A retomada dos trabalhos em Brasília em 2026 veio cercada de ritos, discursos e gestos protocolares, mas longe de enfrentar os temas centrais que pressionam o sistema político e econômico. No Painel BM&C, apresentado por Paula Moraes, o debate girou em torno do Banco Master, caso que domina os bastidores do poder, mas permanece ausente das falas oficiais, um silêncio que, segundo os convidados, virou estratégia.
Para os analistas dessa edição, a encenação institucional esconde um ambiente defensivo. A leitura é que os Três Poderes buscam ganhar tempo, evitando decisões que conectem responsabilidade, interesses e consequências.
“Quando o sistema se preocupa mais com a forma do que com o conteúdo, o problema não é de rito, é de fundo”, resumiu a abertura do programa.
Silêncio como método no Caso Banco Master
Miguel Daoud, analista de economia e política destacou que o retorno cerimonial dos Poderes serve mais para reafirmar posições do que para enfrentar a realidade. Na avaliação dele, Executivo, Legislativo e Judiciário têm graus distintos de envolvimento em temas sensíveis e, por isso, evitam puxar fios que podem levar a responsabilidades cruzadas.
“Cada um promete o que não conseguirá cumprir na esquina seguinte”, afirmou.
Carlos Honorato, economista e professor da FIA Business School reforçou a percepção de que há um acordão implícito para empurrar decisões adiante. Segundo ele, quanto mais se investiga, mais conexões aparecem.
“É uma tentativa de segurar a água depois que a barragem já rompeu. Em algum momento, alguém vai ser entregue”, disse.
Caso de polícia ou risco maior?
O mestre em economia Roberto Dumas foi direto ao classificar o episódio como um caso de polícia, diferenciando-o de crises clássicas de risco sistêmico financeiro, como a do Lehman Brothers. Para ele, até agora não há sinais de paralisação do mercado interbancário ou contágio entre grandes instituições.
“Não vejo risco sistêmico financeiro neste momento”, afirmou.
O alerta, porém, não é trivial. O custo da conta, segundo Dumas, tende a recair sobre a sociedade, seja por ajustes no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), seja por efeitos indiretos no crédito e na confiança.
“Nada sai de graça”, pontuou.
Miguel Daoud fez um contraponto importante: se o risco financeiro ainda parece contido, o risco político já está em curso.
“O problema é institucional. Quando tudo começa a parar, quando sigilos entram em pauta e conexões aparecem, o sistema político pode travar”, alertou.
Impacto institucional e custo de capital
Honorato ampliou o diagnóstico ao destacar que não é possível descartar completamente riscos mais amplos. Para ele, a combinação entre financiamento político, estruturas de poder e relações institucionais cria um ambiente de incerteza que afeta diretamente a confiança.
“Blindar agora pode sair mais caro depois, inclusive no custo de capital e no investimento no Brasil”, afirmou.
O economista chamou atenção para discussões já em curso sobre o uso de instrumentos como depósitos compulsórios para socorrer o FGC, o que poderia gerar efeitos colaterais relevantes em outras áreas da economia, como o crédito ao agronegócio.
Agenda empurrada para 2027
Um ponto comum entre os convidados foi a avaliação de que a agenda real do país não é 2026, mas 2027. Reformas estruturais, fiscal, administrativa e política, seguem fora do horizonte imediato, em um ano eleitoral marcado por medidas de curto prazo e expansão de gastos.
Para Daoud, a dinâmica atual indica ausência de governo efetivo.
“Há liberação de recursos, pressão inflacionária e promessas, mas não há condução estratégica”, disse.
Dumas complementou lembrando que a trajetória da dívida pública segue preocupante, com custo de carregamento superior ao crescimento econômico, o que tende a pressionar ainda mais o cenário à frente.
Confiança em xeque
O debate também abordou o papel das instituições, especialmente do Judiciário, e o impacto de decisões e discursos sobre a percepção de estabilidade. A avaliação é que a falta de harmonia entre política fiscal e monetária, aliada ao avanço de temas sensíveis sem enfrentamento direto, corrói a confiança e aumenta a incerteza.
Ao final, a conclusão foi quase unânime: o caso Banco Master tornou-se um símbolo de algo maior, a dificuldade do sistema brasileiro em lidar com crises de forma transparente e estrutural. Como resumiu uma das frases mais repetidas no programa, “é surpreendente estarmos surpresos”.
Enquanto o silêncio oficial persiste, a conta segue sendo empurrada para frente, e 2027 aparece, cada vez mais, como o ponto em que ela inevitavelmente será apresentada.












