A 1.700 metros de profundidade, onde a luz do Sol não chega e a temperatura cai para poucos graus acima de zero, a água parece imóvel. No escuro completo, apenas o som atravessa a massa líquida. É nesse cenário silencioso que acontece um dos confrontos mais intensos do planeta: o encontro entre a cachalote e a lula gigante, marcado por pressão esmagadora, frio constante e uma guerra invisível.
Como é a batalha silenciosa entre a cachalote e a lula gigante?
A cachalote desce como um bloco vivo de músculo e gordura, cortando a água devagar para conservar energia. No breu, a lula gigante espera em posição de emboscada, com tentáculos armados de ventosas com ganchos e olhos enormes adaptados à penumbra.
Quando se encontram, o conflito é físico e silencioso: cicatrizes circulares denunciam as ventosas da lula, enquanto seus bicos afiados são encontrados intactos no estômago do predador. Esse embate, repetido diariamente em diferentes oceanos, sustenta um ciclo ecológico de grande escala.
Com mais de 9 mil visualizações, o canal Vive Viajando – Camila apresenta como funciona o biossonar da cachalote na caça às lulas:
Quanta lula a cachalote consome e qual o impacto no oceano?
Estima-se que uma cachalote consuma entre 82 e 202 lulas por dia, dependendo do tamanho das presas e da área de alimentação. Em escala populacional, isso pode chegar a 88.000 toneladas anuais de biomassa em regiões específicas do oceano.
Ao se alimentar em grandes profundidades e voltar à superfície para respirar e excretar, a cachalote funciona como um “elevador biológico”. Esse processo redistribui nutrientes e influencia cadeias alimentares e o ciclo do carbono em diferentes níveis do oceano.
Quais adaptações permitem a cachalote suportar a pressão das profundezas?
Para mergulhar a até 1.700 metros, a cachalote conta com uma verdadeira engenharia biológica, que envolve esqueleto flexível, controle da circulação e grande capacidade de armazenar oxigênio. Essas adaptações tornam os mergulhos longos energeticamente eficientes:
- Estrutura corporal flexível: costelas e caixa torácica maleáveis permitem o colapso controlado dos pulmões.
- Reservas de oxigênio: altas concentrações de hemoglobina e mioglobina sustentam mergulhos que podem ultrapassar uma hora.
- Bradicardia de mergulho: o coração desacelera e prioriza órgãos vitais, enquanto músculos periféricos economizam energia.

Como funciona o biossonar da cachalote na caça às lulas?
No escuro total, a cachalote utiliza a ecolocalização, emitindo cliques potentes e direcionalizados que viajam a longas distâncias. Esses sons são refletidos pelos corpos das lulas e retornam como ecos, permitindo ao animal “enxergar” em três dimensões.
Estruturas ricas em gordura na cabeça canalizam o feixe acústico, enquanto ossos e tecidos especializados conduzem o som até o ouvido interno. Pesquisas sugerem que esses cliques podem até desorientar presas próximas, aumentando a eficiência da caça em profundidades extremas.
Leia também: Britânica troca casa por barco e revela custo de vida anual de 5.700 euros: vale a pena?
Por que preservar os abismos oceânicos é essencial para o planeta?
Os ambientes profundos onde a cachalote caça estão entre os menos explorados e mais sensíveis do planeta. A pesca de arrasto em grandes profundidades, a mineração submarina e a poluição podem romper as cadeias alimentares que sustentam lulas, cetáceos e inúmeros outros organismos.
Proteger esses sistemas significa manter processos que conectam o fundo do mar à superfície, como a reciclagem de nutrientes e o sequestro de carbono. A cachalote, com seus mergulhos profundos e papel de transportadora de matéria orgânica, é peça-chave nessa engrenagem invisível dos oceanos.