Indústria e varejo operam hoje sob uma combinação de pressões que já não permite erros: juros elevados, o custo Brasil persistente e a competição internacional, especialmente da Ásia e de vendedores que atuam diretamente em marketplaces. Paralelamente, o consumidor brasileiro se tornou mais exigente, troca de marca com facilidade e participa de ciclos de produto cada vez mais curtos. Nesse ambiente, cresce a busca por alternativas mais ágeis e menos intensivas em capital. Uma delas é o modelo de fábricas sob demanda, que avança como resposta à necessidade de menor risco, maior velocidade e menor exposição financeira, especialmente para marcas que testam novos produtos com mais frequência.
O que é o modelo “fábrica sob demanda”?
O termo ‘fábrica sob demanda’ se refere à produção personalizada em quantidades pequenas ou médias, sem a necessidade de manter uma estrutura fabril própria. O modelo permite que marcas fabriquem produtos com sua identidade visual, sem os volumes elevados exigidos pelo processo tradicional de OEM (Original Equipment Manufacturer).
Felipe Teixeira, CEO da Ningbo BR Goods, resume a ruptura que possibilitou essa mudança: “Antigamente, para você conseguir produzir na sua marca, era preciso fazer grandes volumes. Hoje, a tecnologia permite personalizar produtos até em pequenas quantidades, com gravação a laser mais barata e personalização gráfica acessível.”
Esse processo se consolidou inicialmente na China, Vietnã e Índia, onde parques fabris desenvolveram flexibilidade para trabalhar com lotes menores, reduzindo desperdício e permitindo que pequenas empresas testem produtos sem assumir o risco típico de grandes encomendas.
O modelo encontrou aplicações em:
- varejo físico e digital,
- private label,
- marcas DTC (direct-to-consumer),
- pequenas indústrias,
- PMEs digitais,
- influenciadores que lançam produtos sazonais.
Por que o modelo cresceu entre empresários brasileiros?
A adoção do modelo no Brasil cresce por dois vetores: necessidade e oportunidade.
“O modelo cresce tanto por oportunidade quanto por necessidade. Oportunidade de acesso a mais tecnologia e produtos, e necessidade por causa da concorrência brutal dos marketplaces e dos vendedores internacionais.”, explica Teixeira.
Os fatores que impulsionam essa busca incluem:
- Custo Brasil elevado, que encarece produção local.
- Escalada dos custos industriais nacionais, especialmente em segmentos que não acompanharam a modernização global.
- Acesso direto a fábricas asiáticas, sem intermediários.
- Possibilidade de produzir lotes pequenos, permitindo teste de produtos antes de escalar.
- Redução de risco e zero CAPEX, já que a empresa não precisa investir em maquinário próprio.
“A indústria brasileira ficou obsoleta em muitos setores. Comparar o custo de produção local com o mesmo produto feito na China mostra que a importação tende a ser mais competitiva.”, avalia.
Além do preço, pesa a tecnologia: segmentos como eletrônicos, gadgets, iluminação e itens de alta complexidade já não têm competitividade doméstica para produção integral.
Fábricas sob demanda e os impactos para o varejo brasileiro
Para o varejo, especialmente o omnichannel, o modelo se tornou uma peça estratégica. Ele permite:
- agilidade para testar e rotacionar SKUs;
- estoques mais leves;
- redução de ruptura;
- menor exposição financeira;
- maior velocidade para acompanhar tendências digitais.
A possibilidade de validar produtos rapidamente, com protótipos que ficam prontos em poucos dias, é vista como vantagem crítica. “Validar a ideia com rapidez é uma das maiores vantagens. O parque fabril chinês permite prototipagem muito mais ágil e barata que no Brasil.”, destaca.
Transformações na indústria
A terceirização avançada deixou de ser exceção e se tornou estratégia competitiva.
O movimento é claro:
- grandes indústrias seguem importando componentes, matérias-primas ou produtos finalizados;
- pequenas empresas passaram a acessar padrões internacionais de qualidade;
- hubs industriais asiáticos funcionam como extensão operacional das marcas brasileiras.
Esse movimento também força a indústria nacional a repensar modelos e investir em tecnologia para recuperar defasagens, especialmente em setores complexos.
Riscos e cuidados do modelo de fábricas sob demanda
A produção sob demanda avança rapidamente, mas exige atenção redobrada para evitar problemas que podem comprometer o produto final e o custo da operação. Teixeira destaca que o modelo não elimina riscos, ele apenas muda onde eles estão concentrados.
Os principais pontos de atenção incluem:
- qualidade do produto;
- barreiras linguísticas;
- erros de especificação técnica;
- propriedade intelectual;
- prazos logísticos;
- sazonalidades de embarque;
- dependência excessiva de um único fornecedor estrangeiro.
Segundo ele, a etapa crítica é a prevenção. “Problemas de qualidade acontecem em qualquer país. O ponto crítico é como eles são resolvidos. Na importação, se o erro aparece só depois que chega ao Brasil, fica muito mais difícil corrigir.”
No campo da propriedade intelectual, o alerta é direto. “A China evoluiu, mas ainda deixa a desejar. É importante registrar patentes e investir na construção da marca para evitar dores de cabeça.”
Diante disso, práticas como due diligence, auditorias de fábrica, checagens de qualidade antes do embarque e conferência detalhada das especificações tornam-se obrigatórias para qualquer empresa que adote o modelo. Não se trata apenas de produzir fora do Brasil, mas de construir um processo disciplinado que reduza riscos antes que eles se tornem irreversíveis.
Tendências para 2026
O movimento não é marginal; é estrutural. As tendências apontam para:
- crescimento do private label premium;
- entrada de varejistas listados e FIIs buscando margem;
- mais hubs brasileiros operando na Ásia;
- cadeias híbridas: parte da produção no Brasil, parte na China.
“Nos últimos cinco anos, varejistas passaram a criar suas próprias marcas, tanto no digital quanto no físico, para não depender apenas da indústria local.”, avalia.
Um modelo que deixa de ser alternativa e vira estratégia
O avanço da produção sob demanda marca um novo capítulo na relação entre varejo, indústria e cadeias globais de suprimento. Para empresas brasileiras, especialmente em um país de juros altos, margens apertadas e forte concorrência internacional, o modelo deixa de ser uma alternativa para virar um instrumento estratégico de sobrevivência e competitividade.
A manufatura globalizada, antes restrita a grandes empresas, passa a ser acessível também ao pequeno e médio empresário. Ao mesmo tempo, o modelo pressiona a indústria nacional a responder com mais tecnologia, eficiência e flexibilidade.
Não se trata de uma simples tendência logística: é uma mudança estrutural no modo como o Brasil produz, importa, testa e comercializa produtos.















