O Federal Reserve divulgou nesta quarta-feira (18) a ata de sua última reunião de política monetária, e o documento reforçou o que o mercado já suspeitava: o banco central americano está longe de um consenso sobre os próximos passos da taxa de juros.
De acordo com a ata, os membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) estão divididos entre iniciar cortes, manter a taxa estável por mais tempo ou, em um cenário adverso, até considerar novas altas caso a inflação volte a pressionar.
O documento afirma que “vários participantes comentaram que ajustes adicionais para baixo provavelmente seriam apropriados caso a inflação diminua em linha com as expectativas”. Ou seja, existe dentro do Fed uma ala que vê espaço para iniciar o ciclo de flexibilização monetária.
Por outro lado, uma parcela relevante dos dirigentes defende cautela. Segundo a ata, “alguns participantes comentaram que provavelmente seria apropriado manter a taxa básica de juros estável por algum tempo”, enquanto o Comitê segue avaliando cuidadosamente os dados econômicos.
Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, o documento confirma o cenário de incerteza já percebido pelos investidores. “O principal ponto da ata é mostrar um Fed claramente dividido sobre os próximos passos da política monetária”, afirma.
Segundo ele, a autoridade monetária manteve os juros inalterados após três cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual, decisão aprovada por ampla maioria, embora tenha havido dissidências defendendo um novo corte para apoiar o mercado de trabalho.
Castro Alves acrescenta que a condução da política monetária seguirá dependente dos indicadores econômicos: “A tendência é manter os juros atuais, podendo alterar a postura conforme a evolução dos dados de inflação e atividade”.
Corte não é garantido e alta não está totalmente descartada
O tom mais relevante do documento foi a sinalização de que a inflação continua sendo o principal obstáculo para qualquer mudança mais clara na política monetária.
A ata registra que vários membros consideram que um novo afrouxamento pode não ser justificado até que haja evidência clara de retomada do processo de desinflação. Em outras palavras, o Fed quer provas consistentes de que a inflação está voltando de forma sustentada à meta de 2%.
Mais do que isso, alguns dirigentes chegaram a defender uma comunicação mais equilibrada do banco central, contemplando também a possibilidade de alta de juros.
Segundo o documento, houve participantes que avaliaram que a declaração oficial deveria refletir “a possibilidade de ajustes para cima na meta para a taxa básica de juros serem apropriados caso a inflação permaneça acima da meta”.
Inflação continua sendo o risco central
Apesar das divergências sobre o caminho dos juros, houve consenso em um ponto: o risco inflacionário segue relevante. A maioria dos membros entende que a convergência para a meta de 2% pode ocorrer de forma mais lenta do que o esperado.
A ata também aponta que o risco de a inflação permanecer persistentemente acima da meta foi considerado significativo pelo Comitê.
Na prática, isso significa que o Fed ainda não está pronto para declarar vitória no combate à inflação e que os cortes de juros, esperados pelo mercado, continuam condicionados à evolução dos dados econômicos.
Para os investidores, a leitura central do documento é clara: o Federal Reserve permanece dependente dos dados (“data dependent”). A instituição não se comprometeu com um calendário de cortes e deixou aberta mais de uma trajetória possível para a política monetária. “O principal destaque foi a reação dos Treasury yields, que avançaram nos prazos de dois, dez e trinta anos”, destacou o estrategista da Avenue, observando que parte do movimento também refletiu uma recuperação técnica após a recente queda das taxas.
Assim, os próximos indicadores de inflação e de mercado de trabalho nos Estados Unidos deverão seguir sendo determinantes para o rumo dos juros e, consequentemente, para bolsas globais, dólar e fluxos de capital para emergentes, incluindo o Brasil.












