Não existe asfalto, não existe semáforo e, quando a noite chega, quem ilumina as ruas é a lua. Em Jericoacoara, no litoral oeste do Ceará, a 300 km de Fortaleza, a areia que cobre cada beco e cada travessa não é cenário montado para turista. É consequência de quatro décadas de legislação ambiental que impediram a vila de pescadores de virar mais uma orla de concreto no Nordeste.
A legislação que manteve a areia nas ruas e o céu sem postes
A proteção de Jericoacoara começou em 1984, quando um decreto federal criou a Área de Proteção Ambiental (APA) ao redor da vila, cobrindo cerca de 200 km² de dunas, manguezais e lagoas. Na época da APA, as regras eram rígidas: construções não podiam ultrapassar quatro metros de altura e só 40% do terreno podia ser ocupado. Em 2002, um novo decreto recategorizou parte da área como Parque Nacional de Jericoacoara, com 8.850 hectares de proteção integral administrados pelo ICMBio.
Dentro da vila, postes de iluminação pública são proibidos para preservar a paisagem noturna. Veículos particulares não entram: ficam estacionados na entrada, e os últimos 15 km de acesso exigem tração 4×4 ou jardineira. Desde 2017, uma taxa de turismo sustentável de R$ 41,50 por visitante financia a manutenção ambiental e sanitária do município, gerida pela Adejeri. Em 2024, essa taxa arrecadou R$ 16 milhões.

De aldeia isolada a terceiro parque mais visitado do Brasil
Até meados dos anos 1980, Jericoacoara não tinha energia elétrica, telefone nem estrada. O acesso era por jangada ou longas caminhadas entre dunas. A virada começou em 1984, quando o The Washington Post incluiu a praia entre as dez mais bonitas do planeta. Mochileiros europeus e brasileiros começaram a chegar, atraídos pelo isolamento e pela beleza selvagem.
Hoje, o Parque Nacional de Jericoacoara é o terceiro mais visitado do Brasil, com mais de 1,5 milhão de visitas em 2024, atrás apenas da Tijuca e do Iguaçu, segundo levantamento do ICMBio. O Ceará recebeu 115.735 turistas internacionais em 2025, recorde da série histórica, com crescimento de 19,46% sobre o ano anterior, de acordo com a Secretaria de Turismo do Ceará (Setur). Franceses, portugueses e argentinos lideram a lista de visitantes estrangeiros.

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O que fazer entre dunas e lagoas cristalinas?
A vila é compacta, com tudo a poucos minutos a pé. As atrações do parque e do entorno se espalham por trilhas de areia, passeios de buggy e canoa. Estes são os programas essenciais:
- Pedra Furada: formação rochosa em arco esculpida pelo mar, cartão-postal do Ceará. Entre 15 de julho e 15 de agosto, o sol se encaixa no buraco da pedra ao se pôr. Acesso pela praia na maré baixa, cerca de 30 minutos de caminhada.
- Duna do Pôr do Sol: a oeste da vila, é o ponto mais disputado no fim de tarde. Dezenas de pessoas sobem a duna para assistir ao sol mergulhar no oceano, uma raridade geográfica possível pela posição peninsular de Jeri.
- Lagoa do Paraíso: 15 km² de água doce e transparente cercada por dunas, com redes dentro d’água, restaurantes e aulas de windsurf. Fica na sede de Jijoca de Jericoacoara.
- Lagoa Azul: mais rústica que a do Paraíso, com barracas simples e tom esmeralda na água. Apelidada de “Caribe nordestino”.
- Serrote e Farol: elevação rochosa de 95 metros com farol alimentado por energia solar. Vista panorâmica das dunas e do mar, ideal para o nascer do sol.
- Manguezais do Rio Guriú: passeio de canoa para avistar cavalos-marinhos (Hippocampus reidi) e percorrer canais entre manguezais preservados.
Quem deseja viajar para o paraíso de Jericoacoara, no Ceará, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Trip Partiu, que conta com mais de 34 mil visualizações, onde Juliana mostra os melhores passeios e dicas para economizar na região:
Kitesurf e ventos que atraem atletas do mundo inteiro
O vento constante entre julho e dezembro transforma Jericoacoara e a vizinha Praia do Preá em um dos circuitos de kitesurf mais procurados do planeta. As condições de vento lateral, água rasa nas lagoas e ausência de obstáculos atraem praticantes de mais de 30 países durante a temporada. A vila também oferece aulas de windsurf, stand up paddle, surf (na Praia da Malhada) e sandboard nas dunas.
Quando ir para Jericoacoara?
O clima é quente o ano todo, com temperaturas entre 22°C e 35°C. A grande diferença está nos ventos e nas chuvas, que definem o perfil de cada temporada:
| Período | Meses | Temperatura | Chuva | O que fazer |
|---|---|---|---|---|
| Chuvoso | Jan-Jun | 24-32°C | Alta (pico em março-abril) | Lagoas cheias, menos vento, paisagem verde |
| Seco e ventoso | Jul-Dez | 25-35°C | Baixa | Kitesurf, pôr do sol na Pedra Furada, alta temporada |
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. O período seco tem ventos fortes e céu limpo, ideal para esportes náuticos e contemplação.
Como chegar à vila sem estradas?
O ponto de partida mais comum é Fortaleza, a 300 km pela CE-085 e BR-402. São cerca de 280 km de asfalto até Jijoca de Jericoacoara, seguidos de aproximadamente 15 km de estrada de areia percorridos em jardineira 4×4 (incluída na passagem de ônibus). Empresas de transporte operam saídas diárias da Rodoviária e do Aeroporto de Fortaleza. O Aeroporto de Jericoacoara (JJD), em Cruz, recebe voos diretos de São Paulo e Fortaleza e registrou 49.276 assentos programados na alta temporada 2025/2026, segundo a Setur.
Pise na areia que protegeu Jeri do mundo
Jericoacoara existe como existe porque a areia nas ruas não é descuido. É decisão. Quatro décadas de proteção ambiental, somadas ao isolamento geográfico e à teimosia de uma comunidade que resistiu ao concreto, fizeram de uma vila de pescadores sem luz elétrica um destino que atrai franceses, portugueses e argentinos em voos diretos para o Ceará.
Você precisa chegar pelo sacolejo da jardineira, tirar os sapatos na primeira esquina e entender por que Jericoacoara é o tipo de lugar que muda a ideia do que uma praia pode ser.

