A escalada do conflito no Oriente Médio voltou a colocar o petróleo no centro das atenções dos mercados globais. No Painel BM&C, a apresentadora Paula Moraes recebeu Bruno Musa, Carlos Honorato e Roberto Dumas para discutir como a guerra no Irã ultrapassa a dimensão militar e passa a afetar diretamente variáveis econômicas centrais, como inflação, juros, câmbio, dívida pública e preços dos combustíveis.
Ao longo do programa, os convidados convergiram em um ponto: o debate sobre petróleo e guerra no Irã não se restringe ao campo geopolítico. O risco de instabilidade no Estreito de Ormuz, por onde passa parcela relevante da oferta global de petróleo, torna o conflito uma ameaça imediata para a economia mundial.
Na abertura do Painel, Paula destacou que a guerra parece ser conduzida em dois planos: o militar, ligado à disputa por poder regional, e o econômico, relacionado à tentativa de preservar alguma estabilidade global em meio à sensibilidade dos mercados de energia.
Guerra no Irã e petróleo: conflito vai além da questão nuclear, dizem analistas
Para Roberto Dumas, a ofensiva não pode ser lida apenas como uma ação contra o programa nuclear iraniano. Na avaliação do economista, há uma dimensão estratégica mais ampla, ligada ao enfraquecimento do poder regional do Irã e à tentativa de remodelar o equilíbrio de forças no Oriente Médio.
“Do ponto de vista de Israel, a destruição da capacidade militar iraniana está ligada à própria sobrevivência do país. Já no caso dos Estados Unidos, o discurso de Trump mistura objetivos distintos, como conter o programa nuclear, atingir infraestrutura militar e estimular uma mudança de regime“, avalia Dumas.
Apesar disso, o economista ponderou que o conflito não deve se prolongar por anos, especialmente porque o fechamento do Estreito de Ormuz seria prejudicial para todos os envolvidos, inclusive para o próprio Irã, altamente dependente da receita do petróleo.
Carlos Honorato reforçou essa leitura ao afirmar que a guerra atual deve ser vista como parte de uma reorganização geopolítica mais ampla.
“Quem tende a ganhar posição relativa é quem evita entrar diretamente no confronto, a China, por exemplo, observa o cenário com pragmatismo, preserva capacidade militar e acompanha os movimentos energéticos com foco estratégico“, avalia Honorato.
Rússia pode ser uma das beneficiadas com petróleo mais caro
Entre os efeitos indiretos do conflito, um dos pontos levantados no Painel BM&C foi o possível ganho relativo da Rússia. Bruno Musa observou que, com o petróleo em patamares mais elevados, Moscou consegue vender sua produção a preços mais altos, mesmo sob sanções, além de se beneficiar do deslocamento do foco internacional da guerra na Ucrânia para o Oriente Médio.
“A Rússia também segue sustentando sua economia por meio de uma engrenagem fortemente ligada ao esforço de guerra, o que torna o encarecimento do petróleo uma variável relevante para sua sustentação fiscal e externa“, avalia Musa.
Ao mesmo tempo, ele ressaltou que um petróleo persistentemente mais caro vai na direção contrária dos interesses de Trump. Isso porque combustíveis mais altos pressionam a inflação nos Estados Unidos, dificultam uma queda dos juros pelo Federal Reserve e fortalecem o dólar, cenário oposto ao desejado por Trump.
Petróleo elevado reacende temor inflacionário
Um dos principais consensos do debate foi que o impacto econômico mais imediato da guerra aparece no preço da energia. Se o petróleo sobe, a pressão se espalha rapidamente para combustíveis, fretes, alimentos e serviços, contaminando expectativas de inflação.
No Painel, os participantes lembraram que choques anteriores de energia já mostraram como bancos centrais podem subestimar a persistência da inflação. Dumas citou o episódio posterior à invasão da Ucrânia pela Rússia, quando a alta de preços inicialmente foi tratada como temporária, mas acabou exigindo respostas mais duras da política monetária.
“Embora guerras possam ter efeitos intensos no curto prazo, os problemas mais duradouros continuam sendo os desequilíbrios fiscais, cambiais e inflacionários. Ainda assim, um choque no petróleo funciona como catalisador, agravando fragilidades que já existiam antes mesmo do conflito“, pontua.
Honorato também chamou atenção para o peso do risco logístico. Na avaliação dele, não basta garantir militarmente a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz. É preciso que seguradoras, armadores e grandes transportadoras aceitem operar normalmente.
“Com o prêmio de risco em alta, mesmo sem interrupção física completa da rota, os preços já passam a refletir medo e escassez potencial“, analisa.
Brasil entra em alerta com combustíveis e Petrobras
No bloco dedicado ao Brasil, Paula Moraes trouxe ao debate a preocupação com o repasse da alta internacional do petróleo para os preços internos. Musa afirmou que a defasagem entre os preços domésticos e os valores internacionais do diesel e da gasolina passou a indicar um risco claro para a Petrobras, caso o conflito persista.
O economista explicou que o Brasil é autossuficiente em petróleo bruto, mas não em refino, o que mantém o país dependente da importação de derivados.
“Se o petróleo refinado é comprado a um preço mais alto no exterior e vendido internamente por um valor menor, há perda de caixa“, argumenta.
Na leitura dele, se o conflito for curto, a pressão pode ser temporária. Mas, se a guerra se prolongar e o barril permanecer elevado, aumenta o risco de o governo tentar segurar reajustes para evitar impacto inflacionário, especialmente em um ambiente politicamente sensível.
Dumas reforçou esse ponto ao afirmar que, quando o governo absorve perdas para manter combustíveis artificialmente mais baratos, quem paga a conta é o contribuinte.
“Essa conta aparece depois na forma de mais impostos, mais juros ou piora fiscal“, diz Dumas.
Honorato acrescentou que, se o choque persistir, o problema pode deixar de ser apenas de preço e passar a atingir também a percepção de oferta.
“Mesmo antes de uma ruptura efetiva no abastecimento, já pode haver retenção de produto, vendas por cota e especulação ao longo da cadeia, pressionando ainda mais os preços no mercado doméstico“, complementa.
Guerra, fiscal e política monetária entram na mesma equação
Outro ponto relevante do programa foi a conexão entre guerra, expansão de gastos públicos e fragilidade fiscal. Os convidados defenderam que conflitos muitas vezes servem como justificativa para aumento do papel do Estado, elevação de despesas militares e reorganização das cadeias produtivas.
Ainda assim, Dumas sustentou que a crise fiscal segue sendo o problema estrutural mais grave, tanto em economias emergentes quanto em países desenvolvidos.
“A guerra vai acabar antes dos desequilíbrios fiscais, que permanecem pressionando juros e custo de carregamento da dívida“, analisa.
No caso brasileiro, a leitura do Painel foi de que um choque prolongado no petróleo agravaria não apenas a inflação, mas também o custo político do governo, ao atingir diretamente a percepção das famílias sobre custo de vida, combustível e poder de compra.
Petróleo e guerra no Irã seguem como foco do mercado
A discussão no Painel BM&C mostrou que o tema petróleo e guerra no Irã deve continuar no radar dos investidores, economistas e formuladores de política econômica nas próximas semanas.
Mais do que o desfecho militar imediato, o mercado tenta entender se haverá reabertura plena das rotas energéticas, estabilização do preço do barril e redução do prêmio de risco logístico. Até lá, petróleo, inflação e juros seguem caminhando juntos, e qualquer deterioração adicional no Oriente Médio pode reprecificar ativos, pressionar bancos centrais e aumentar a tensão sobre governos que já operam sob fragilidade fiscal.













