Por mais de cem anos, o Canal do Panamá foi uma rota essencial para o comércio global, encurtando a viagem entre os oceanos Pacífico e Atlântico. Mas os navios cresceram demais. Embarcações modernas, capazes de transportar mais de 10 mil contêineres, simplesmente não passavam pelas antigas eclusas. A solução veio com uma expansão do Canal do Panamá de US$ 5,25 bilhões, uma das maiores obras de engenharia das Américas neste século, que permitiu a travessia de gigantes dos mares e redefiniu a logística mundial.
Por que o canal original se tornou obsoleto?
Inaugurado em 1914, o canal foi dimensionado para os navios de sua época. Um século depois, os navios de contêineres cresceram dramaticamente. Embarcações como o D’Artagnan podem transportar até 13 mil contêineres, quase o triplo da capacidade dos navios originais. O problema? Eles são largos e profundos demais para passar pelas eclusas originais, que têm apenas 33,5 metros de largura. A alternativa era um desvio pela América do Sul, que adicionava mais de duas semanas de viagem e consumia milhões de galões de combustível extra.
Segundo o engenheiro Luis Ferreira, que trabalhou no projeto, “os barcos estão crescendo e não podem passar pelo canal existente. Precisamos de um canal maior”. A expansão tornou-se urgente para manter a relevância da rota.
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Quais foram os números da mega obra?
A escala da construção impressiona. Foram necessários anos de trabalho, milhares de trabalhadores e equipamentos de última geração para transformar o canal. Os principais números da expansão incluem:
- Investimento total – US$ 5,25 bilhões.
- Terra e rocha escavadas – 150 milhões de metros cúbicos.
- Concreto utilizado – 4,4 milhões de metros cúbicos.
- Aço estrutural – 192 mil toneladas.
- Novas eclusas – dois complexos gigantes (um no Pacífico, um no Atlântico).
- Comportas – 16 ao todo, cada uma com altura de um prédio de 11 andares.
- Área de munições limpa – 460 hectares, com mais de 3 mil artefatos explosivos removidos.
- Trabalhadores no pico da obra – mais de 20 mil.

O canal Blueprint, com mais de 166 mil inscritos, produziu um documentário detalhando os desafios de engenharia e as inovações históricas que tornaram a expansão possível. No vídeo, é possível ver as comportas gigantes sendo instaladas e os navios atravessando as novas eclusas:
Quais inovações garantiram o sucesso da obra?
A expansão exigiu soluções inéditas. O primeiro grande obstáculo foi o terreno. Para alargar e aprofundar os canais de acesso, os engenheiros usaram equipamentos como o D’Artagnan, uma draga de rocha controlada por computador, capaz de quebrar a pedra mais dura. Mas havia um problema ainda mais perigoso: parte da área a ser escavada era um antigo campo de tiros da Marinha dos EUA, cheio de munições vivas.
A solução veio com uma tecnologia inspirada no detector de minas inventado pelo polonês Józef Kosacki na Segunda Guerra Mundial. Versões modernas do aparelho foram usadas para localizar e remover mais de 3 mil artefatos explosivos sem nenhum acidente. “Essa foi uma das maiores desafiações, porque, graças a Deus, ninguém se machucou e nós limpamos 460 hectares de ordens sem explosão”, relatou Jorge de la Guardia, gerente de contratos da obra.
Como funcionam as novas eclusas gigantes?
As novas eclusas são as maiores do mundo. Cada uma tem três câmaras que elevam os navios em etapas, totalizando 27 metros de altura, o equivalente a um prédio de oito andares. Para selar essas aberturas monumentais, os engenheiros usaram comportas de rolamento (caissons), uma ideia que remonta ao século XVIII. São 16 comportas fabricadas na Itália, com peso entre 2,5 mil e 4,4 mil toneladas cada, algumas mais pesadas que um prédio de 11 andares.

O sistema de enchimento e esvaziamento das eclusas também é inovador: bacias laterais reutilizam 60% da água, um recurso precioso em um país de estações secas. A tabela abaixo compara as características das eclusas antigas e novas:
| Característica | Eclusas originais (1914) | Novas eclusas (2016) |
|---|---|---|
| Comprimento | 305 m | 427 m |
| Largura | 33,5 m | 55 m |
| Profundidade | 12,5 m | 18,3 m |
| Capacidade do navio | Até 5 mil TEUs* | Até 14 mil TEUs |
| Sistema de água | Perda total | Reúso de 60% |
*TEU = unidade equivalente a um contêiner de 20 pés.
Que impacto a expansão teve na logística mundial?
Com a expansão, o Canal do Panamá recuperou sua posição de protagonista no comércio global. Navios que antes precisavam contornar a América do Sul agora cruzam em poucas horas, economizando tempo e combustível. A capacidade anual da via praticamente dobrou, e os portos americanos e asiáticos ganharam uma nova eficiência. Para o piloto Mario Chong, que guia essas embarcações gigantes, o desafio aumentou: “É um grande desafio, mas é o que nós pilotos gostamos. Nós gostamos de desafios”.
A obra de US$ 5 bilhões não apenas ampliou o canal, mas escreveu um novo capítulo na história da engenharia, provando que é possível modernizar estruturas centenárias com inovação, ousadia e respeito pelo legado do passado.

