A crise fiscal voltou ao centro do debate econômico brasileiro já nos primeiros dias do ano legislativo. Em entrevista à BM&C News, Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, afirmou que 2026 não será um ano de ajuste e que o país caminha para empurrar o enfrentamento das contas públicas para os próximos ciclos políticos.
Segundo Cruz, o início dos trabalhos no Congresso já trouxe sinais claros de pressão sobre o gasto público. Ele destacou a aprovação de medidas que somam mais de R$ 10 bilhões, podendo chegar a R$ 13 bilhões, envolvendo reajustes salariais e despesas permanentes, em um contexto no qual o espaço fiscal é cada vez mais limitado.
“O gasto cresce logo na largada do ano legislativo, enquanto o ajuste fica sempre para depois”, afirmou.
Crise fiscal e o arcabouço fragilizado
Na avaliação do estrategista, o arcabouço fiscal não cumpriu a promessa de estabilizar a trajetória da dívida pública.
“O arcabouço mostrou que pode ser contornado com relativa facilidade. Fica difícil falar em cumprimento efetivo quando não há compromisso real com a consolidação fiscal”, disse.
Para Cruz, o mecanismo deve encerrar seu ciclo muito fragilizado, sem entregar o que foi anunciado ao mercado.
Ele ressalta que, embora o governo mencione controle de gastos em discursos oficiais, não há sinalização de medidas estruturais capazes de alterar o quadro fiscal.
“Não se fala em reforma administrativa, que está praticamente adormecida no Congresso. Isso seria um sinal claro de compromisso, mas não aparece como prioridade”, observou.
Eleição primeiro, ajuste depois
Cruz avalia que a lógica política deve prevalecer ao longo de 2026. Com parlamentares focados na reeleição, a tendência é evitar pautas consideradas impopulares.
“É um ano em que se busca a reeleição e depois se discute como pagar a conta. O resultado é um volume crescente de restos a pagar empurrados para os próximos anos”, afirmou.
O estrategista também destacou que o debate fiscal deve ganhar peso no processo eleitoral, mas alertou que isso não garante avanços concretos.
“Vai ser tema de campanha, mas não necessariamente de solução”, disse.
Congresso e responsabilidade compartilhada
Na leitura de Cruz, o enfraquecimento da agenda de reformas não é responsabilidade exclusiva do Executivo. Ele apontou que decisões recentes do Legislativo e do Judiciário também contribuíram para aumentar a pressão fiscal logo no início do ano.
“É importante dar peso a todos que estão jogando contra a agenda de reformas. A liderança é do Executivo, mas o Congresso tem papel central”, afirmou.
Ambiente externo ajuda, mas não resolve a crise fiscal
Apesar do quadro doméstico desafiador, Cruz pondera que o Brasil pode se beneficiar, no curto prazo, de um ambiente externo mais favorável aos mercados emergentes.
“Os emergentes estão em alta, e isso pode fazer com que o Brasil passe um pouco mais desapercebido dos seus problemas internos”, disse.
Ainda assim, ele alerta que esse alívio não substitui o ajuste estrutural.
“O cenário externo ajuda, mas não resolve a crise fiscal”, concluiu.












