Depois do Chile, a Costa Rica também teve eleições que foram dominadas pelo debate em torno da segurança pública. Nos dois países, quem defendeu um endurecimento no combate a violência saiu vencedor das urnas. No caso do país da América Central, ganhou a ex-ministra Laura Fernandéz (imagem), de direita.
A violência na Costa Rica vinha crescendo de forma constante ao longo da última década, marcada principalmente pelo aumento expressivo dos homicídios e pela expansão do narcotráfico. O país, antes visto como um dos mais seguros da região, passou a registrar números recordes de assassinatos, culminando em 2023 com 881 mortes, a maior cifra de sua história recente. A maior parte desses crimes está ligada a disputas entre gangues e ao fortalecimento de cartéis internacionais que transformaram a Costa Rica em um ponto estratégico para o tráfico.
Mas como uma candidata da situação conseguiu a vitória se durante o governo de Rodrigo Chaves houve uma piora dos índices?
A vitória de Fernández, apesar do aumento da violência na nação, se explica em parte porque muitos eleitores passaram a enxergá‑la mais como uma figura pessoal de autoridade do que como simples representante do governo. Em contextos de insegurança, a identidade individual do candidato pesa mais do que a marca partidária e ela conseguiu projetar firmeza, preparo e capacidade de comando de um jeito que seus adversários não fizeram. Isso permitiu que parte do eleitorado a separasse simbolicamente do desempenho do governo, mesmo ela sendo a candidata da situação.
Ao mesmo tempo, a oposição não conseguiu colar a culpa da situação em Chaves. Muitos eleitores aceitaram a ideia de que o problema decorre de pressões externas — cartéis internacionais, rotas de tráfico, armas que entram pela região — e não apenas de falhas internas. Isso reduziu o impacto do discurso oposicionista e abriu espaço para que Fernández se apresentasse como alguém capaz de enfrentar um fenômeno que ultrapassa fronteiras nacionais.
Outro elemento decisivo foi a forma como ela se posicionou: não como defensora do status quo, mas como alguém que reconhece os erros e promete corrigir rumos. Essa estratégia de “continuidade com mudança” costuma funcionar quando o eleitor teme rupturas bruscas e prefere apostar em quem já está dentro do sistema, mas promete agir de maneira mais dura e eficiente. Assim, ela ocupou o espaço da segurança pública com mais clareza e contundência do que os próprios opositores.
Por fim, a oposição se fragmentou entre discursos muito moderados e outros excessivamente radicais, o que dificultou a construção de uma alternativa convincente. Nesse cenário, Fernández acabou parecendo a opção mais equilibrada: suficientemente firme para enfrentar o crime organizado, mas sem o risco de aventuras políticas. Essa combinação ajudou a transformar uma candidata governista em símbolo de resposta à crise, mesmo que a crise tenha se aprofundado durante a gestão que ela representa.
No Brasil, essa questão é a que mais preocupa os brasileiros – e deve ser um ponto importante nas eleições de 2026. Curiosamente, o pré-candidato que mais poderia surfar nessa onda, o governador Ronaldo Caiado, não tem grandes percentuais de intenção de voto às vésperas da campanha presidencial.
O senador Flavio Bolsonaro, no entanto, já colocou o bloco na rua e em todos os seus discursos faz menções à falta de segurança pública enfrentada pelos brasileiros. Neste tópico, diga-se, a direita tem mais credibilidade que a esquerda. E o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não vai muito bem quando esse tema está em pauta.
A evolução do debate latino‑americano mostra que, quando a segurança pública se torna o eixo emocional da política, ela reorganiza prioridades e redefine quem o eleitor considera capaz de governar. No Brasil, esse risco é ainda maior porque a sensação de descontrole não se limita ao crime organizado: ela se espalha para o cotidiano, do transporte público às escolas, criando a percepção de que o Estado perdeu a capacidade de proteger o cidadão comum.
Se 2026 for marcado por episódios de grande repercussão — chacinas, ataques coordenados, crises carcerárias, confrontos entre facções — o tema pode adquirir um peso eleitoral semelhante ao da inflação nos anos 1990, funcionando como um filtro que amplifica fragilidades e reduz a margem de manobra de quem está no poder. Nesse cenário, a segurança deixa de ser apenas mais um item da agenda e passa a ser o critério central de julgamento do governo, algo que pode colocar Lula em uma posição defensiva e abrir espaço para adversários que consigam transformar indignação social em capital político.
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