A diversificação das reservas internacionais e o avanço do ouro como instrumento de proteção ganharam espaço no debate do Painel BM&C, em uma discussão sobre a dívida dos Estados Unidos, o custo dos juros e os efeitos da incerteza geopolítica sobre os fluxos globais de capital. Participaram da análise Roberto Dumas, mestre em economia e estrategista-chefe da GCB Investimentos, Carlos Honorato, economista, Miguel Daoud, analista de economia e política, e Eduardo Boechat, consultor da CIV Trades.
O ponto de partida foi o aumento do custo para financiar a dívida americana. Dumas destacou durante o programa que a dívida dos Estados Unidos chegou a US$ 40 trilhões e representa 123% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo ele, os juros dos títulos de 30 anos estavam entre 5,23% e 5,30%, em um ambiente marcado por inflação ainda resistente e maior disputa por recursos no mercado.
Esse movimento importa porque os títulos do Tesouro americano funcionam como referência para a precificação do risco no mercado internacional. Quanto maior o retorno exigido para financiar o governo dos Estados Unidos, maior tende a ser o custo de oportunidade de outros ativos e países.
“Ele fica sendo benchmark de risco mundial”, afirmou Dumas ao explicar o papel dos títulos americanos na formação dos preços internacionais.
Por que as reservas internacionais estão se diversificando?
Ao analisar os desequilíbrios da economia americana, Dumas relacionou o déficit fiscal dos Estados Unidos ao financiamento externo e à decisão dos investidores sobre onde alocar os recursos disponíveis.
Na avaliação do economista, parte desse capital pode continuar financiando a dívida pública americana, enquanto outra parcela pode buscar alternativas como ouro e franco suíço. O movimento aparece, segundo a análise apresentada no programa, em meio à discussão sobre o custo da dívida e à atuação do governo americano sobre a parte mais longa da curva de juros.
É nesse contexto que a diversificação das reservas internacionais passa a ganhar relevância.
“Não acho que, pelo amor de Deus, não tô achando em nenhum momento que o dólar vai ser substituído por qualquer moeda nos próximos 10 anos”, afirmou Dumas.
Apesar da ressalva, o economista acrescentou que já “existe uma diversificação das reservas internacionais dos países, indo para franco suíço, indo para ouro”.
A análise, portanto, não aponta para uma substituição imediata da moeda americana. O que os participantes identificam é um processo em que investidores e países começam a distribuir parte de seus recursos entre diferentes ativos diante das mudanças no cenário econômico e político.
O dólar pode perder sua posição?
Mesmo diante dessa diversificação, os participantes ressaltaram que o dólar continua ocupando posição central no sistema financeiro internacional.
Durante a discussão, foi destacado que a liquidez global permanece concentrada na moeda americana. A falta de uma alternativa com características equivalentes limita, no curto prazo, a possibilidade de substituição do dólar como principal referência internacional.
Dumas avaliou que não vê outra moeda assumindo esse papel nos próximos dez anos. Mais adiante no programa, Honorato retomou a avaliação e ponderou que, em horizontes mais longos, o cenário pode ser diferente.
Na discussão, a China apareceu como um dos países que podem buscar maior espaço dentro de uma eventual reorganização do sistema monetário internacional. Honorato mencionou a possibilidade de uma estratégia chinesa de longo prazo envolvendo a moeda do país, ouro e petróleo, mas ressaltou que não há uma configuração definida para esse processo.
A avaliação apresentada no programa é, portanto, de que a hegemonia do dólar não enfrenta uma ameaça imediata, mas as decisões políticas e econômicas dos próximos anos podem influenciar a composição das reservas e das transações internacionais.
Por que o ouro ganha espaço nesse cenário?
O ouro surge no debate como um dos ativos buscados diante do aumento das incertezas.
Os participantes relacionaram o movimento tanto ao cenário econômico quanto aos riscos geopolíticos. Durante a conversa, foi mencionado que bancos centrais passaram a observar oportunidades de compra do metal e que a demanda contribui para sustentar seus preços.
“O ouro já tá subindo. Tem piso. Tá subindo”, foi a avaliação apresentada durante a discussão.
A análise também relacionou a procura pelo ouro às decisões tomadas após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, quando recursos russos mantidos no exterior foram bloqueados. Na interpretação dos participantes, o episódio ampliou o debate entre países sobre a segurança e a disponibilidade de ativos mantidos em outras jurisdições.
Durante o programa, também foram citadas movimentações envolvendo França e Holanda e a localização de reservas de ouro. Essas referências foram apresentadas pelos participantes como exemplos da discussão sobre confiança política e custódia dos ativos internacionais.
Dívida americana também pesa sobre o debate
A discussão sobre reservas internacionais está conectada ao próprio tamanho da dívida americana.
Dumas apontou que, além do estoque de US$ 40 trilhões, o mercado observa a necessidade de financiamento do governo e a inflação. Na avaliação apresentada no programa, o aumento da oferta de títulos públicos ocorre ao mesmo tempo em que empresas, especialmente aquelas ligadas à inteligência artificial, também buscam recursos de longo prazo.
Com mais emissores disputando capital, o mercado passa a exigir retornos maiores para financiar a dívida. Segundo os participantes, a tentativa de reduzir artificialmente os juros mais longos também pode produzir efeitos sobre liquidez e inflação.
O debate mostrou que a questão não se limita a saber se os Estados Unidos conseguirão financiar sua dívida. O ponto central é qual será o custo necessário para manter esse financiamento e como essa dinâmica afetará outras economias.
Para países como o Brasil, o efeito pode aparecer no custo do capital, no câmbio, nos juros e na capacidade de atrair investimentos. Em um ambiente internacional de dinheiro mais caro, os participantes destacaram que desequilíbrios fiscais domésticos também passam a cobrar um preço maior.
A perspectiva apresentada no Painel BM&C é de que o dólar mantém sua posição de referência no sistema global, enquanto ouro, franco suíço e outros ativos ganham espaço em uma estratégia de diversificação. O tamanho e a velocidade dessa mudança dependerão, segundo a discussão, tanto da trajetória econômica americana quanto das transformações políticas e geopolíticas dos próximos anos.
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