A Fossa das Marianas costuma ser apresentada como o lugar mais extremo do planeta, um abismo oceânico onde geologia, tecnologia e biologia se cruzam em condições que ainda desafiam a ciência. Localizada no Pacífico ocidental, perto das Ilhas Marianas, essa depressão abriga o Challenger Deep, ponto mais profundo conhecido da Terra, e concentra algumas das perguntas mais intrigantes sobre o funcionamento do planeta, ajudando a esclarecer também a dinâmica das placas tectônicas e o ciclo da água em escala global.
Como a Fossa das Marianas se formou ao longo do tempo?
A origem da Fossa das Marianas está ligada ao movimento das placas tectônicas, em um processo conhecido como subducção. Ali, a placa do Pacífico, mais densa, desliza rumo ao interior da Terra por baixo da placa das Marianas, menos densa e mais flutuante, levando sedimentos e água incorporados às rochas.
Parte desse material facilita a fusão parcial do manto e a formação de magma em grandes profundidades, alimentando vulcões submarinos que construíram as Ilhas Marianas ao longo de milhões de anos. Em áreas como o Challenger Deep, a placa pode ter se partido e afundado mais rápido, criando um “vinco” ainda mais profundo no relevo oceânico.

Por que o Challenger Deep é considerado um ambiente tão extremo?
No Challenger Deep, a pressão ultrapassa 1.086 bar, mais de mil vezes a pressão ao nível do mar, em escuridão total e temperaturas entre 1 e 4 °C. Esse conjunto de fatores impõe limites severos às estruturas tecnológicas e às formas de vida que conseguem sobreviver ali.
Para chegar a essas profundidades, batiscafos e submersíveis exigem cascos esféricos espessos e sistemas de flutuabilidade muito bem controlados, pois qualquer falha estrutural pode ser crítica. Missões históricas como as do Trieste e do Deepsea Challenger mostraram que é possível descer com segurança, embora por períodos curtos.
Quais tecnologias permitem explorar a Fossa das Marianas?
A exploração da Fossa das Marianas evoluiu de simples cabos com pesos metálicos para sistemas de ecossondagem de alta precisão e submersíveis tripulados, ROVs e AUVs. Hoje é possível mapear o relevo com detalhe, registrar imagens em alta resolução e coletar amostras de rochas, sedimentos e organismos.
Entre as soluções de engenharia usadas para operar em profundidades superiores a 10 mil metros, destacam-se componentes desenhados especificamente para resistir à compressão extrema e à ausência total de luz:
- Esferas de titânio ou aço especial, capazes de suportar grandes pressões internas e externas.
- Materiais flutuantes de alta densidade, como espumas sintéticas incompressíveis.
- Sistemas de navegação acústica, que substituem o GPS em profundidade.
- Iluminação e câmeras de alta sensibilidade, adaptadas ao ambiente escuro e frio.
Com mais de 119 mil visualizações, o vídeo do canal JAES Company Português explica de forma técnica como funciona toda a engenharia por trás:
Que formas de vida existem na Fossa das Marianas e como elas se adaptam?
Apesar das condições extremas, a Fossa das Marianas abriga uma diversidade de organismos, de microrganismos a peixes de grande profundidade. Já foram registrados o peixe-caracol das Marianas, xenofióforos, anfípodes de tamanho incomum, o “polvo Dumbo” e uma variedade de bactérias e arqueias.
Esses seres apresentam adaptações como corpos flexíveis e ricos em água, em vez de esqueletos rígidos cheios de ar, o que ajuda a equilibrar a pressão interna. Em um ambiente sem luz, sistemas sensoriais como a linha lateral, sensível a vibrações, tornam-se centrais para orientação e busca de alimento, muitas vezes baseado em matéria orgânica que desce da superfície.
Quais mistérios geológicos e hídricos a Fossa das Marianas ainda esconde?
A Fossa das Marianas é citada em debates sobre mineração em águas profundas, embora não seja, até agora, o principal alvo de projetos voltados a metais e terras raras. Regiões como Minamitorishima e a zona Clarion-Clipperton concentram mais atenção por sua abundância de nódulos polimetálicos.
Um dos maiores enigmas associados à fossa é o “ladrão de água”: rochas hidratadas na zona de subducção podem transportar para o manto quantidades de água maiores do que as estimativas anteriores, sem que a devolução por vulcões compense totalmente essa entrada. Entender o destino desse excedente é essencial para compreender o ciclo profundo da água e o comportamento das placas tectônicas em escala planetária.

