Nesta semana, o presidente da Câmara, Hugo Motta, deixou claro que vai pautar uma proposta para mudar o regime de jornada de trabalho no Brasil. Ainda não se sabe qual texto será colocado em votação, mas é certo que o tema será votado ainda no primeiro semestre. O empresariado, como era de se esperar, está chiando. A Confederação Nacional da Indústria, por exemplo, diz que as despesas com mão de obra no setor vão crescer em R$ 178,8 bilhões. Do outro lado do espectro ideológico, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada estima que os custos com a mudança nas regras trabalhistas devem impactar a folha das empresas em apenas 7,84%, um custo que poderia ser assumido pelos empregadores.
Talvez ainda não existam condições para que se calcule corretamente o tamanho das consequências de reduzir em quatro horas e incluir um dia de folga à jornada semanal. Mas é inevitável um aumento de custos que provocará mudanças significativas. Vários empresários ligados ao varejo, por exemplo, afirmam que o atual modelo de negócios não fica em pé caso a legislação sofra tais transformações. Por isso, é de se esperar que a elevação de despesas traga a reboque alguma carga inflacionária.
As empresas brasileiras terão de se adaptar às novas regras e a maioria esmagadora vai sobreviver ao novo modelo, assim como no passado houve ajustes para acatar o salário-mínimo, o décimo-terceiro e demais regras da CLT. O problema é que o custo trabalhista brasileiro já é alto e, com as mudanças na jornada, vai ficar ainda maior.
Com isso, a competitividade das empresas nacionais, que já não é muito boa, vai cair ainda mais. Nossos índices de produtividade também vão piorar. A competitividade brasileira já parte de uma base frágil e os números de produtividade deixam isso evidente. Enquanto um trabalhador americano produz US$ 97,05 por hora, o brasileiro entrega menos da metade disso — e fica atrás até mesmo de economias emergentes. Mesmo países com desafios estruturais semelhantes, como o Chile, alcançam US$ 36,51 por hora, superando o Brasil. A distância para economias desenvolvidas é ainda maior: os Estados Unidos operam com produtividade quase três vezes superior à chilena e muito acima da brasileira, o que reduz drasticamente nossa capacidade de competir globalmente.
A comparação com outras regiões reforça o problema. Na Ásia, a Coreia do Sul — que há poucas décadas tinha indicadores próximos aos nossos — hoje registra US$ 54,64 por hora, muito acima do patamar brasileiro. Esses números mostram que o trabalhador brasileiro produz menos por hora trabalhada e contam com menor suporte tecnológico, o que limita bastante a competitividade das empresas nacionais.
Além disso, os países mais produtivos não possuem legislações trabalhistas tão rígidas quanto as normas brasileiras. Nos Estados Unidos, a flexibilidade contratual é ampla; no Chile, as regras são mais simples e menos custosas; na Coreia do Sul, apesar de proteções importantes, o sistema permite ajustes mais rápidos às necessidades das empresas. Em todos esses casos, a legislação busca equilibrar proteção ao trabalhador com dinamismo econômico, algo que o Brasil ainda não conseguiu alcançar.
A pressa em aprovar uma mudança tão profunda na jornada justamente em ano eleitoral adiciona um componente de demagogia que pode custar caro ao país. Alterações desse porte exigem transição, previsibilidade e diálogo real com quem sustenta a atividade econômica. Se o impacto sobre os empresários for grande demais, muitos simplesmente fecharão as portas — e, nesse cenário, o maior prejudicado será justamente o trabalhador que o governo afirma querer proteger. Um debate sério sobre jornada 6×1 não pode ignorar que produtividade é o verdadeiro nó estrutural; sem enfrentá‑lo, qualquer mudança corre o risco de produzir mais desemprego do que direitos.
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.












