O chamado “acordo” entre Argentina e Estados Unidos não é um tratado convencional com assinatura solene e capítulos fechados. É um alinhamento estratégico. Envolve energia, minerais críticos, financiamento internacional, cooperação regulatória e integração a cadeias produtivas hemisféricas. Em síntese: a Argentina oferece ativos estruturais; Washington oferece capital, mercado e chancela geopolítica.
Esse movimento, porém, não se limita ao eixo Buenos Aires–Washington. Seus efeitos mais relevantes se projetam sobre Europa e Brasil, em proporções praticamente equivalentes.
Para a União Europeia, o reposicionamento argentino toca em três temas sensíveis: energia, transição verde e presença geopolítica. A Europa ainda enfrenta os desdobramentos da crise energética pós-Ucrânia. Diversificar fornecedores de gás e ampliar acesso a novas fontes tornou-se prioridade estrutural. A formação de Vaca Muerta, na Argentina, representa potencial relevante nesse contexto. Soma-se a isso o lítio, insumo essencial para baterias e mobilidade elétrica, eixo central da estratégia industrial europeia.
Se empresas americanas consolidarem posição dominante nos investimentos energéticos e minerários argentinos, a Europa corre o risco de perder precedência estratégica no acesso a esses recursos. Não se trata apenas de comércio corrente, mas de contratos de longo prazo e cadeias industriais.
O acordo comercial UE–Mercosul, cuja parte comercial está politicamente concluída, entra aqui como variável decisiva. O desafio europeu agora é jurídico e institucional: revisões técnicas, ratificações nacionais e eventual entrada em vigor provisória. Quanto maior a demora, maior o espaço relativo para consolidação da influência norte-americana no Cone Sul.
Existe também a dimensão regulatória. A União Europeia opera sob padrões ambientais rigorosos. Caso a Argentina alinhe parte de sua regulação energética a modelos mais flexíveis, próximos ao padrão norte-americano, pode surgir divergência normativa que complique integração produtiva com empresas europeias.
Por outro lado, há um efeito potencialmente positivo para Bruxelas. Se o alinhamento com Washington reduzir o risco-país argentino e estabilizar sua macroeconomia, investidores europeus também se beneficiam de ambiente mais previsível. Capital europeu não ignora oportunidades quando o risco diminui.
A questão para a Europa é essencialmente estratégica: agir com velocidade para preservar influência ou aceitar um papel secundário em uma região que volta ao centro do jogo global.
Brasil: competição, liderança e redefinição regional
Para o Brasil, o impacto é igualmente relevante, ainda que distinto em natureza. O país mantém vantagens estruturais claras: maior economia da América do Sul, mercado interno robusto, sistema financeiro sofisticado, agronegócio altamente competitivo e matriz energética relativamente limpa. Porém, liderança regional não é atributo permanente; depende de percepção de estabilidade e capacidade de articulação internacional.
Se a Argentina conseguir estabilizar sua economia e atrair investimentos energéticos significativos com respaldo americano, cria-se um novo polo de atração de capital no Cone Sul. Isso pode gerar competição direta por investimento estrangeiro, especialmente em setores energointensivos e em cadeias industriais associadas a minerais críticos.
Há também reflexos no Mercosul. Um aprofundamento argentino nas cadeias norte-americanas pode estimular debates sobre maior flexibilidade tarifária e autonomia comercial dentro do bloco. O Mercosul poderá ser pressionado a se tornar mais pragmático ou enfrentar tensões internas.
Para o Brasil, a resposta não deve ser reativa, mas estratégica. O país tem condições de ocupar posição singular: parceiro comercial relevante da Europa via acordo UE–Mercosul e ator econômico relevante para os Estados Unidos, sem alinhamento automático.
Em um cenário de reorganização global, capacidade de transitar entre polos — Europa, Estados Unidos e Ásia — torna-se vantagem competitiva. Portanto, o alinhamento Argentina–EUA não é ideológico. É essencialmente pragmático: energia em troca de capital, minerais críticos em troca de estabilidade financeira, influência em troca de previsibilidade regulatória.
Para a Europa, o desafio é preservar acesso e relevância estratégica no Cone Sul. Para o Brasil, o desafio é reafirmar liderança regional sem cair em competição retórica. A América do Sul volta a ser território de disputa econômica sofisticada. E, nesse novo ciclo, quem agir com pragmatismo estratégico, e não com reflexo ideológico, ocupará o espaço decisivo.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista e empresário no Brasil, CEO da Energy Group e vice-presidente de finanças da Camara Italiana do Comércio de São Paulo – Italcam
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