Um montante impressionante de R$ 8 bilhões foi destinado a projetos de infraestrutura no país vizinho, mas o retorno financeiro inexiste há anos. As obras na Venezuela financiadas pelo BNDES representam hoje um dos maiores passivos externos da carteira do banco, com inadimplência total confirmada desde 2018.
Como funcionou a mecânica do envio de recursos?
É fundamental desmistificar a ideia de que remessas de dinheiro foram enviadas fisicamente para Caracas. O modelo adotado foi a exportação de serviços de engenharia, onde o fluxo financeiro permaneceu majoritariamente em solo nacional.
O BNDES realizou os desembolsos em Reais diretamente para as empreiteiras brasileiras, como Odebrecht e Andrade Gutierrez. O que cruzou a fronteira foram os serviços, o maquinário e os insumos, gerando empregos no Brasil na época da execução.
Conforme explicam os relatórios de transparência do BNDES, a dívida foi contraída pela Venezuela em moeda forte (Dólar ou Euro), mas o pagamento às empresas que executaram as obras ocorreu internamente.

Quais foram as grandes construções realizadas?
O dinheiro se transformou em concreto e aço, viabilizando estruturas colossais que estão integradas à paisagem venezuelana. Não se trata de verba que desapareceu sem rastro físico, mas sim de ativos imobilizados em território estrangeiro.
Entre os projetos mais custosos, destacam-se a expansão da malha metroviária e a integração rodoviária sobre grandes rios. Para entender a dimensão dos valores aportados em cada setor, organizamos os dados principais:
| Projeto | Valor Estimado | Status Financeiro |
|---|---|---|
| Metrô de Caracas e Los Teques | R$ 3,9 bilhões | Inadimplente |
| Ponte sobre o Rio Orinoco | R$ 1,6 bilhão | Inadimplente |
| Outros (Siderurgia/Estaleiro) | Saldo restante | Inadimplente |
Por que a Ponte sobre o Orinoco é emblemática?
A segunda ponte sobre o Rio Orinoco é um exemplo claro da magnitude das intervenções. Com um custo de financiamento de R$ 1,6 bilhão, a obra foi essencial para a logística da região, mas se tornou um símbolo do prejuízo brasileiro.
Enquanto a infraestrutura serve à população local e facilita o transporte venezuelano, o Brasil amarga a falta de ressarcimento pelo capital empregado na construção dessa engenharia complexa.

Quem pagou a conta após o calote?
Quando a Venezuela cessou os pagamentos há mais de sete anos, o sistema de proteção ao crédito foi acionado. Quem cobriu o rombo imediato não foi o caixa do banco, mas o FGE (Fundo Garantidor de Exportações).
Este fundo, vinculado ao Tesouro Nacional, funciona como uma seguradora. É importante notar que, apesar de ter coberto esse calote bilionário, o FGE permanece superavitário, com saldo positivo de R$ 4,5 bilhões, sustentado pelos prêmios de outras operações.
Segundo análises técnicas do setor de engenharia, a existência desse seguro foi o que impediu um impacto direto ainda mais devastador no balanço da instituição financeira brasileira.
Qual é o cenário atual da dívida?
Para finalizar a análise dos números em 2024, a situação permanece crítica. O Brasil possui cerca de R$ 4,1 bilhões em atraso acumulado, além de R$ 2,3 bilhões em parcelas que ainda vão vencer.
O cenário consolida a realidade de que o Brasil ficou com a fatura e a Venezuela com a infraestrutura. A recuperação desses valores depende agora exclusivamente de negociações diplomáticas e reestruturações de dívida soberana, sem prazo definido para solução.

