O avanço da educação financeira no Brasil tem ampliado o número de pessoas interessadas em investir, mas ainda levanta questionamentos sobre a qualidade da orientação recebida por investidores. No programa Papo de Dinheiro, da BM&C News, o CEO da B7 Business School, Fabio Louzada, analisou o cenário de profissionalização do setor e os impactos dessa transformação para o mercado.
Segundo o especialista, o crescimento do patrimônio das famílias e a maior disseminação de conteúdos sobre investimentos não foram acompanhados, na mesma proporção, por uma evolução na qualificação dos profissionais que prestam orientação financeira. Esse desalinhamento pode afetar decisões de investimento e o desenvolvimento do mercado.
“Então a conversa vai ser muito legal porque eu consigo identificar extremamente vários gaps que tem no nosso mercado com os profissionais e os erros que as pessoas cometem a escolher um assessor, um gerente, as pessoas infelizmente não sabem escolher esse profissional.”
Educação financeira no Brasil e a formação de investidores
Na avaliação de Louzada, o Brasil passou por um processo de popularização dos investimentos impulsionado por experiências negativas no sistema financeiro tradicional. O movimento levou muitos investidores a buscar autonomia na gestão do próprio patrimônio, mas nem sempre com a base necessária para decisões consistentes.
Ele destaca que a formação de investidores ainda é limitada pela ausência de preparo emocional e estratégico. O aprendizado técnico, isoladamente, não garante disciplina e visão de longo prazo, fatores considerados essenciais para a construção de resultados sustentáveis no mercado.
“Então muitos entram no mercado dessa forma, só que é ruim, por quê? Porque tem um teto, porque nesse teto as pessoas só aprendem a lidar com investimentos.”
Profissionalização do mercado financeiro e lacunas de qualificação
Outro ponto central da análise envolve a qualificação dos profissionais que atuam no setor. Para o executivo, o mercado financeiro exige conhecimento técnico e preparo comparáveis a outras carreiras especializadas, mas ainda carece de uma formação estruturada que combine teoria e prática.
Essa lacuna, segundo ele, ajuda a explicar a entrada de profissionais de diferentes áreas sem treinamento adequado, impulsionados pelo potencial de remuneração e ascensão social oferecido pelo segmento financeiro.
“Mercado financeiro é técnico também. E o que precisa? Não tem uma faculdade disso.”
Regulação ou protagonismo do cliente na escolha do profissional
Louzada aponta dois caminhos possíveis para enfrentar o problema: maior regulação sobre a atuação dos profissionais ou ampliação do protagonismo dos clientes na avaliação dos serviços prestados. A criação de mecanismos de reputação e transparência poderia melhorar a confiança e a eficiência do setor.
Na visão do especialista, o modelo atual não oferece instrumentos suficientes para diferenciar bons e maus profissionais, o que reforça a necessidade de ajustes institucionais e de maior debate entre reguladores, empresas e investidores.
“Ou regula e faz o cara ir atrás para a profissionalização de fato, ou vamos deixar o cliente ser protagonista.”
Segmentação do atendimento e rentabilidade no sistema financeiro
A estrutura de atendimento do mercado também foi analisada. Louzada argumenta que o modelo de varejo, caracterizado por grande volume de clientes com patrimônio reduzido, tende a gerar conflitos comerciais e limitações no nível de orientação oferecido.
Por outro lado, o atendimento a investidores de maior renda permite uma relação mais personalizada e alinhada a estratégias de longo prazo, favorecendo a sustentabilidade do negócio e a qualidade do serviço prestado.
“Ele quer um cliente de 300 mil no mínimo de investimentos, ele quer esse cara, por quê, porque ele sabe que a conta não fecha se ele pegar um cara de 10 mil de investimento.”
Inteligência emocional e conscientização financeira
Além da qualificação técnica, o executivo ressalta a importância da inteligência emocional e da conscientização sobre riscos financeiros. Para ele, a educação financeira deve incorporar temas comportamentais, especialmente diante da crescente competição por atenção e recursos, como o avanço das apostas online.
Essa abordagem amplia a compreensão do investidor sobre o tempo necessário para acumular patrimônio e reduz a busca por soluções imediatistas, frequentemente associadas a perdas financeiras.
“Não adianta eu vir falar de investimentos, de ações, disso, se eu não conscientizar o cara que ganhar dinheiro é longo prazo.”
Perspectivas para o mercado financeiro e a formação profissional
Ao analisar os próximos anos, Louzada projeta uma evolução gradual da profissionalização no setor, impulsionada pela maior exigência dos investidores e pela adaptação das instituições financeiras às novas demandas. A tendência inclui aprimoramento da qualificação e fortalecimento de modelos educacionais voltados especificamente ao mercado.
Nesse contexto, ele avalia que iniciativas focadas na formação integral de profissionais, combinando conhecimento técnico, repertório e habilidades comportamentais, podem contribuir para uma relação mais eficiente entre investidores e especialistas financeiros.











