A indústria brasileira passou a conviver com um paradoxo no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo em que o país registra uma das menores taxas de desemprego da série histórica, as empresas enfrentam dificuldade crescente para contratar. A falta de mão de obra qualificada tornou-se um dos principais entraves à atividade industrial, segundo nota técnica divulgada nesta segunda-feira (9) pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Dados do IBGE mostram que a taxa de desocupação no trimestre encerrado em dezembro ficou em 5,1%, o menor nível desde o início da série atual, em 2012. Ainda assim, a melhora do emprego não se traduz automaticamente em oferta de trabalhadores preparados para as vagas abertas no setor produtivo.
A CNI aponta que a escassez de profissionais qualificados compromete diretamente a competitividade das empresas e obriga as companhias a investir em treinamento e requalificação para preencher postos de trabalho.
Falta de mão de obra qualificada é problema crescente após a pandemia
A sondagem industrial da entidade revela que a percepção de falta de mão de obra qualificada aumentou fortemente nos últimos anos. Entre 2015 e 2020, apenas cerca de 5% das empresas citavam o tema como preocupação relevante. A partir da pandemia, o percentual passou a subir quase continuamente, atingindo 23% das assinalações em 2024.
No levantamento mais recente, o problema aparece como o quarto maior entrave do setor, atrás apenas da elevada carga tributária, dos juros altos e da demanda interna insuficiente.
Entre pequenas empresas, o impacto é ainda mais intenso: 28,4% delas relatam dificuldade para contratar trabalhadores preparados, colocando o tema na segunda posição do ranking, atrás somente dos impostos.
Segundo o diretor de Economia da CNI, Mário Sérgio Telles, a escassez afeta diretamente a eficiência operacional.
“Sem trabalhador qualificado, as empresas têm dificuldade para aumentar a produtividade, afetando tanto a busca por eficiência quanto a redução de desperdícios”, afirma.
Emprego alto e falta de mão de obra qualificada
O cenário também revela uma distorção estrutural do mercado de trabalho brasileiro. Apesar do baixo desemprego, cerca de 38% dos ocupados estão na informalidade, sem registro ou proteção social.
Além disso, pesquisas recentes mostram mudança de comportamento profissional, especialmente entre jovens. Levantamento do Datafolha indica que 59% dos brasileiros preferem trabalhar como autônomos, percentual que chega perto de 70% entre pessoas de 16 a 24 anos.
Na prática, isso significa que vagas industriais formais permanecem abertas mesmo em períodos de mercado de trabalho aquecido.
Educação e tecnologia ampliam o desafio
A indústria tem buscado capacitar trabalhadores internamente, mas encontra limitações. A CNI avalia que lacunas na educação básica dificultam o aprendizado técnico e reduzem o interesse pela qualificação profissional.
O avanço tecnológico também pressiona o setor. Automação, digitalização de processos e novas exigências organizacionais aumentam a necessidade de atualização constante. Segundo o Mapa do Trabalho Industrial, três em cada cinco trabalhadores precisarão passar por treinamento até 2027.
O objetivo principal das capacitações é adequar competências às necessidades produtivas, mas o esforço eleva custos e reduz a velocidade de expansão das empresas.
Impacto econômico vai além das fábricas
Economicamente, a falta de mão de obra qualificada deixa de ser apenas um problema trabalhista e passa a afetar o crescimento potencial do país. A baixa produtividade reduz investimentos, limita ganhos de eficiência e diminui a capacidade de competição da indústria brasileira frente a outros países.
O quadro ajuda a explicar por que a recuperação do emprego não se traduz automaticamente em aumento de produção. Com dificuldade para encontrar profissionais preparados, empresas adiam projetos, operam abaixo da capacidade e direcionam recursos para treinamento em vez de expansão.














