Quem acompanha o agronegócio há anos sabe: um conflito no Oriente Médio nunca é apenas regional. Ele começa com tensão militar, mas rapidamente se transforma em choque econômico. Basta a ameaça ao tráfego no Estreito de Ormuz para o petróleo reagir. O gás dispara. O frete encarece. Energia cara é sinônimo de inflação resistente, e inflação resistente mantém os juros no topo. Juros altos encurtam o crédito. E o crédito curto, no campo, comprime a margem de quem produz.
O Brasil importa a maior parte dos fertilizantes nitrogenados, cuja produção depende diretamente do gás natural. Se o gás sobe lá fora, o custo por hectare sobe aqui. Somem-se a isso o diesel pressionado, o capital de giro mais caro e bancos mais seletivos. O que preocupa não é apenas a escassez, mas o preço e o financiamento caminhando em direções opostas. O problema é que esse choque atinge um mundo já fragilizado. A dívida global gira em torno de 350% do PIB mundial, somando governos, empresas e famílias. Em um ambiente assim, qualquer crise energética prolongada dificulta cortes de juros e torna o sistema financeiro defensivo. O Brasil, com endividamento elevado e inadimplência crescente no campo, entra nessa turbulência com pouquíssima margem de manobra. Há ainda o componente político que amplia o risco.
A possibilidade de aprofundamento do envolvimento militar, inclusive com o envio de tropas ao Irã, ocorre sem um debate amplo no Congresso americano e sem discussão estruturada em organismos multilaterais. Conflitos dessa natureza exigem legitimidade. Quando o apoio popular é limitado, a sustentação política tende a ser instável, e a instabilidade é o combustível que prolonga as guerras. A história recente é um alerta. A experiência no Iraque e no Afeganistão mostrou que intervenções na região raramente produzem desfechos rápidos. São conflitos de desgaste, cujos efeitos se estendem por anos. Do ponto de vista antropológico e cultural, o Irã é uma nação persa milenar, com identidade histórica profunda.
Pressões externas costumam provocar coesão interna: mesmo quem discorda do regime tende a defender o território diante de uma ameaça estrangeira. Guerras movidas por identidade nacional e religiosidade tendem a ser mais longas e, consequentemente, mantêm a energia cara por mais tempo. Para o agro brasileiro, o resumo é claro: custo maior, juros elevados por mais tempo e crédito restrito. Pode haver algum suporte nos preços internacionais das commodities, mas isso dificilmente neutralizará a alta dos insumos e da despesa financeira. Margem é equilíbrio, e o equilíbrio se quebra quando três variáveis críticas se deterioram ao mesmo tempo. O Brasil não está no campo de batalha. Mas, se esse conflito se consolidar como um erro estratégico de grandes proporções, o impacto chegará pelo canal mais sensível para o produtor: o custo, o financiamento e a confiança. E isso, no campo, pesa, e pesa muito. faça um titulo
*Coluna escrita por, Miguel Daoud, comentarista de economia e política na BM&C News. Administrador de Empresas, com especialização autodidata em Economia e Política, construiu uma trajetória consolidada no mercado financeiro e no agronegócio brasileiro.
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