Em ano eleitoral, o Brasil volta a girar em torno de nomes, partidos e promessas, mas, para o filósofo Guilherme Freire, essa dinâmica frequentemente deixa de lado o que realmente sustenta (ou derruba) um país: ideias, valores, instituições e o tipo de liderança que se forma ao longo do tempo. No BM&C Visões, apresentado por Isabela Tacaki, o entrevistado defendeu que a crise política no Brasil não é apenas conjuntural, e sim mais profunda, com raízes históricas e filosóficas que moldaram a forma de governar e a cultura institucional.
Logo na abertura, o programa coloca o ponto central: “em ano eleitoral, o Brasil volta a discutir nomes, partidos e promessas, mas raramente discute fundamentos”.
A partir daí, Guilherme Freire propõe um deslocamento do debate, do imediato para o estrutural, ao sugerir que parte do impasse brasileiro vem de ideias adotadas sem o devido entendimento sobre suas origens e implicações.
Crise política no Brasil: proclamação da República e a formação de um “Brasil artificial”
Ao responder sobre a raiz histórica da crise, Freire cita a Proclamação da República (1889) como um marco decisivo. Segundo ele, o período teria inaugurado um arranjo político e burocrático que afastou responsabilidade, comprometeu o desenvolvimento e abriu espaço para oligarquias. Na leitura do filósofo, esse processo teria contribuído para um país menos orgânico e mais “artificial”, com estruturas que se sustentam mais por desenho institucional do que por aderência à realidade social.
Nesse trecho, ele menciona a presença de ideologias que buscavam substituir referências tradicionais e afirma que a industrialização teria sido travada por elites sem compromisso com um projeto de país.
O argumento, no programa, é que a crise política no Brasil não nasce de um evento isolado, mas de uma sequência de decisões e ideias que se acumulam e vão moldando o Estado.
Municipalismo e descentralização como referência histórica
Em outro momento, o entrevistado sustenta que o Brasil teria nascido com maior autonomia local e um modelo mais descentralizado, citado por ele como herança das “ordenações” do período colonial. A linha de raciocínio é que haveria, no passado, uma lógica de governo mais próxima do município e menos concentrada em um centro político distante, e que parte do país teria perdido esse traço ao longo do tempo, em especial com a expansão da máquina pública e a centralização institucional.
A entrevista também aborda a percepção de distanciamento entre representação política e população, com críticas ao crescimento do Estado e à baixa eficiência percebida do gasto público.
O diagnóstico apresentado é de um sistema que amplia custos e complexidade, mas entrega pouco em serviços e resultados.
Liderança e virtudes: o critério que não entra na urna
Quando a conversa migra para filosofia política, Freire recorre a Aristóteles para defender que governar exige domínio das paixões e formação moral. Ele afirma que liderança é “guiar as pessoas para um bem” e lista virtudes como temperança, fortaleza, justiça e prudência como atributos necessários para quem assume responsabilidade pública.
A crítica, no programa, é que as democracias modernas, e particularmente o Brasil, não selecionariam lideranças por esses critérios.
A partir desse ponto, o debate deixa de ser apenas sobre o “sistema” e passa a ser também sobre o tipo de gente que o sistema forma e recompensa.
Crise política no Brasil: conceitos diferentes na tradição clássica
Um dos trechos mais provocativos da entrevista é a explicação, atribuída à tradição clássica, de que “república” e “democracia” não seriam sinônimos. Freire argumenta que, para autores antigos, a república estaria associada a mérito, responsabilidade e orientação moral, enquanto a democracia seria o estágio em que interesses particulares competem para “pilhar” o Estado.
Ao ser questionado sobre o Brasil, ele responde de forma direta: “o Brasil tá mais pró democracia.”
No contexto da fala, o entrevistado não está descrevendo o conceito contemporâneo usual, mas usando o enquadramento clássico que ele apresenta ao longo do programa.
“Não é a próxima eleição”, sobre a crise política no Brasil
No encerramento, o filósofo afirma que a expectativa de uma solução rápida pela via eleitoral ignora a profundidade do problema.
“Não é a próxima eleição, que vai salvar qualquer coisa.”, avalia.
Para ele, a reconstrução passa por formar lideranças e criar uma geração capaz de reorganizar incentivos, premiar mérito e reduzir a presença de estruturas improdutivas.
Freire sustenta que uma geração poderia “resetar” um país, mas enfatiza tempo e método: formação cultural, disciplina, responsabilidade e construção de redes capazes de sustentar mudanças duradouras. Sem isso, a leitura é de que qualquer governo enfrenta uma máquina grande demais para ser reorganizada em poucos anos.
Ao final, a conversa retorna ao ponto inicial: a crise política no Brasil não se resolve apenas com alternância de poder ou com promessas de campanha, porque, no diagnóstico do entrevistado, o problema é mais estrutural, ligado a ideias, incentivos e formação de lideranças. A eleição pode mudar o comando, mas não necessariamente muda o que sustenta o funcionamento do sistema.












