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“Impacto das tarifas de Trump é suavizado por isenções”, avaliam especialistas

Renata Nunes Por Renata Nunes
31/07/2025
Em Análises, ECONOMIA, INTERNACIONAL, INVESTIMENTOS E FINANÇAS, MERCADOS, Mundo, NACIONAL, POLÍTICA, Política Internacional

As tarifas de 50% anunciadas pelo governo Donald Trump sobre exportações brasileiras foram oficialmente adiadas para 6 de agosto, mas já provocam reações nos mercados e especialistas. Embora a medida represente um endurecimento nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, a inclusão de uma lista extensa de produtos isentos sugere uma abordagem seletiva e estratégica por parte da Casa Branca.

Segundo Leonardo Costa, economista do ASA, cerca de 30% das exportações brasileiras aos EUA (equivalentes a US$ 12 bilhões no acumulado de 12 meses até junho de 2025) devem ser isentas da tarifa. Dentro desse grupo, apenas oito produtos respondem por 90% do valor, evidenciando a concentração da pauta exportadora.

Quais produtos foram poupados das tarifas e por quê?

O documento oficial mostra que setores estratégicos foram poupados da tarifação. Entre os principais itens isentos, destacam-se:

  • Óleos brutos de petróleo
  • Ferro fundido bruto não ligado
  • Pastas químicas de madeira
  • Querosene de aviação
  • Partes de aeronaves
  • Suco de laranja congelado
  • Bulhão dourado (bullion doré)

Além disso, conforme destaca Leonardo Costa, a General Note 6 mencionada na ordem executiva garante isenções adicionais para o setor de aviação civil. “Isso inclui aeronaves com mais de 15.000 kg e turbojatos de médio porte, que representam um peso relevante na pauta de exportação brasileira. Esses produtos foram considerados na estimativa de isenção de 30%.” destaca.

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Por outro lado, itens como café em grão e carne bovina, responsáveis por cerca de 8% do total exportado, foram incluídos na tarifação, com impacto direto sobre o agronegócio brasileiro.

As tarifas seguem alguma lógica econômica?

Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, avalia que a medida foi “menos traumática” do que o previsto, não pela alíquota, mas pela escolha dos produtos. Segundo ele, “houve um meio termo do menos pior para os interesses americanos, sem foco na defesa dos interesses comerciais do Brasil“. Isso é reforçado pela seletividade da lista, que poupou setores com alto valor agregado e integração com cadeias produtivas dos EUA.

Simioni também destaca que, à luz da Teoria das Vantagens Comparativas, “as tarifas impõem perdas de bem-estar para os dois países“, avalia. A taxação de bens em que o Brasil possui vantagem relativa, como café e carne, compromete a eficiência alocativa do comércio internacional. E embora grandes economias possam tentar impor tarifas para melhorar seus termos de troca, isso exige condições que não se aplicam ao caso americano, como o controle do mercado global ou substitutos domésticos viáveis.

Geopolítica e pressões internas explicam a decisão?

Fabio Fares afirma que a tarifa foi agressiva no tom, mas cuidadosamente calibrada. A Casa Branca poupou setores essenciais à cadeia produtiva conjunta Brasil-EUA, como energia, aviação e agroindustrial. Segundo ele, “a medida teve alvos claros e seletivos, com motivações que extrapolam a racionalidade econômica. Um dos recados foi direcionado ao ministro Alexandre de Moraes, em meio à tensão política com o Brasil“, avaliou o especialista.

Nesse sentido, a Economia Política do Comércio Internacional oferece a chave interpretativa: a decisão tarifária reflete lobbies internos, interesses eleitorais e barganhas diplomáticas. A relação entre comércio e política se intensifica, especialmente quando a tarifa vem acompanhada de menções a julgamentos políticos e regulação de plataformas digitais.

Quais os efeitos esperados para Brasil e EUA?

Para o Brasil, o aumento nos custos de exportação deve pressionar o agronegócio, a geração de divisas e o mercado de trabalho. Há risco de volatilidade cambial e aumento da inflação, especialmente se o setor exportador for impactado de forma persistente. A resposta estratégica envolve diversificação de mercados, aproximação com a Ásia e atuação na OMC para contestar a medida.

Nos Estados Unidos, mesmo que haja proteção de indústrias locais no curto prazo, o efeito colateral será o encarecimento dos insumos, aumento do custo de vida e fragilidade em cadeias produtivas interdependentes. A isenção de produtos como aeronaves e petróleo revela que os EUA buscam preservar seus próprios interesses estratégicos, muitas vezes em detrimento da coerência política com parceiros comerciais.

Recado dado, mas conflito pode escalar

Como resume Fabio Fares, “quem olha só o título da notícia vê ‘tarifa de 50%’ e entra em pânico. Quem lê o corpo da ordem executiva entende o xadrez.” A crise pode escalar, mas o texto da medida mostra que o comércio Brasil–EUA foi redesenhado, não rompido. Para investidores e formuladores de política, o desafio é entender as entrelinhas e agir com estratégia, aproveitando as exceções como pontos de ancoragem para proteger setores-chave da economia brasileira.

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