O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a taxa Selic em 15,0% ao ano na reunião de janeiro, a quinta consecutiva sem alteração, e surpreendeu parte do mercado ao sinalizar explicitamente o início do ciclo de cortes a partir da próxima reunião, em março.
No comunicado, o Banco Central indicou que o processo de flexibilização deverá ocorrer com “serenidade” e seguirá dependente dos dados, reforçando o compromisso com a convergência da inflação à meta. A projeção oficial da autoridade monetária aponta inflação de 3,2% no horizonte relevante (3T27), estável em relação à estimativa da reunião anterior.
Apesar da sinalização de corte, o tom do comunicado segue cauteloso. O Copom voltou a destacar a resiliência da atividade doméstica, especialmente nos indicadores de mercado de trabalho e consumo, além do aumento da incerteza no ambiente externo, com a escalada de tensões geopolíticas e seus potenciais impactos inflacionários.
Austin vê corte mais intenso e Selic a 11,5% em 2026
Para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, a decisão reforça que o Banco Central considera que a política monetária já começa a produzir os efeitos esperados sobre a atividade e a inflação, ainda que de forma gradual.
Segundo o economista, o próprio comunicado indica que o início da flexibilização já estaria “contratado” para março. Na avaliação da Austin, o Copom terá condições de iniciar o ciclo com um corte de 0,50 ponto percentual, e não apenas 0,25 p.p., com um processo contínuo de redução até o fim de 2026.
A projeção da Austin aponta a Selic em 11,5% ao ano em dezembro de 2026 e em 9,5% em dezembro de 2027, abaixo do consenso do mercado, que segundo o relatório Focus indica taxa de 12,25% no fim de 2026 e de 10,50% em 2027.
Agostini destaca, no entanto, que o balanço de riscos segue relevante, com peso para o quadro fiscal, a inflação de serviços e a resiliência do mercado de trabalho, além da postura fiscal expansionista, que atua como contrapeso ao esforço monetário restritivo.
ASA projeta ciclo mais gradual e Selic a 12,5%
Já para Leonardo Costa, economista do ASA, a sinalização de corte em março surpreendeu positivamente, mas o tom do comunicado indica que o Banco Central seguirá um caminho mais cauteloso e dependente da evolução dos dados.
O economista projeta um primeiro corte de 25 pontos-base em março, com risco, ainda que menor, de um movimento mais intenso, de 50 bps. Para ele, os próximos dados de inflação, mercado de trabalho e atividade serão determinantes para calibrar o ritmo do ciclo.
Na avaliação do ASA, a manutenção da inflação projetada em 3,2% no horizonte relevante reforça que o processo de desinflação ainda é gradual, especialmente diante da força do consumo e do mercado de trabalho.
Para o fim de 2026, o ASA estima a Selic em 12,5% ao ano, em um cenário compatível com um ciclo de cortes mais lento do que o projetado pela Austin.
Mercado de trabalho limita espaço para cortes mais agressivos
Para Maykon Douglas, economista, a decisão do Copom de manter a Selic em 15,00% ao ano era amplamente esperada, tanto por ele quanto pela maior parte do mercado, assim como a manutenção da projeção do IPCA em 3,2% para o horizonte relevante.
O economista destaca que embora o cenário prospectivo do Copom esteja se materializando, a ambiguidade nos dados se concentra em um tópico sensível à autoridade monetária, que é o mercado de trabalho aquecido e seu impacto sobre a inflação.
“Dada a cautela do BC, é difícil esperar movimentos “dovish” nesse contexto. Portanto, o BC deve cortar os juros em março, conforme o cenário-base que tracei há alguns meses. Espero um corte mais conservador, de 25 bps. No entanto, diante da dinâmica ruim para a inflação sensível ao mercado de trabalho, reviso minha projeção para os juros no fim de 2026, de 12,25% para 12,50%.”, avalia o economista.
Divergência de ritmo de cortes do COPOM, consenso sobre o início
Apesar das diferenças nas projeções, há um consenso entre os economistas de que o Copom abriu formalmente a porta para o início do ciclo de cortes em março. A principal divergência está no ritmo da flexibilização e no nível terminal da Selic.
Para o mercado, o comunicado marca um ponto de inflexão na política monetária: a Selic segue no maior nível em quase duas décadas, mas, pela primeira vez em meses, o próprio Banco Central reconhece que o próximo movimento será de queda, ainda que sob forte vigilância dos dados.












