Após o feriado em Nova York, os mercados voltam a precificar riscos políticos, comerciais e institucionais nesta terça-feira (20). A combinação de ameaças tarifárias de Donald Trump, disputas geopolíticas envolvendo a Groenlândia e questionamentos sobre a independência do Federal Reserve elevou a cautela nos ativos de risco.
Segundo Marco Saravalle, estrategista-chefe da MSX Invest, o mercado começa a incorporar um cenário em que decisões políticas passam a ser deliberadamente utilizadas como instrumento de pressão geopolítica, e não apenas como política econômica tradicional.
Política volta a comandar o mercado internacional
O presidente americano voltou a ameaçar tarifas caso países europeus não avancem em negociações ligadas ao controle estratégico da Groenlândia, tema que domina as discussões do Fórum Econômico Mundial nesta semana.
A expectativa pelo discurso de Trump em Davos aumenta a volatilidade, em um ambiente no qual tarifas deixam de ser apenas mecanismos de ajuste comercial e passam a assumir um papel explícito de instrumento geopolítico.
Tarifas, Suprema Corte e risco institucional nos EUA
O risco institucional nos Estados Unidos ganhou força após declarações do governo americano indicando que, caso a Suprema Corte dos Estados Unidos derrube parte das tarifas atualmente em vigor, novos impostos seriam implementados de forma imediata. A sinalização, reforçada pelo representante comercial Jamieson Greer, indica que o protecionismo seguirá como pilar central da política econômica americana, independentemente de questionamentos jurídicos.
Para o mercado, esse ambiente amplia a incerteza regulatória e tende a pressionar múltiplos de valuation, especialmente em setores mais expostos ao comércio internacional e às cadeias globais de produção.
Europa reage, mas fragmentação preocupa
As ameaças tarifárias contra países europeus intensificaram o ruído político no bloco. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, adotou um discurso diplomático, mas deixou claro que a União Europeia está preparada para reagir caso as medidas avancem.
Internamente, o bloco enfrenta divergências. Enquanto a Alemanha tenta evitar uma escalada, a França defende uma postura mais firme. Estimativas da Fitch Ratings apontam que tarifas de 10% podem retirar cerca de 0,5% do PIB da Zona do Euro até 2027, impacto que pode dobrar caso as tarifas avancem para 25%.
A avaliação do mercado é que o maior risco não está apenas nos números, mas na dificuldade de coordenação política, o que tende a ampliar a volatilidade e pressionar o euro no médio prazo.
Fed no radar: julgamento de Lisa Cook testa independência do banco central
Outro foco de atenção é o julgamento envolvendo a tentativa de Trump de remover Lisa Cook do cargo de diretora do Federal Reserve. A presença do presidente do Fed, Jerome Powell, nos argumentos orais da Suprema Corte elevou o simbolismo do caso.
Analistas veem o episódio como um dos testes mais relevantes à independência do Fed em décadas. Qualquer sinal de politização da autoridade monetária tende a elevar o prêmio de risco dos ativos americanos, afetando desde os Treasuries até o mercado acionário.
Brasil acompanha o cenário externo com cautela
No Brasil, o caso envolvendo o Banco Master segue no radar dos investidores, com bloqueios judiciais e comunicados do Fundo Garantidor de Créditos buscando reduzir o ruído sistêmico.
A percepção predominante entre investidores internacionais, inclusive em Davos, é de que não há risco sistêmico para o sistema financeiro brasileiro. Ainda assim, a cautela aumentou em relação a instituições envolvidas, reforçando a importância de governança, transparência e regulação clara. Reações exageradas, avaliam especialistas, podem gerar distorções no mercado de crédito e nos fundos de investimento.
Volatilidade política cria risco e oportunidade nos mercados
O ambiente global segue marcado por incertezas políticas e institucionais, com impactos diretos sobre preços de ativos, moedas e fluxos de capital. Para Marco Saravalle, a volatilidade não destrói valor por si só, mas abre janelas de oportunidade para investidores com estratégia, liquidez e visão de médio prazo.
Em um cenário em que política e mercado voltam a caminhar lado a lado, a seletividade e a leitura correta dos riscos tornam-se ainda mais decisivas para a tomada de decisão.












