A combinação entre eleições 2026, política externa e contas públicas ganhou espaço no debate econômico a poucos dias do primeiro turno. Em edição do Painel BM&C, Carlos Honorato, Eduardo Diogo, Roberto Dumas e Miguel Daoud discutiram como o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia-Geral da ONU, a relação com os Estados Unidos e o reajuste do Bolsa Família podem se conectar à reta final da campanha presidencial.
O programa partiu do contraste entre as posições apresentadas por Lula e pelo presidente americano, Donald Trump, na ONU. Lula voltou a defender a soberania brasileira e criticou interferências estrangeiras no processo eleitoral brasileiro. O discurso incluiu a afirmação de que o Brasil não é “quintal” de nenhum país. A manifestação ocorreu em meio à aproximação do primeiro turno e às tensões comerciais entre Brasília e Washington.
Trump, por sua vez, adotou um discurso voltado à defesa dos interesses americanos, com críticas ao Irã e referências ao uso do poder econômico e militar dos Estados Unidos.
Política externa virou também tema eleitoral?
Para os participantes do Painel BM&C, parte das mensagens apresentadas em Nova York também pode ser interpretada a partir da disputa pelo eleitorado doméstico.
Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB, diferenciou multilateralismo e globalização. Para ele, a economia internacional não deixou de ser globalizada, mas as empresas e os países passaram a reorganizar cadeias produtivas após a pandemia e diante dos riscos geopolíticos.
Dumas citou estratégias como nearshoring e onshoring, em que empresas aproximam parte da produção de seus mercados consumidores para reduzir a exposição a interrupções logísticas.
“Eu não posso ficar confiando numa estratégia apenas offshore. Então eu faço uma administração de portfólio de entrega”, afirmou.
Eduardo Diogo avaliou que as divergências entre Lula e Trump vão além de questões conjunturais e envolvem concepções diferentes sobre relações internacionais e exercício de poder.
Já Miguel Daoud avaliou que o discurso brasileiro na ONU teve simultaneamente uma dimensão internacional e uma mensagem voltada ao eleitor brasileiro. Na leitura dele, temas como soberania, Pix e terras raras foram utilizados para reforçar a posição do presidente diante do público doméstico.
As interpretações apresentadas pelos participantes representam análises individuais sobre a estratégia política dos candidatos.
Reajuste do Bolsa Família entra na discussão
O debate avançou para a política econômica após a decisão do governo de atualizar os valores do Bolsa Família.
O reajuste foi de 15,04%, e o valor mínimo garantido por família passa de R$ 600 para R$ 691 a partir de outubro. O benefício médio estimado passa de R$ 675 para R$ 777. Segundo o governo, a atualização corresponde à variação acumulada do INPC entre março de 2023 e agosto de 2026.
Em setembro, antes da entrada em vigor dos novos valores, o programa atende 19,29 milhões de famílias, com benefício médio de R$ 678,18.
Os participantes discutiram tanto os possíveis efeitos eleitorais da medida quanto suas consequências para as contas públicas.
Dumas afirmou que medidas de estímulo fiscal podem caminhar em direção contrária ao esforço da política monetária para reduzir a inflação.
“Pode dar, mas como política econômica tá errado”, afirmou ao comentar a concessão de benefícios adicionais no período eleitoral.
A declaração representa a avaliação do economista. O governo sustenta que a atualização recompõe o poder de compra do benefício e que a medida está prevista dentro das disponibilidades orçamentárias.
Bolsa Família pode influenciar a eleição?
Essa foi uma das questões centrais levantadas durante o programa.
Daoud avaliou que o momento do reajuste também deve ser observado dentro da estratégia eleitoral do presidente. O analista relacionou o tamanho do programa ao peso eleitoral das famílias beneficiárias, embora as relações de causalidade entre recebimento de benefícios e comportamento eleitoral não possam ser determinadas apenas a partir desses números.
O tema provocou divergências na mesa.
Honorato argumentou que campanhas eleitorais tendem a concentrar esforços sobre parcelas relativamente pequenas do eleitorado ainda disponíveis para mudar de candidato, especialmente em uma disputa apertada. Ele também ressaltou que as transferências entre candidatos no segundo turno não são automáticas.
Os participantes discutiram ainda o equilíbrio entre políticas públicas legítimas e decisões tomadas durante uma campanha eleitoral. O reajuste do Bolsa Família foi estabelecido por decreto e, segundo o governo, corresponde à recomposição inflacionária acumulada desde 2023.
Contas públicas podem limitar o próximo governo?
O debate eleitoral também abriu espaço para uma discussão mais ampla sobre os desafios econômicos que permanecerão depois das urnas.
Dumas avaliou que o próximo governo terá pouco espaço para ignorar as questões fiscais e defendeu a autonomia do Banco Central como elemento importante para preservar a condução da política monetária diante de eventuais pressões políticas.
Honorato ampliou o diagnóstico para além da conjuntura econômica e afirmou que o Brasil precisa desenvolver uma visão de longo prazo.
“É por isso que nós estamos sempre nessas enrascadas. Nós não olhamos para frente”, disse.
O economista também relacionou planejamento econômico a riscos externos, citando tecnologia, inteligência artificial, conflitos geopolíticos e cadeias internacionais de produção.
Geopolítica também pode afetar empresas brasileiras
A discussão sobre planejamento ganhou uma dimensão empresarial quando o painel abordou a dependência global de cadeias estratégicas.
Dumas citou os semicondutores como exemplo e questionou se as empresas brasileiras estão preparadas para eventuais interrupções no fornecimento provocadas por conflitos ou sanções envolvendo Taiwan e China.
O argumento se conecta à discussão inicial do programa sobre a reorganização da globalização. Para os participantes, empresas e governos passaram a precisar considerar não apenas custos, mas também riscos políticos e logísticos na definição das cadeias de fornecimento.
Eduardo Diogo encerrou sua participação defendendo que o país discuta simultaneamente seus desafios internos e sua posição internacional. Na avaliação dele, planejamento de longo prazo, capacidade institucional e inserção geopolítica deveriam fazer parte do debate sobre o desenvolvimento brasileiro.
