Os tratores de meia Europa estão aquecendo os motores: em 20 de janeiro, Estrasburgo virou o palco simbólico de uma tensão que vai muito além do campo. Agricultores protestam diante do Parlamento Europeu porque não “digerem” o acordo Mercosul–União Europeia recém-assinado no Paraguai por Ursula von der Leyen. A reação é compreensível e politicamente inevitável. Mas é também o custo de um movimento estratégico que a Europa precisava fazer. Em um mundo que volta a flertar com tarifas, protecionismos e guerras comerciais, este tratado é a primeira resposta forte do bloco aos “dazi di Trump” e ao novo ciclo de fragmentação econômica global.
O acordo cria a maior área de livre comércio do mundo: 718 milhões de pessoas e um PIB combinado de US$ 22,4 trilhões. Prevê a eliminação gradual de tarifas sobre mais de 90% das mercadorias e uma economia de € 4 bilhões por ano em tarifas alfandegárias para 60 mil empresas europeias. São números frios, mas com impacto estrutural: no longo prazo, reposicionam a competitividade europeia em setores de alto valor agregado e reduzem a vulnerabilidade do bloco a choques externos.
Itália: o “sim com garantias” que virou o ponto de virada
Há um ponto de soberania econômica que interessa especialmente à Itália. O acordo protege 350 produtos europeus com indicação geográfica, incluindo 58 italianos, proibindo a circulação de imitações. Hoje, uma fazenda em Vermont pode vender “mozzarella italian sounding” para restaurantes em Nova York e a Europa tem poucos instrumentos de defesa. Com o tratado, o exportador italiano poderá bloquear uma empresa argentina ou brasileira que copie nossas excelências, ainda que produtos como Mortadella Bologna e Tipo Grana Padano tenham janela de transição. Para a Itália, isso é proteção jurídica do capital reputacional que sustenta margens e exportações.
O eixo geopolítico é igualmente claro: facilitar acesso a matérias-primas e minerais críticos — cobre, lítio, grafite, níquel e terras raras — reduzindo dependência europeia da China. E aqui a Itália teve papel decisivo: Roma inicialmente bloqueou a intesa, mas após obter garantias, mudou de posição e se tornou determinante. O governo italiano impôs limite às importações e conseguiu a suspensão temporária da carbon tax (CBAM) sobre fertilizantes à base de amônia, ureia e outras substâncias. É diplomacia econômica aplicada: não recusar a modernização, mas condicioná-la a mecanismos de proteção e transição. O resultado é um acordo que não é “abertura ingênua”, mas um desenho calibrado para atravessar resistências internas sem perder a ambição estratégica.
O Brasil ganha acesso, mas o jogo real é capturar valor
O intercâmbio UE–Mercosul já soma € 111 bilhões. A Europa exporta por € 55,2 bilhões e importa por € 56 bilhões, além de ser o maior investidor na região, com € 390 bilhões de volume anual de negócios. Ainda assim, perdeu espaço: desde 2000, sua participação caiu de 30% para 16,8%, enquanto a China subiu de 5% para 27%. Este acordo é, portanto, uma correção de rota e um sinal de reposicionamento europeu.
Para o Brasil, as vantagens aparecem nos números e nas regras. A expectativa é um aumento de PIB de 0,5% a 1,0% no longo prazo, dependendo do ritmo de adaptação regulatória e da capacidade de capturar valor. Na carne bovina, a tarifa cai de 20% para 7,5% sobre 99 mil toneladas em 6 anos (apenas 1,6% do consumo europeu), e o excedente paga 40% a 45%. No frango, tarifa zero para 180 mil toneladas (1,4% do consumo), e acima disso incide € 1.024 por tonelada. No açúcar, tarifa zero para 190 mil toneladas (1,2% do consumo), além de 45 mil toneladas de mel e 60 mil toneladas de arroz. Para hortifrúti, não há cotas por sazonalidade. Existem ainda salvaguardas: se importações subirem acima de 5% ou preços caírem mais de 5%, a Comissão pode suspender benefícios; investigações em 4 meses e medidas urgentes em 21 dias.
O ponto decisivo, porém, é o que o Brasil fará com essa oportunidade. Se o país continuar operando como exportador de commodities alimentares, capturará volume, mas não capturará margem. O salto está em industrializar o agro, transformar tonelada em produto premium, exportar proteína processada, ingredientes e marcas; tornar rastreabilidade e sanidade uma vantagem competitiva; e escalar tecnologia agrícola e bioeconomia como setores exportadores. Em outras palavras: não basta vender mais, é preciso vender melhor.
Há um desdobramento ainda mais ambicioso e coerente com essa agenda: o Brasil pode se posicionar como hub de mega data centers de IA, usando sua matriz renovável e competitiva para exportar também capacidade de computação, atraindo investimento, empregos qualificados e demanda por infraestrutura. No fim, mais do que um acordo comercial, o Mercosul–UE é um teste de parceria preferencial: um ensaio de como duas regiões podem construir confiança, regras e interdependência estratégica para atravessar a próxima década.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista e empresário no Brasil, CEO da Energy Group e vice-presidente de finanças da Camara Italiana do Comércio de São Paulo – Italcam
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