Na madrugada da quarta-feira santa, as luzes da Cidade de Goiás se apagam por completo. O silêncio dura poucos segundos. Então, o rufar dos tambores começa a ecoar pelas ruas de pedra da antiga capital goiana e 40 homens encapuzados surgem das sombras com tochas acesas, encenando a perseguição a Jesus Cristo numa tradição que a cidade mantém desde 1745.
A noite em que os farricocos tomam as ruas coloniais
A Procissão do Fogaréu tem início exatamente à meia-noite em frente ao Museu de Arte Sacra da Boa Morte. Os farricocos, como são chamados os participantes, caminham descalços pelas ruas de pedra com vestes longas de cores vibrantes, chapéus pontudos e tochas acesas, representando os soldados romanos que perseguiram Jesus antes de sua prisão. O ritmo da marcha é ditado por uma fanfarra, cujos diferentes toques comandam os passos dos 40 encapuzados pelo traçado colonial da cidade.
A tradição foi trazida ao Brasil pelo padre espanhol João Perestello de Vasconcelos Spíndola e tem raízes em Sevilha, na Espanha. Desapareceu no início do século XX e foi reinventada em 1965 pela Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT) a partir de pesquisas junto à população local. Segundo a Secretaria de Estado da Cultura de Goiás, a procissão foi reconhecida como Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado em 2023, pela Lei nº 21.855. O processo de registro federal como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) foi iniciado em 2020 e aguarda decisão final.
A encenação não é a única da Semana Santa. Durante toda a semana, a cidade recebe missas, vigílias, via-sacras e procissões que reúnem elementos católicos, afrodescendentes e indígenas, numa sobreposição cultural que os pesquisadores do Iphan descrevem como hibridismo religioso. Em 2023, a Semana Santa atraiu mais de 40 mil visitantes somente para o Fogaréu.

O conjunto colonial que a UNESCO protege desde 2001
A Procissão do Fogaréu não seria a mesma sem o cenário que a envolve. A Cidade de Goiás preserva mais de 90% de sua arquitetura barroco-colonial original, o que rendeu ao seu centro histórico o título de Patrimônio Mundial da UNESCO em 16 de dezembro de 2001. O conjunto havia sido tombado pelo Iphan em 1978.
Fundada em 1727 por Bartolomeu Bueno da Silva Filho durante o ciclo do ouro, a antiga Vila Boa de Goiás foi a primeira capital do estado e perdeu esse status em 1937, quando Goiânia foi inaugurada. A estagnação que se seguiu à transferência preservou, sem querer, o traçado colonial intacto. Igrejas do século XVIII, o Palácio Conde dos Arcos, o Museu das Bandeiras e os becos de pedra que serpenteiam o casario formam um dos acervos arquitetônicos mais autênticos do Brasil Central.
Cora Coralina: a doceira que escreveu os becos da cidade
Anna Lins dos Guimarães Peixoto nasceu em 1889 nessa mesma cidade e nunca a abandonou de verdade, mesmo quando viveu décadas em São Paulo. Ao voltar para Goiás em 1956, aos 67 anos, passou a fazer doces cristalizados de figo, mamão, abóbora e cajuzinho do cerrado para sobreviver. Era a mesma mesa onde alternava a peneira da calda com o caderno de rascunhos. Só publicou seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás, em 1965, aos 76 anos. O pseudônimo Cora Coralina significava, em sua própria explicação, coração vermelho.
A fama veio tarde e de longe: foi uma carta do poeta Carlos Drummond de Andrade, em 1979, que levou jornalistas a procurar a cidade no mapa e descobrir a doceira-poeta. Hoje, o Museu Casa de Cora Coralina, instalado na Casa Velha da Ponte à margem do Rio Vermelho, é um dos pontos mais visitados da cidade. O quintal onde ela plantava as frutas dos doces pode ser visitado, assim como a cozinha com os tachos de cobre e os móveis originais.

O que ver além da procissão na antiga capital goiana
A cidade tem um centro histórico compacto e percorrível a pé, com atrações concentradas em poucos quarteirões. Quem chega fora da Semana Santa encontra uma cidade tranquila, sem o fluxo intenso de julho, com os espaços mais acessíveis e os preços mais em conta.
- Museu Casa de Cora Coralina: casarão do século XVIII com acervo de 10 mil documentos, móveis originais, a cozinha dos doces e o quintal da poetisa. Aberto de terça a domingo.
- Palácio Conde dos Arcos: antigo Palácio dos Governadores do século XVIII, hoje museu com mobiliário e objetos da época colonial. Ponto de partida do Fogaréu.
- Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte: única com elementos barrocos na fachada, abriga o Museu de Arte Sacra com imagens do escultor local Veiga Valle.
- Igreja de Santa Bárbara: no alto do morro, aberta apenas na festa da padroeira em dezembro, oferece uma das vistas mais bonitas da cidade após subida de cerca de 100 degraus.
- Becos históricos: cerca de 16 becos de pedra percorrem a cidade, imortalizados na obra de Cora Coralina. O Beco da Escola e o Beco do Seminário estão entre os mais fotografados.
- Rio Vermelho: margeado pelo casario colonial, oferece passeios à beira d’água e é palco de procissões durante a Semana Santa.
Quando ir à Cidade de Goiás para cada tipo de experiência?
O clima é quente e seco durante boa parte do ano, típico do cerrado goiano. A Semana Santa, que ocorre entre março e abril, concentra o maior fluxo de visitantes e exige reservas antecipadas. O período seco, de maio a setembro, é o mais confortável para caminhadas pelo centro histórico.
Quando ir à Cidade de Goiás para cada tipo de experiência?
Semana Santa
Inverno seco
Primavera
Verão
Como chegar à antiga capital de Goiás
A Cidade de Goiás fica a cerca de 144 km de Goiânia pela GO-070, com viagem de aproximadamente 2 horas de carro. O aeroporto mais próximo é o de Goiânia, com voos regulares de várias capitais. Ônibus partem da rodoviária de Goiânia regularmente. Para quem vem de Brasília, a distância é de cerca de 320 km pela BR-070.
Uma cidade que precisa ser sentida de perto
A Cidade de Goiás guarda algo raro: a sensação de que o tempo passou mais devagar por ali. O mesmo conjunto de pedras que sustentou os sanatórios do ouro viu Cora Coralina misturar calda e versos na mesma cozinha, e hoje recebe quem atravessa o cerrado para ver, com os próprios olhos, 40 homens encapuzados caminhando em silêncio por ruas que a UNESCO considerou patrimônio de toda a humanidade.
Vale fazer a viagem até a antiga Vila Boa para entender por que uma cidade pequena no coração do Brasil guarda uma das encenações mais emocionantes do calendário cultural do país.

