O mercado financeiro em 2026 foi o foco da última edição do Money Report, apresentado por Aluizio Falcão. Gravado com plateia no evento Perspectivas Money Report, o encontro reuniu Cila Schulman (cientista política e CEO do Ideia Instituto), Arthur Wichmann (COO da XP Inc.) e Daniel Maeda (superintendente jurídico da B3), além dos debatedores Emerson Lima (CEO da Saluter), Felipe Garofalo (CEO e fundador da Elitron) e Marco Castro (CEO da PwC).
A conversa partiu de um fenômeno observado desde o início do ano: a entrada relevante de capital estrangeiro no Brasil, acompanhada pela valorização da bolsa e pela queda do dólar. Para Daniel Maeda, o movimento não pode ser analisado apenas pela ótica doméstica. Ele argumentou que a combinação de instabilidade geopolítica global, crescimento fraco em economias maduras e busca por alternativas fez o país ganhar espaço no radar internacional.
“O Brasil passou a aparecer como opção intermediária entre economias desenvolvidas com baixo crescimento e emergentes com maior risco institucional“, avalia Daniel Maeda.
Mercado financeiro em 2026: eleições e incerteza política
A cientista política Cila Schulman afirmou que o calendário eleitoral deve influenciar diretamente o humor do investidor. Na avaliação dela, a disputa tende a girar em torno da continuidade ou não do atual governo, antes mesmo da consolidação das candidaturas.
Ela ressaltou ainda que um grupo pequeno de eleitores não polarizados, com presença relevante de pequenos empreendedores e mulheres nas grandes cidades, tende a ser decisivo.
“Esse público cobra impacto concreto na renda, segurança e atividade econômica“, analisa Schulman.
Outro fator destacado foi o Senado. Com forte renovação prevista, partidos estariam priorizando a formação de bancadas e alianças regionais, o que ajuda a explicar a movimentação política fora da disputa presidencial.
“O resultado é um ambiente de elevada imprevisibilidade para os agentes econômicos”, avalia.
Economia dividida e o dilema dos juros
Arthur Wichmann trouxe ao debate a percepção do empresariado. Ele avaliou que a economia apresenta comportamentos diferentes entre setores, com alguns expandindo e outros pressionados por crédito caro e endividamento elevado das famílias.
O executivo destacou que o país vive um conflito de políticas: estímulos fiscais sustentam consumo, enquanto o Banco Central mantém juros elevados para conter inflação. Esse quadro, segundo ele, cria dificuldade de leitura para investidores e empresas.
Wichmann afirmou que o Brasil terá de enfrentar o debate sobre o modelo econômico e a trajetória da dívida pública, já que crescimento sustentado depende de previsibilidade fiscal e ambiente de negócios mais favorável.
“A sociedade brasileira vai ter que decidir que país quer ser, porque não dá para gastar cada vez mais e não lidar com o endividamento”, analisa Wichmann.
Empresas pressionadas pelo curto prazo
Na visão de Marco Castro, da PwC, o cenário global amplia a cautela corporativa. Ele explicou que pesquisas internacionais com executivos mostram aumento relevante da preocupação com geopolítica e incerteza econômica, o que faz empresas priorizarem decisões imediatas.
Esse comportamento, segundo ele, reduz capacidade de planejamento de longo prazo e dificulta investimentos estruturais. O Brasil, acrescentou, perdeu posição relativa como destino preferencial de capital internacional, embora ainda preserve potencial relevante.
“O país atrai investidores quando oferece estabilidade e previsibilidade regulatória, condição que é necessária para transformar fluxos financeiros em investimentos permanentes“, pontua.
Inteligência artificial e transformação produtiva
O debate também abordou tecnologia. Emerson Lima explicou que a inteligência artificial já impacta empresas em duas etapas: primeiro na eficiência operacional e depois na mudança estrutural de cadeias produtivas.
Na avaliação dele, companhias que não adaptarem processos podem perder competitividade rapidamente. Ao mesmo tempo, o Brasil possui vantagem potencial pela matriz energética e pela demanda por infraestrutura digital, especialmente data centers.
Daniel Maeda acrescentou que até a infraestrutura de mercado financeiro depende cada vez mais de dados e tecnologia, e que instituições precisam incorporar inovação para manter relevância.
Cibersegurança entra no radar estratégico
Na parte final, Felipe Garofalo alertou para o crescimento dos ataques digitais. Ele afirmou que a digitalização acelerada, combinada com inteligência artificial, facilita fraudes e amplia o risco operacional das empresas.
Segundo ele, muitas invasões não ocorrem diretamente nas grandes corporações, mas em fornecedores menores conectados às suas redes. Por isso, a segurança cibernética deixou de ser tema técnico para se tornar questão de governança corporativa.
O executivo defendeu que conselhos e lideranças executivas passem a tratar o tema como prioridade, pois a frequência e a sofisticação dos ataques tendem a aumentar nos próximos anos.
“Hoje a pergunta não é se a empresa vai sofrer tentativa de ataque, é quando isso vai acontecer”, conclui.












