Os depoimentos do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, e do diretor de Fiscalização do Banco Central (BC), Ailton Aquino, tornados públicos por decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), trouxeram novos elementos ao inquérito que investiga supostas fraudes financeiras envolvendo a tentativa de venda do banco privado à instituição estatal do Distrito Federal.
As oitivas foram realizadas em dezembro de 2025 e tiveram o sigilo retirado no fim de janeiro de 2026. O material reforça a tese de que o Master teria fabricado carteiras de crédito inexistentes e revela conflitos de versões entre os executivos envolvidos, além de apontar falhas graves de governança no BRB.
BC aponta créditos inexistentes do Master
Em depoimento à Polícia Federal, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, afirmou que a autoridade monetária constatou “claramente a inexistência dos créditos” emitidos pelo Banco Master. Segundo ele, não há qualquer evidência de transferências reais de recursos, como Pix ou TED, que comprovem a existência das operações.
“Tem uma questão central. Dona Maria recebeu o crédito, tem um Pix ou TED? Nós perguntamos várias vezes, não tem elementos. Quantos TEDs, quantos Pix a Tirreno fez na sua gestão? Não tem um TED ou um Pix feito pela Tirreno”, afirmou Aquino.
O diretor comparou o caso a fraudes históricas no sistema financeiro brasileiro, como as que levaram à liquidação do Banco Cruzeiro do Sul, em 2012, e do Banco Econômico, em 1995.
Empresa de fachada e prejuízo bilionário
Aquino também mencionou a empresa Tirreno, criada no fim de 2024, que, segundo os investigadores, teria sido usada como uma “empresa de prateleira” para viabilizar a operação de socorro ao Master.
De acordo com o BC, o BRB deveria ter provisionado mais de R$ 5 bilhões em razão da aquisição de ativos inexistentes. Para Aquino, a fraude poderia, e deveria, ter sido identificada internamente.
“Eu tenho certeza de que a governança do BRB deveria ter identificado (as fraudes). É possível a identificação da existência ou não dos créditos. É uma falha na governança do BRB”, disse.
Vorcaro nega influência política
O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou à PF que não recebeu ajuda de políticos para viabilizar a operação com o BRB. Segundo ele, se tivesse apoio político, não estaria preso nem usando tornozeleira eletrônica.
“Se eu tivesse pedido ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso”, declarou.
Vorcaro confirmou, no entanto, que se reuniu com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), a quem classificou como “controlador indireto”.
Ibaneis já afirmou publicamente que os encontros ocorreram, mas nega ter tratado de assuntos relacionados ao Master.
Conflito de versões sobre origem dos créditos do caso Banco Master
Durante a acareação no STF, Vorcaro e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, apresentaram versões divergentes sobre a origem das carteiras adquiridas.
Vorcaro afirmou que o modelo previa a compra de créditos originados por terceiros, como a Tirreno. Já Costa disse que sempre entendeu que os ativos eram originados pelo próprio Master e que apenas meses depois surgiram dúvidas sobre a procedência.
“Na nossa visão eram créditos originados pelo Master que estavam sendo recomprados. Só depois fomos informados da Tirreno”, afirmou o ex-presidente do BRB.
Banco Master: cobranças diretas e falha operacional
Costa também relatou que passou a cobrar diretamente Vorcaro quando as áreas técnicas do BRB começaram a enfrentar dificuldades para obter informações sobre as carteiras.
“No caso concreto, quando a gerência e a diretoria financeira começam a ter dificuldade, a minha cobrança é direta no presidente do outro banco”, disse.
Segundo ele, as mensagens constam na perícia do seu celular e mostram que as cobranças foram feitas de forma incisiva.
Sigilo de celular e bens no exterior
A defesa de Vorcaro se recusou a autorizar a quebra do sigilo do celular do banqueiro, alegando receio de vazamentos e existência de conteúdos pessoais no aparelho.
Questionado sobre bens no exterior, Vorcaro disse não se recordar de todas as contas que possui. Admitiu manter a holding do banco nas Ilhas Cayman e algumas contas correntes, mas negou possuir mansão na Flórida.
Possíveis desdobramentos políticos
As investigações da PF indicam que há referências a políticos com foro privilegiado nos materiais apreendidos, o que pode levar a novos inquéritos no Supremo Tribunal Federal.
O ministro Dias Toffoli avalia a possibilidade de remeter parte das investigações à primeira instância após o encerramento do inquérito principal. O caso também gerou críticas ao próprio ministro, diante de decisões consideradas controversas e de supostos vínculos indiretos com o entorno de Vorcaro.














