Fisiologismo, no campo da ciência, é o ato de reduzir ao funcionamento do corpo humano a explicação de qualquer fenômeno que ocorra com uma determinada pessoa. No Brasil, no entanto, esse termo é utilizado para explicar o toma-lá-dá-cá que existe na política e é bastante conhecido pelos políticos do Centrão. Os centristas são conhecidos por uma orientação econômica de direita e valores conservadores. Mas, na hora H, muitos passam por cima de seus conceitos e fazem qualquer negócio para obterem vantagens pessoais.
Tome-se como exemplo o senador Ciro Nogueira, um dos símbolos máximos do Centrão e ex-ministro da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro. Durante anos, atacou o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas, na semana passada, teve uma reunião no Planalto, na qual propôs uma troca de favores: ele afastaria o seu partido, o Progressistas, da campanha do senador Flávio Bolsonaro à presidência e, em compensação, o PT não criaria entraves para sua reeleição pelo Piauí.
Lula também acenou a outro polo importante do Centrão: ofereceu a vice-presidência de sua chapa ao MDB, rifando sem dó o atual substituto, Geraldo Alckmin. Neste caso, porém, atrair os emedebistas é mais difícil. Cerca de 17 diretórios estaduais do partido estão alinhados com a oposição, o que torna os governistas minoria dentro da sigla.
Por fim, temos o PSD de Gilberto Kassab, que abriga três presidenciáveis: os governadores Ratinho Jr., Ronaldo Caiado e Eduardo Leite. É praticamente certo que um deles estará na cédula eleitoral no primeiro turno. No entanto, as chances de o PSD disputar a etapa final das eleições, hoje, são pequenas. É por isso que o PT tenta alinhar acordos para atrair os pessedistas para o segundo turno.
Pegaria muito mal para Kassab optar pelo apoio formal a Lula. Mas a neutralidade – acompanhada por um conveniente sumiço dos líderes do partido na segunda quinzena de outubro – já seria muito bem-vinda por Lula. O dirigente do PSD, por enquanto, não dá sinais do que poderia fazer e vai usar isso para afinar melhor sua estratégia política (para conseguir, por exemplo, figurar como vice na chapa de reeleição do governador Tarcísio de Freitas em São Paulo).
O senador Flávio Bolsonaro, assim, terá de se desdobrar na arte de costurar apoios políticos junto aos especialistas neste quesito.
Na semana que passou, o dono de um instituto de pesquisas dizia em uma reunião social que percebe um desgaste significativo do PT junto à população, afetando justamente os eleitores independentes que deram a vitória a Lula em 2022. Para esse profissional, Flávio pode chegar em outubro com 51% do eleitorado.
Mas ele utiliza uma metáfora futebolística para opinar que o cenário está aberto. “Imagine que há dois times fortíssimos disputando uma final, só que o do Flávio tem na zaga Felipe Mello e Júnior Baiano”, diz, referindo-se a ex-jogadores que se notabilizaram pelo comportamento irascível e imprevisível em partidas decisivas. Para ele, no grupo de apoiadores próximos ao senador, há lideranças que podem trazer crises políticas ao longo da campanha ou em seu estágio final, a exemplo de Roberto Jefferson e Carla Zambelli em outubro de 2022. Isso, para este analista político, poderá ser fatal para a candidatura de direita.
Flávio Bolsonaro deve ser competitivo, mas dependerá de uma rede de apoios marcada por interesses imediatos e por figuras que já demonstraram capacidade de produzir turbulências em momentos decisivos. A instabilidade que ronda parte de seu entorno político funciona como um lembrete de que campanhas não se vencem apenas com números favoráveis nas pesquisas. O maior desafio do senador será atravessar o processo sem que seus próprios aliados criem obstáculos capazes de comprometer sua trajetória.
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