A história da imunoterapia contra o câncer mostra como a relação entre sistema imunológico e tumores mudou ao longo de pouco mais de um século, passando de usos experimentais de bactérias vivas no fim do século XIX a terapias celulares altamente personalizadas, apoiadas em conhecimento molecular detalhado, o que ajuda a entender por que a chamada imunoterapia do câncer se tornou um dos principais eixos da oncologia moderna.
Como o sistema imunológico reconhece e elimina células tumorais?
O conceito de que o organismo é capaz de reconhecer e eliminar células alteradas ganhou base teórica sólida em meados do século XX. A hipótese da imunovigilância tumoral propõe que o sistema imune patrulha o corpo em busca de células com proteínas alteradas, marcadas por antígenos anormais, destruindo muitas delas antes que formem um tumor.
Quando esse mecanismo falha ou é burlado pelo próprio câncer, a doença progride. Fatores como envelhecimento, imunossupressão medicamentosa e mutações que alteram a apresentação de antígenos podem comprometer essa defesa natural, favorecendo o surgimento e a progressão de neoplasias.

O que é imunoterapia do câncer e por que ela é tão importante?
A imunoterapia do câncer reúne tratamentos que estimulam, modulam ou redirecionam as defesas naturais do corpo para reconhecer e atacar células tumorais. Diferentemente da quimioterapia e da radioterapia, que agem diretamente sobre células em divisão, essas abordagens procuram tornar o sistema imune mais eficiente, removendo obstáculos ou apontando alvos específicos.
O interesse crescente pela imunoterapia se relaciona com a grande heterogeneidade genética dos tumores, que gera múltiplas subpopulações dentro de um mesmo tumor. Métodos que mobilizam o sistema imune, capaz de se adaptar e gerar memória, passaram a ser vistos como alternativa promissora para lidar com essa variabilidade entre pacientes.
Quais mecanismos os tumores usam para escapar do sistema imune?
Para atuar com eficiência, qualquer imunoterapia oncológica precisa enfrentar as estratégias de fuga empregadas pelas células malignas. Muitos tumores reduzem a exposição de antígenos na superfície, produzem moléculas imunossupressoras ou recrutam células que freiam a resposta imune no microambiente tumoral.
Além disso, proteínas que funcionam como “freios” naturais do sistema imune, os pontos de checagem imune, podem ser exploradas pelas células cancerosas. O bloqueio farmacológico desses freios com anticorpos monoclonais, os inibidores de checkpoint, permitiu que linfócitos T retomassem a capacidade de atacar o câncer em diversos tipos de tumores.
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Quais são os principais tipos de imunoterapia usados no câncer?
As terapias imunológicas atuais englobam diferentes mecanismos e graus de personalização, podendo ser associadas a quimio, rádio e terapias-alvo. Em alguns casos, a quimioterapia em doses controladas reduz a carga tumoral ou “abre espaço” para que a imunoterapia oncológica atue com maior eficácia.
A seguir, estão alguns dos principais tipos de imunoterapia que vêm sendo estudados e aplicados na prática clínica oncológica:
- Anticorpos monoclonais: ligam-se a alvos específicos na célula tumoral, bloqueando vias de crescimento, angiogênese ou marcando o tumor para destruição.
- Inibidores de checkpoint imune: bloqueiam proteínas reguladoras dos linfócitos T, removendo travas que impedem a resposta contra o câncer.
- Terapia celular CAR-T: linfócitos T do paciente são modificados geneticamente para reconhecer antígenos tumorais com mais eficiência.
- Vacinas terapêuticas contra o câncer: apresentam antígenos específicos do tumor ao sistema imune, treinando-o a reconhecer essas células como alvos.
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Como está a imunoterapia do câncer no Brasil e quais desafios permanecem?
No Brasil, a terapia CAR-T ganhou destaque em cânceres hematológicos agressivos, como certos linfomas e leucemias, exigindo infraestrutura complexa e alto investimento. Até 2026, a principal indicação clínica aprovada continua concentrada em neoplasias de origem sanguínea, enquanto tumores sólidos ainda apresentam barreiras físicas e químicas importantes.
Entre os desafios da imunoterapia do câncer estão eventos adversos inflamatórios, custo e acesso restritos, resistência tumoral e a necessidade de biomarcadores que indiquem quem tem maior chance de resposta. A tendência é combinar imunoterapia, terapias-alvo, cirurgia, rádio e quimioterapia de forma cada vez mais individualizada, de acordo com o perfil molecular do tumor e do sistema imunológico de cada pessoa.

