O nome funde três palavras: Holanda, América e Brasil. A 135 km de São Paulo, Holambra cheira a rosa recém-cortada, exibe um moinho de 38 metros e guarda uma cápsula do tempo que só será aberta em 2108.
Vacas que morreram e sementes que mudaram tudo
Em 1948, cerca de 500 famílias católicas da província de Brabante do Norte deixaram uma Holanda devastada pela Segunda Guerra Mundial e se instalaram na antiga Fazenda Ribeirão, no interior paulista. O plano original era criar gado leiteiro. As vacas holandesas, porém, não resistiram às doenças tropicais e morreram em poucos meses.
A virada veio em 1951, quando um segundo grupo de imigrantes trouxe sementes de gladíolos na bagagem. Em duas décadas, a floricultura dominou a economia local. Hoje, a Cidade das Flores responde por cerca de 40% da produção florícola brasileira e 80% das exportações do setor, segundo a Assembleia Legislativa de São Paulo.

Como funciona o leilão reverso inspirado na Holanda?
A Cooperativa Veiling Holambra opera desde 1989 um sistema copiado de Aalsmeer, nos Países Baixos. Relógios eletrônicos chamados Kloks exibem preços que começam altos e descem até que um comprador pare o ponteiro. O complexo funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, e negocia mais de 4 mil variedades de flores e plantas.
O modelo é tão eficiente que realiza até 15 mil transações diárias. Compradores de todo o Brasil participam remotamente, em tempo real. Visitas guiadas acontecem às terças e sextas pela manhã, quando é possível assistir ao pregão ao vivo.

O moinho que guarda mensagens para daqui a 82 anos
O Moinho Povos Unidos tem 38,5 metros de altura, pás de 25 metros e pesa mais de 90 toneladas. Inaugurado em 2008 para celebrar os 60 anos da imigração, é o maior moinho típico de grãos da América Latina. O projeto é do arquiteto holandês Jan Heijdra, um dos poucos especialistas no mundo na construção dessas estruturas.
Em 12 de julho de 2008, a população lacrou dentro do moinho uma cápsula do tempo com mensagens dos moradores. A abertura está marcada para 12 de julho de 2108, exatos cem anos depois, conforme registra a Plataforma de Turismo do Governo de São Paulo.
Uma olimpíada exclusiva para descendentes de holandeses
Todo mês de julho, seis colônias holandesas espalhadas pelo Brasil se reúnem para o Zeskamp, uma olimpíada intercolonial disputada desde 1976. Participam Holambra e Campos de Holambra (SP), Castrolanda, Carambeí e Arapoti (PR) e Não-Me-Toque (RS). A inscrição é restrita: só competem holandeses, descendentes ou pessoas com vínculo direto com a comunidade imigrante.
O nome vem do holandês e significa “seis campos”, referência às seis colônias e às seis provas da gincana final. A competição inclui futsal, vôlei, futebol e o tradicional rummikub, jogo de mesa que mistura dominó, cartas e xadrez. A ideia nasceu em Holambra, em 1973, durante os festejos dos 25 anos da colônia, conforme registra a Associação Cultural Brasil-Holanda (ACBH).

98% disseram sim e a colônia virou cidade
Holambra permaneceu como distrito de Jaguariúna até 1991. Naquele ano, a comunidade organizou um plebiscito sobre a emancipação. O resultado foi quase unânime: 98% dos moradores votaram a favor. Sete anos depois, a Assembleia Legislativa de São Paulo concedeu à nova cidade o título de Estância Turística, garantindo repasse maior de verbas estaduais para o turismo.
Com IDH de 0,793, classificado como alto, a Cidade das Flores mantém ritmo de interior e infraestrutura que surpreende. São ruas com nomes de flores, ciclovias que lembram os Países Baixos e uma taxa de escolarização de 100% entre crianças de 6 a 14 anos.
Quem deseja visitar a capital nacional das flores, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal De fora em Juiz de Fora, que conta com mais de 310 mil visualizações, onde Tati Marmon apresenta 10 atrações imperdíveis em Holambra, no interior de São Paulo, como o Moinho dos Povos Unidos e a Expoflora:
Onde o Brasil decidiu florescer em holandês
Holambra é a prova de que sementes na bagagem e cooperativismo podem fundar uma cidade inteira. De um fracasso com vacas leiteiras nasceu a maior cadeia florícola da América Latina, com leilão eletrônico, moinho autêntico e uma olimpíada que só existe aqui.
Você precisa caminhar pelo Boulevard ao entardecer, sentir o perfume que muda a cada estação e entender por que 15 mil pessoas mantêm viva, a 135 km da capital, uma Holanda plantada no interior paulista.

