O projeto SOFIA (Observatório Estratosférico para Astronomia Infravermelha) foi uma das mais ambiciosas parcerias entre a NASA e a agência espacial alemã (DLR). Tratava-se de um Boeing 747SP comercial altamente modificado para operar como o maior observatório voador do mundo.
Por que a NASA colocou um telescópio em um avião?
O objetivo de instalar um telescópio refletor de 2,7 metros e 17 toneladas em um avião era superar a interferência da atmosfera terrestre. O vapor de água bloqueia a radiação infravermelha, impedindo que telescópios terrestres observem o nascimento de estrelas e a composição química do espaço.
Voando a mais de 13 mil metros de altitude (43.000 pés), o SOFIA operava acima de 99% do vapor de água bloqueador. Essa vantagem estratosférica permitia imagens de clareza sem precedentes, quase rivalizando com telescópios espaciais como o Hubble, mas com a vantagem de voltar ao solo para manutenção e atualização de instrumentos.

Como o avião voava com um buraco gigante aberto a 800 km/h?
A engenharia aeronáutica do SOFIA foi um triunfo monumental. O Boeing 747 foi equipado com uma porta lateral corrediça enorme que se abria em pleno voo. Para evitar que o avião fosse despedaçado pelas forças aerodinâmicas e pela turbulência a 800 km/h, o formato da abertura foi moldado aerodinamicamente.
Para que você compreenda como o telescópio não tremia durante o voo, preparamos uma análise técnica do sistema de estabilização giroscópica:
| Componente | Função de Engenharia | Resultado Astronômico |
| Rolamento Hidrostático | O telescópio “flutua” em óleo, isolado do avião | Eliminação das vibrações dos motores |
| Giroscópios Ópticos | Monitoram e compensam turbulências milimétricas | Imagens infravermelhas perfeitamente nítidas |
| Fuselage Aerodinâmica | Reduz o arrasto acústico da porta aberta no voo | Voo estável por até 10 horas contínuas |
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Quais foram as maiores descobertas do projeto SOFIA?
Durante seus oito anos de operações plenas, o observatório voador fez contribuições inestimáveis à ciência. A descoberta mais famosa para o público geral ocorreu em 2020, quando o SOFIA detectou moléculas de água (H2O) na superfície iluminada da Lua, na cratera Clavius.
Além disso, mapeou campos magnéticos de buracos negros, analisou a atmosfera de Plutão e descobriu o hidreto de hélio, a primeira molécula a se formar no universo primitivo. Foi um laboratório celestial móvel que revolucionou a astronomia no espectro infravermelho.
Para os entusiastas da aviação e astronomia, selecionamos o conteúdo do canal Aviões e Músicas. No vídeo a seguir, Lito Sousa recebe Sérgio Sacani para detalhar a história do Boeing 747 SOFIA, o observatório estratosférico da NASA que possui um telescópio gigante a bordo e foi responsável por descobertas incríveis, como a presença de água na Lua:
Como o SOFIA se diferenciava dos telescópios espaciais?
Diferente do Telescópio Espacial James Webb (JWST), que está isolado no espaço a milhões de quilômetros da Terra e não pode ser consertado fisicamente, o SOFIA aterrissava após cada missão. Isso permitia que equipes de cientistas trocassem suas câmeras e sensores por equipamentos mais modernos em poucos dias.
Essa flexibilidade técnica, comum na aviação mas rara na astrofísica, garantiu que o observatório estivesse sempre na vanguarda tecnológica. A Agência Espacial Brasileira (AEB) e a comunidade astronômica internacional acompanharam de perto os dados de código aberto gerados pela missão.
Por que a NASA decidiu aposentar o Boeing em 2022?
Apesar do sucesso científico, o custo operacional do Boeing 747 modificado era altíssimo. Voar um “jumbo” pesado consumia enormes quantidades de combustível de aviação e horas de manutenção especializada. O advento do James Webb Space Telescope reduziu a necessidade primária de observações infravermelhas estratosféricas.
Após mais de 800 voos e milhares de terabytes de dados coletados, a NASA aposentou oficialmente o SOFIA em dezembro de 2022. Ele foi levado para o Pima Air & Space Museum, no Arizona, encerrando um dos capítulos mais fascinantes da engenharia aeroespacial e da busca humana por entender o universo.

