Imagine pagar o preço de um SUV de luxo por uma tela minúscula que sintoniza apenas um canal. Essa era a realidade da primeira televisão vendida no Brasil, um artigo tão exclusivo que custava quase dois séculos de trabalho de um cidadão comum em 1950.
Como a TV Tupi inaugurou a era da imagem em 1950?
A história da televisão brasileira começou com o empresário Assis Chateaubriand, que decidiu trazer a tecnologia dos Estados Unidos para o solo nacional. No dia 18 de setembro de 1950, ele inaugurou a TV Tupi em São Paulo, marcando o nascimento oficial das transmissões no país.
Para viabilizar o projeto, Chateaubriand importou todos os equipamentos necessários e cerca de 200 aparelhos receptores. Sem fabricação nacional, a televisão era tratada como um monumento da modernidade, restrita a poucos privilegiados que podiam bancar o alto custo de importação na época.

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Qual o valor atualizado da primeira televisão vendida no Brasil hoje?
O primeiro modelo comercializado, o RCA Victor 630-TCS, chegou ao mercado custando Cr$ 900.000 (novecentos mil cruzeiros). Para converter esse montante para a nossa realidade atual, é preciso considerar as oito trocas de padrão monetário e a inflação acumulada ao longo de 75 anos.
Ao aplicar os índices na Calculadora do Cidadão do Banco Central, o valor corrigido para julho de 2025 atinge impressionantes R$ 185.324,50. Esse preço hoje permitiria a compra de um carro premium zero quilômetro ou serviria como uma robusta entrada para a compra de um apartamento em capitais brasileiras.
Por que o televisor custava o equivalente a 197 anos de salário mínimo?
Em 1950, o salário mínimo vigente era de apenas Cr$ 380,00, o que criava uma barreira econômica intransponível para a maioria da população. Um trabalhador comum precisaria economizar cada centavo de sua renda por muito tempo para adquirir a novidade tecnológica.
Essa conta resulta em mais de 197 anos de trabalho integral, evidenciando que o aparelho nasceu como um símbolo de poder e distinção social absoluta. Segundo análises de portais de tecnologia, o televisor era um artigo de luxo acessível apenas para a abastada elite daquele período histórico.

De que forma Assis Chateaubriand estimulou o desejo pelo consumo?
Ciente de que o preço era proibitivo, Chateaubriand utilizou uma estratégia de marketing agressiva para popularizar o meio. Ele espalhou os poucos aparelhos importados por vitrines de lojas tradicionais em São Paulo, forçando os pedestres a pararem diante da nova maravilha visual da era da imagem.
Essa exposição estratégica transformou a primeira televisão vendida no Brasil em um objeto de desejo coletivo, mesmo que poucos pudessem instalá-la em casa. A tática garantiu que o público se familiarizasse com a linguagem televisiva, preparando o terreno para a futura produção industrial nacional em larga escala.
Quais eram as limitações técnicas do RCA Victor 630-TCS?
Diferente das telas ultra-finas atuais, o objeto de desejo de 1950 era um móvel pesado de madeira que abrigava uma tela de tubo (CRT) de apenas 10 polegadas. As imagens eram exibidas em preto e branco com uma resolução rudimentar, sujeita a constantes chuviscos e interferências eletromagnéticas.
Para visualizar como essa engenharia valvulada funcionava na prática, selecionamos o conteúdo do canal HiFiasco, que conta com 460 inscritos. No vídeo a seguir, o especialista mostra o resultado da restauração e o funcionamento interno do aparelho:
A tecnologia transformou o símbolo de elite em item essencial
A trajetória da televisão exemplifica a velocidade da democratização tecnológica no último século. O que nasceu custando o preço de um imóvel e exigindo décadas de esforço financeiro, hoje é um item básico de entretenimento presente em quase todos os domicílios brasileiros, provando o impacto da escala industrial no consumo.

