A politização da IA deixou de ser um conceito abstrato e passou a refletir uma mudança concreta na economia. O avanço recente da inteligência artificial não depende mais apenas de software ou de empresas de tecnologia, mas de infraestrutura física, eletricidade, terrenos e obras de grande porte.
Segundo Marcus Vinícius de Oliveira, diretor de Estratégia da Engemon Engenharia, a transformação está ligada à escala dos sistemas atuais de computação. Modelos modernos exigem operação contínua com grandes volumes de processamento, o que altera completamente a natureza da tecnologia.
“IA moderna usa grandes volumes de aceleradores que consomem muita energia e geram muito calor. Para operar com disponibilidade, isso exige infraestrutura física: conexão elétrica de alta potência, sistemas de refrigeração e espaço para subestações, equipamentos e redundâncias.”, avalia.
Esse movimento ajuda a explicar por que a politização da IA cresce: a tecnologia passou a depender diretamente de planejamento energético e urbano.
Politização da IA: as fábricas da economia digital
A expansão da inteligência artificial levou à multiplicação de data centers. Essas estruturas concentram processamento, armazenamento e redes, operando de forma permanente.
A analogia com a economia industrial é cada vez mais utilizada para entender a politização da IA.
“Eles produzem capacidade computacional que viabiliza serviços digitais e IA com operação 24/7. A lógica industrial de capacidade, eficiência e confiabilidade é muito parecida”, analisa o especialista.
Se antes empresas digitais cresciam apenas em número de usuários, agora precisam crescer em capacidade física instalada, o que envolve licenciamento, investimento e planejamento energético.
O gargalo não é apenas tecnológico
O desenvolvimento da IA enfrenta dois limites distintos. No curto prazo, o principal obstáculo costuma ser tecnológico: disponibilidade de chips e interconexão.
Mas quando novos projetos são implantados, surge outro problema.
“Para novos projetos, o gargalo frequentemente vira energia: megawatts disponíveis, prazo de conexão e obras.”, afirma o diretor.
A partir desse ponto, a politização da IA torna-se inevitável, porque a tecnologia passa a competir por recursos típicos da economia real, rede elétrica, terrenos e infraestrutura.
A expansão da IA não deve pressionar a inflação
O aumento do consumo energético dos data centers gerou preocupação sobre impactos tarifários. De acordo com o especialista, o modelo regulatório não prevê repasse automático ao consumidor.
“A regra geral é que quem cria a demanda extra, no caso, o próprio data center, pague pelos reforços e pela conexão necessários, via contratos e investimentos do projeto.”
Assim, a politização da IA não está ligada a aumento direto da conta de luz, mas à necessidade de planejamento energético e expansão da capacidade elétrica.
IA entra na geopolítica
A capacidade computacional tornou-se um ativo estratégico. Países passaram a tratar data centers e semicondutores como parte da segurança econômica.
“Investimentos em infraestrutura para aumento de capacidade de data center são ativos estratégicos, com impacto direto em controles de exportação e restrições tecnológicas.”, avalia.
Nesse cenário, a politização da IA também se manifesta na disputa tecnológica internacional, especialmente nas restrições a chips avançados e cadeias de suprimento.
Outro ponto é a dependência crescente de serviços digitais que levou governos a classificar infraestrutura de IA como crítica.
“Em muitos países, tende a ser tratada como infraestrutura crítica: resiliência energética, cibersegurança, continuidade de serviços e dependência de cadeias de suprimentos.”
A politização da IA passa, portanto, pela soberania digital: quem controla a capacidade computacional também controla parte do funcionamento econômico.
Regulação e inovação
O debate regulatório acompanha a expansão tecnológica. Segundo Oliveira, a discussão não é inédita e já ocorreu em setores de alto impacto econômico.
“Diversas indústrias, como aviação, fármacos, dispositivos médicos, setor financeiro e telecomunicações, tiveram inovação organizada por regras claras. Isso aumentou confiança e acelerou a adoção em escala.”, avaliou Oliveira.
A regulação tende a se apoiar em três pilares: padrões técnicos, auditoria proporcional ao risco e ambientes de testes controlados.
A politização da IA é estrutural
Para o especialista, a politização da IA não é passageira. A tecnologia tornou-se parte da infraestrutura econômica.
“O planejamento tende a ser estrutural, porque IA virou infraestrutura econômica: requer investimento, energia, regras e governança, como telecom ou eletricidade.”
Quando uma tecnologia depende de energia, território e coordenação institucional, ela deixa de ser apenas inovação privada e passa a integrar a política econômica.
A inteligência artificial não está apenas transformando empresas ou profissões. Ela está mudando a própria forma como países organizam sua economia e isso explica por que a politização da IA tende a permanecer no centro do debate público.













