

Em mais de 10 km² investigados, a equipe identificou 64 terps medievais, uma rede densa de valas de drenagem, um dique marítimo com porto de comportas e três igrejas, duas menores e uma principal. Em maio de 2023, o próprio Wilken empurrava o carrinho de sondas magnéticas quando detectou a anomalia que se revelaria a fundação da igreja central: 40 metros de comprimento por 15 de largura, dimensões comparáveis às maiores igrejas da Frísia do Norte medieval.

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Os objetos que provam a riqueza da cidade submersa

Além das estruturas arquitetônicas, as escavações recuperaram objetos que confirmam o papel de Rungholt no comércio de longa distância. O estudo de 2024 na Nature Scientific Reports registrou cerâmica vidrada com chumbo, grés importado, caldeirões de bronze fundido, caldeirões de latão martelado, espadas e faiança hispano-mourisca. Esses itens indicam conexões comerciais que iam muito além da Frísia.

O trabalho de campo, porém, é uma corrida contra o tempo. Os pesquisadores caminham mais de uma hora sobre lodo e lama para alcançar a área de trabalho, carregando todo o equipamento. As escavações são feitas em quadrados de um metro por um metro durante a maré baixa. A erosão já destruiu até dois metros de profundidade dos vestígios medievais em algumas áreas, e muitas estruturas só são detectáveis como marcas negativas no solo. O Mar de Wadden, hoje Patrimônio Mundial da UNESCO, preserva e ao mesmo tempo ameaça apagar o que resta de Rungholt.

A cidade medieval que sumiu em uma noite e levou 660 anos para ser encontrada sob o Mar do Norte (imagem ilustrativa)

Uma lição que veio do fundo do mar

Rungholt não é apenas uma curiosidade arqueológica. É o registro de uma comunidade que transformou a paisagem costeira para prosperar e, ao fazê-lo, criou as condições exatas para a própria destruição. Seiscentos anos depois, a mesma costa enfrenta a elevação do nível do mar com urgência renovada.

Você precisa conhecer essa história para entender que o mar não esquece o que lhe foi tirado.

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