Na semana passada, sustentei que a alta do ouro não era fruto apenas de medo geopolítico. Não era guerra, não era recessão, não era apenas Trump. Era algo mais estrutural: um sistema financeiro global excessivamente concentrado em ativos denominados em dólar, algo entre US$ 100 e 110 trilhões, praticamente o PIB mundial, começando a buscar diversificação, ainda que timidamente.
A disparada fazia sentido nesse contexto. Mas a queda abrupta de sexta-feira também faz. O ouro hoje está preso entre duas forças simultâneas: a crise estrutural de alternativas ao dólar e a dinâmica tática da política monetária americana. A primeira sustenta a tendência. A segunda gera volatilidade.
É preciso separar as duas. A alta dos últimos meses foi alimentada por três vetores principais. Primeiro, bancos centrais, especialmente asiáticos, ampliaram compras como estratégia de diversificação de reservas. Segundo, fundos soberanos e grandes gestores passaram a reduzir marginalmente exposição ao dólar diante de ruídos institucionais nos Estados Unidos. Terceiro, investidores financeiros ampliaram posições como hedge contra incerteza política e fiscal.
Nada disso implica colapso do dólar. A moeda americana continua dominante no comércio internacional, nas reservas e nos mercados de capitais. O que começou a mudar foi algo mais sutil: a exclusividade como refúgio automático. Em crises passadas, o fluxo era previsível, tensão global significava dólar mais forte. Em 2025, essa correlação deixou de ser perfeita.
Quando a âncora deixa de ser absoluta, o capital testa alternativas. E como não existe ativo com escala equivalente ao mercado em dólar, o ouro ganha protagonismo. Mas protagonismo não significa imunidade.
A correção recente tem outro motor: a reprecificação da política monetária americana. O mercado passou a discutir a sucessão na liderança do Federal Reserve e o grau de autonomia futura da instituição. A simples possibilidade de um comando percebido como mais disciplinado em relação à inflação já foi suficiente para alterar expectativas de juros reais.
E o ouro é extremamente sensível aos juros reais. Quando os rendimentos dos Treasuries sobem acima da inflação esperada, o custo de oportunidade de manter um ativo que não paga cupom aumenta. Parte da alta recente estava apoiada na expectativa de um ambiente monetário mais acomodatício. Ao menor sinal de que isso poderia não se confirmar, houve realização de lucros.
Não se trata de mudança estrutural. Trata-se de ajuste técnico. Os fundos estavam sobrecomprados. O posicionamento era assimétrico. Em mercados líquidos e alavancados, correções não acontecem gradualmente. São rápidas, amplificadas por algoritmos e por chamadas de margem. O mesmo ocorreu com prata e platina, mercados ainda menores e, portanto, mais sensíveis a fluxos.
Há também o componente chinês. A China tem ampliado compras estratégicas de ouro como diversificação de reservas, mas o mercado doméstico chinês também é altamente especulativo. Movimentos regulatórios ou simples realização de lucros podem gerar ondas globais.
Portanto, a queda não invalida a tese central. Apenas revela a complexidade do momento. Estamos diante de um sistema financeiro global com concentração histórica. Quando frações mínimas de um estoque equivalente ao PIB do planeta se deslocam, os impactos são desproporcionais. Se 2% dos ativos líquidos globais buscam diversificação parcial, estamos falando de trilhões de dólares tentando encontrar mercados muito menores para absorvê-los.
Esse descompasso de escala explica tanto a subida violenta quanto a correção abrupta. A pergunta relevante não é se o ouro subirá em linha reta. Não subirá. A pergunta é se existe hoje um substituto sistêmico capaz de absorver parte relevante da centralidade do dólar.
O euro enfrenta fragmentação política e crescimento anêmico. O iene carrega dívida pública elevada e desafios demográficos. A China mantém controles de capital e opacidade institucional. A Suíça é sólida, mas pequena demais para absorver fluxos globais significativos. O vazio estrutural permanece. Enquanto não houver um ativo financeiro com escala comparável, estabilidade institucional e profundidade de mercado equivalentes ao dólar, o ouro continuará funcionando como válvula de equilíbrio. Não por eficiência econômica, mas por neutralidade política.
A alta recente foi estrutural com componente especulativo. A queda foi monetária com componente técnico. O ouro não está anunciando o fim do dólar. Está sinalizando a saturação do sistema. Quando há concentração excessiva, qualquer ajuste marginal gera volatilidade.
Se o novo comando do Federal Reserve sinalizar disciplina firme e juros reais elevados, o ouro pode consolidar por um período mais longo. Se, ao contrário, surgir percepção de flexibilização prematura ou interferência política, o movimento estrutural de diversificação tende a retornar.
O mundo não está colapsando. Está se reequilibrando. E reequilíbrios não são lineares. O ouro sobe quando falta alternativa. Cai quando o custo de oportunidade aumenta. Entre uma força e outra, o que permanece é a transformação silenciosa do sistema financeiro global: lenta, imperfeita, mas em curso.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista e empresário no Brasil, CEO da Energy Group e vice-presidente de finanças da Camara Italiana do Comércio de São Paulo – Italcam
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