O caso do Banco Master voltou ao centro do debate no Painel BM&C ao levantar uma questão incômoda para o mercado: quando sinais existem e ninguém reage, o risco deixa de ser invisível e passa a ser tolerado e, em muitos casos, transferido para todo o sistema.
Na abertura do programa, a apresentadora Paula Moraes destacou que o episódio não expõe apenas uma falha de gestão ou de supervisão, mas revela algo mais profundo.
“Como o mercado lê os alertas, como distribui riscos e até onde confia em selos, auditorias e também estruturas de proteção”.
Para Roberto Dumas, mestre em economia, o cerne da discussão está no risco moral criado quando o Fundo Garantidor de Créditos passa a ser usado como argumento de venda.
“Olha, você pode comprar o CDB do Master porque ele te paga 150, 160% do CDI e qualquer coisa, eles usavam o argumento de marketing, o fundo garantidor de crédito”, afirmou.
Segundo Dumas, o problema é que o investidor deixa de olhar o risco do emissor e passa a comprar a promessa de proteção.
“O Fundo Garantidor de Crédito não pode ser um instrumento garantidor ou um instrumento de venda”, disse.
Caso Banco Master: FGC socializa riscos, diz Dumas
O economista defendeu uma reavaliação do modelo do FGC, apontando que a estrutura atual permite que riscos elevados sejam socializados entre instituições que sequer participaram da operação.
“Quanto maior o spread que você paga, mais você tem que depositar como fundo garantidor”, sugeriu.
Dumas também chamou atenção para esse efeito colateral do sistema. E criticou a lógica de um fundo que deveria ser rede de proteção, mas que pode acabar penalizando quem não se expôs ao ativo.
“Eu não vendi, eu não distribuí nada do Master e a conta acaba para mim”, afirmou.
Apesar da gravidade do caso, Dumas relativizou a tese de risco sistêmico no sentido estritamente financeiro e comparou o tamanho do Banco Master com grandes instituições do sistema bancário brasileiro.
Honorato critica confiança excessiva em auditorias
Na visão dele, o episódio ganhou proporções maiores por fatores políticos e investigativos, lembrando que o caso chegou a instâncias como o STF e TCU.
“Tá mexendo muito mais a um risco político e de polícia do que sendo um risco sistêmico”, afirmou.
Carlos Honorato, professor da FIA Business School, ampliou a crítica para a cultura de confiança excessiva em compliance e auditorias.
“A gente tem essa panaceia de que temos que ter compliance, temos que ter uma boa auditoria e de repente aparece um caso como esse que transborda as auditorias”, afirmou.
Honorato lembrou que os sinais não eram novos.
“Os rumores do Banco Master já vem aí há pelo menos uns 6 anos. Em determinados momentos, o mercado precisa parar um pouco com a hipocrisia e efetivamente olhar o que é risco moral”.
Para ele, a sofisticação das estruturas financeiras também eleva a sofisticação das fraudes e criticou a crença de que selos e certificações seriam suficientes para neutralizar riscos.
“À medida que você vai tornando a questão mais sofisticada, melhores são esses golpes”, afirmou.
Saravalle critica custo do FGC
Marco Saravalle, estrategista-chefe da MSX Invest e diretor da PMEC, trouxe o debate para a lógica do próprio FGC.
“A gente tá colocando o nosso recurso, nosso recurso mesmo… ele tá indo para um fundo”, disse, ressaltando que o custo da proteção recai sobre todo o sistema.
Saravalle também questionou a naturalização de perdas bilionárias e lembrou que esses recursos, direta ou indiretamente, pertencem aos próprios investidores e correntistas..
“A gente tá aceitando como se fosse algo normal sumir 12 bilhões”, afirmou.
Caso Banco Master: auditorias, distribuição e modelo insustentável
No campo das auditorias, Marco Saravalle levantou uma dúvida objetiva sobre incentivos e independência.
“Dá para confiar em auditoria quando quem paga a conta é o auditado”, questionou, ao sugerir que o modelo pode gerar conflitos estruturais difíceis de eliminar.
O Painel BM&C também avançou sobre o papel da distribuição. Saravalle destacou que a remuneração em alguns casos foi muito alta e avaliou que a distribuição não se preocupou com risco, se preocupou com o retorno próprio.
Para Dumas, o modelo de negócio por trás de CDBs pagando 140% do CDI já carrega um sinal de alerta econômico.
“Se você tomou um CDB de 140% do CDI, você vai aplicar em alguma empresa que pague 150, 160% do CDI. É um modelo de negócio que não se sustenta”, disse,
No encerramento do programa, o tom foi de alerta estrutural. Entre risco e má-fé, como definiu Honorato, o investidor tende a pagar quando a proteção vira narrativa.
E, como resumiu Dumas, o sistema pode até se perpetuar, mas o caso Banco Master mostra que o risco não desaparece, ele apenas muda de endereço.












