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Dia das crianças: o que ninguém fala sobre a indústria de brinquedos

Renata Nunes Por Renata Nunes
11/10/2025
Em Curiosidades, Economia POP, Exclusivas, Indústria, NACIONAL

Enquanto o país se prepara para o Dia das Crianças, data que movimenta o comércio e desperta a nostalgia dos adultos, há um grupo que não tem muito o que comemorar: quem fabrica os brinquedos. Em um Brasil onde a carga tributária pesa mais que a imaginação, produzir um simples carrinho ou boneca virou quase um ato de resistência. Até 45% do preço final de um brinquedo nacional é composto apenas por impostos e, em produtos eletrônicos ou importados, esse número pode chegar a 72%, segundo dados do IBPT.

A cada outubro, milhões de famílias vão às lojas em busca de presentes, mas poucas percebem que boa parte do valor pago não vai para o fabricante vai para o governo. ICMS, IPI, PIS, Cofins e Imposto de Importação se acumulam sobre o mesmo produto, da matéria-prima até a prateleira. O resultado é um mercado que encolhe ano após ano, sufocado por impostos, burocracia e uma legislação que trata o empreendedor como suspeito, não como parceiro.

Por que fabricar brinquedos no Brasil custa tanto?

O problema, segundo a advogada tributarista Mary Elbe Queiroz, não está apenas na alíquota, mas na arquitetura do sistema. “A indústria de brinquedos é sufocada por uma soma de tributos cumulativos e complexos. O empresário paga imposto para produzir, para vender e até para tentar crescer”, afirma. E não são poucos: além dos tributos sobre o produto, há o IRPJ, CSLL, IOF e uma série de encargos trabalhistas que tornam a operação pesada e cara.

Mary reforça que a burocracia é outro inimigo: “Cada estado tem suas próprias regras e alíquotas de ICMS. São 27 estados e mais de 5.600 municípios com legislações diferentes. O empresário precisa de equipes só para cumprir obrigações fiscais. É um custo que o empreendedor legalista paga e caro.” O tempo gasto com formulários, guias e cruzamentos fiscais poderia estar sendo usado em inovação, tecnologia e geração de empregos.

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O peso dos impostos e a morte lenta das fábricas

Mesmo nas datas mais aquecidas do varejo, como o Dia das Crianças e o Natal, o setor de brinquedos nacional não consegue recuperar o fôlego. Muitas fábricas reduziram turnos, terceirizaram parte da produção ou fecharam as portas nos últimos anos. A equação é simples e cruel: quanto mais se produz, mais se paga.

“Entre pagar tudo o que o Fisco cobra e manter o negócio viável, a margem desaparece rapidamente”, diz Mary Elbe Queiroz. Em um mercado globalizado, onde países asiáticos oferecem regimes tributários simples e mão de obra competitiva, o Brasil vai ficando para trás. O resultado é um setor que perde relevância, empregos e capacidade de inovar.

Fábricas de brinquedos: concorrência desleal e o avanço dos importados

Os brinquedos estrangeiros dominam cada vez mais o mercado, muitas vezes beneficiados por tarifas reduzidas e processos fiscais mais ágeis. Em alguns casos, há até produtos que entram no país sem pagar imposto algum, um problema crônico de fiscalização que distorce o jogo. Assim, o produtor nacional, que paga tudo, compete com quem joga sem regras. E quem perde é o consumidor, que paga caro por uma indústria enfraquecida.

O Dia das Crianças, portanto, simboliza não apenas a alegria do consumo, mas também a desigualdade de um sistema que cobra como país rico e entrega condições de país em crise. As vitrines coloridas escondem um cenário em que o custo de fabricar sonhos se tornou alto demais para quem ainda insiste em produzir no Brasil.

Reforma Tributária: solução ou mais um risco?

Para os especialistas, a Reforma Tributária que está em debate no Congresso pode mudar pouco, ou até piorar. Se as novas regras não atacarem a cumulatividade e a complexidade dos impostos, a indústria continuará sufocada. “Unificar tributos sem reduzir o peso total é trocar o rótulo da caixa sem mudar o conteúdo”, resume um analista ouvido pela reportagem. O setor teme que, na prática, a simplificação fique apenas no papel.

Enquanto isso, empresários buscam alternativas para sobreviver. Alguns importam parte da produção, outros investem em automação para reduzir custos. Poucos, no entanto, conseguem competir de igual para igual com os grandes players internacionais. O Brasil continua sendo o país onde fabricar custa caro, vender é difícil e crescer é quase impossível.

Preço e valor dos brinquedos

O Dia das Crianças é um lembrete de que o custo da infância vai além do preço do brinquedo. Por trás de cada boneca, carrinho ou jogo eletrônico há uma cadeia de produção que luta para não desaparecer. A tributação excessiva transformou o mercado de brinquedos em um símbolo das distorções do sistema brasileiro, um país que arrecada muito, entrega pouco e, no processo, sufoca quem tenta gerar riqueza.

Em um país que tributa até o sorriso, fabricar sonhos virou um ato de coragem. E quem resiste, ano após ano, merece mais do que parabéns: merece um sistema que o permita continuar sonhando junto com as crianças.

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