No centro árido da Austrália, a 700 km de qualquer costa, um lago que passa décadas vazio está virando oceano. Kati Thanda-Lake Eyre é o maior lago efêmero do planeta, com 9.500 km², e pode atingir capacidade total pela quarta vez em 160 anos. A água que alimenta esse espetáculo não cai ali: viaja centenas de quilômetros pelo deserto antes de chegar.
De onde vem a água que enche um lago no meio do nada?
A bacia do Lake Eyre cobre 1,2 milhão de km², quase um sexto do território australiano, espalhada por quatro estados. É um dos maiores sistemas de drenagem interna do mundo, segundo o Departamento de Meio Ambiente do governo australiano. O lago em si recebe apenas 140 mm de chuva por ano, mas evapora 2,5 metros no mesmo período. A conta nunca fecha.
O enchimento depende de monções que caem em Queensland, centenas de quilômetros ao norte. A água desce por dois sistemas principais: o rio Georgina-Diamantina e o Cooper Creek, que em época de cheia pode atingir 60 a 80 km de largura. A viagem leva semanas ou meses. Grande parte evapora no caminho. O que sobra encontra o ponto mais baixo da Austrália, a 15 metros abaixo do nível do mar.

Quantas vezes o lago encheu por completo em 160 anos?
Os registros apontam enchimentos totais em 1950, 1974 e 1984, segundo o National Parks and Wildlife Service da Austrália do Sul. O de 1974 foi o maior já documentado: 6 metros de profundidade em Belt Bay, a região mais funda do lago. Quando cheio, Kati Thanda-Lake Eyre leva cerca de dois anos para secar completamente. Na maior parte do tempo, é uma planície branca de sal e silêncio.
Em 1964, o piloto britânico Donald Campbell usou esse leito seco como pista e cravou 648 km/h a bordo do Bluebird CN7, recorde mundial de velocidade terrestre para veículos de quatro rodas na época. Dez anos depois, o mesmo chão branco desapareceu sob metros de água.
Por que 2026 pode ser o ano mais extraordinário desde 1974?
Em 2025, inundações históricas em Queensland empurraram entre 600 e 1.000 bilhões de litros para a bacia. O lago cobriu 80% da sua extensão máxima e atingiu pouco mais de 2 metros em Belt Bay e Madigan Gulf. A água ainda estava lá quando novas tempestades de monção chegaram no início de 2026, alimentadas por um sistema de baixa pressão que castigou o centro da Austrália em fevereiro.
Pela primeira vez em registros históricos, o lago pode ser inundado por dois anos consecutivos. Em meados de fevereiro de 2026, Belt Bay já marcava 1,3 metro de profundidade e Lake Eyre South também recebia água. Especialistas estimam que o pico chegue por volta de junho e que o enchimento possa rivalizar com o recorde de 1974. A Premier da Austrália do Sul descreveu o fenômeno como um dos eventos ecológicos e turísticos mais raros do país.
Este vídeo do canal ABC News In-depth mostra um evento raro: o enchimento do Kati Thanda-Lake Eyre, na Austrália, após grandes inundações. O vídeo destaca a transformação do deserto em um oásis e a importância cultural e ecológica desse fenômeno:
O lago sagrado que os Arabana pedem para não pisar
O nome Kati Thanda vem da língua Arabana e significa, nas narrativas tradicionais, “o lago formado quando a pele de um canguru foi estendida sobre o chão”. Os Arabana são os proprietários tradicionais, com título nativo reconhecido em 2012 pela Corte Federal australiana. A porção leste pertence ao povo Dieri.
Para os Arabana, o lago é sagrado e central nas histórias do Dreaming. Uma delas descreve Warrena, espírito guardião que emerge das águas. Pisar no leito, seco ou inundado, é desaconselhado por respeito cultural. O Kati Thanda-Lake Eyre National Park proíbe acesso recreativo ao leito desde 1985. Visitantes observam o espetáculo de mirantes ou por sobrevoos saindo de William Creek e Marree.
O que acontece quando a água finalmente chega?
Ovos de camarão-salino adormecidos por anos eclodem em dias. Peixes arrastados pelos rios alimentam milhares de aves migratórias vindas de lugares tão distantes quanto China e Japão. Pelicanos-australianos, banded stilts e gaivotas-prateadas se reproduzem às margens. Mamíferos raros como o Crest-tailed Mulgara e o Dusky Hopping Mouse aproveitam a fartura para se reproduzir.
Conforme a água evapora, o lago muda de cor. Microorganismos halófilos como a alga Dunaliella salina produzem pigmentos que tingem a superfície de rosa, laranja e vermelho. Em dezembro de 2025, satélites da NASA registraram Belt Bay e Madigan Gulf em tons completamente diferentes, provavelmente por abrigarem comunidades microbianas distintas.
O espetáculo que o deserto guarda para quem tem paciência
Kati Thanda-Lake Eyre é um dos fenômenos naturais mais imprevisíveis do planeta. Décadas de sal e silêncio podem dar lugar, em semanas, a um mar interior do tamanho de países inteiros. E depois, tudo evapora de novo, sem deixar rastro.
Se a ideia de ver um deserto virar oceano te fascina, 2026 pode oferecer a chance mais rara em meio século. O céu já enviou a água. Agora é o deserto que decide o que fazer com ela.

