A Ilha da Queimada Grande, no litoral sul de São Paulo, se tornou quase uma lenda moderna: um pedaço de terra isolado a 35 quilômetros da costa, tomado por algumas das cobras mais venenosas do planeta e por um ecossistema único, que revela uma história de evolução, adaptação extrema e muita ciência.
Como a Ilha da Queimada Grande se formou e por que ela é tão única?
A região sudeste do Brasil tem um litoral recortado, com baías, costões e ilhas que surgiram quando o nível do mar subiu no fim da última era glacial. Partes do continente foram inundadas e alguns trechos de terra ficaram isolados, como aconteceu com a Ilha da Queimada Grande, há cerca de 11 mil anos.
Esse isolamento transformou a ilha em um laboratório natural a céu aberto, onde espécies comuns do continente seguiram caminhos evolutivos distintos. Sem presença humana permanente desde a automação do farol, na década de 1920, a natureza dominou o espaço, permitindo o surgimento de espécies exclusivas, como a jararaca-ilhoa.

Quais são as principais características da jararaca-ilhoa?
A grande protagonista da ilha é a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), uma serpente endêmica que não existe em nenhum outro lugar do planeta. De porte médio, ela é menor e mais leve que a jararaca continental, com coloração amarela esverdeada e poucas manchas, o que favorece a camuflagem entre vegetação e galhos.
Estima-se que a ilha abrigue entre 2 mil e 4 mil indivíduos, com áreas em que se encontram de uma a cinco cobras por metro quadrado. O veneno da espécie é considerado um dos mais potentes entre as jararacas, resultado de adaptações ao tipo de presa disponível e ao ambiente restrito em que vive.
Como a jararaca-ilhoa caça aves em um ambiente tão isolado?
Sem roedores suficientes para sustentar a população de serpentes, a ilha “forçou” a jararaca-ilhoa a focar principalmente em aves. Essa mudança de dieta exigiu adaptações comportamentais, como uma rotina semi-arborícola e o uso intenso da fosseta loreal para detectar o calor de animais de sangue quente, mesmo com visão limitada.
A estratégia de caça inclui o caudal luring, em que a ponta da cauda é movimentada como se fosse uma lagarta, atraindo pássaros insetívoros. Espécies como o atobá-pardo, que faz ninhos em cactos, tornam-se presas frequentes, criando um equilíbrio delicado entre predadores e aves marinhas que usam a ilha para reprodução.
Com mais de 431 mil visualizações, o vídeo do canal National Geographic Brasil mostra a relação entre a jararaca-ilhoa e as aves marinhas que usam a ilha como área de reprodução:
O que acontece na Ilha da Queimada Grande durante a noite?
Quando anoitece, a dinâmica da ilha muda e outros animais ganham destaque. Grandes aranhas passam a circular em busca de alimento, enquanto centenas de baratas exploram folhas, plantas e restos de matéria orgânica, dividindo o espaço com as serpentes ativas na mesma faixa de horário.
Essas interações noturnas revelam um ecossistema isolado e extremamente denso, onde diferentes grupos ocupam nichos específicos. Entre os aspectos mais estudados pelos pesquisadores estão:
- Densidade de serpentes: áreas com várias jararacas por metro quadrado, algo raro em outros ambientes.
- Ausência de humanos: acesso altamente restrito, limitado a pesquisadores autorizados.
- Interações entre invertebrados e répteis: aranhas, baratas e cobras compartilhando o mesmo espaço.
- Isolamento geográfico: milhares de anos de evolução separados do continente.
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Por que Queimada Grande e Alcatrazes são tão importantes para a conservação?
Perto da Queimada Grande está o Arquipélago de Alcatrazes, com 13 ilhas, lajes e ilhotes e o maior ninhal de fragatas da América Latina. A ilha principal, com paredões de até 300 metros e uma combinação de Mata Atlântica e campos rupestres, abriga mais de mil espécies marinhas e terrestres, muitas endêmicas ou ameaçadas.
Desde 2016, Alcatrazes é um Refúgio de Vida Silvestre, protegendo áreas de reprodução de aves marinhas e tartarugas. Junto com a Queimada Grande, essas ilhas mostram como ambientes isolados funcionam como vitrine da adaptação da natureza e exigem proteção rígida contra invasões biológicas e impactos humanos.

