A transformação dos hábitos de consumo está mudando setores tradicionais e ampliando o espaço para negócios que conseguem combinar tecnologia, personalização e experiência. Em áreas aparentemente distintas, como gastronomia, longevidade e beleza, empresas já identificam mudanças no comportamento dos clientes, no uso de dados e na forma como produtos e serviços são oferecidos.
O tema foi discutido em uma edição especial do Money Report, da BM&C News, com Silvia Levorin, do Rodeio, Thiago Lima, fundador da Clínica Seven, e Nathalia Paulino, Mason Aura. Ao longo da conversa, os três apresentaram exemplos de como seus mercados vêm reagindo a novas demandas de consumidores mais atentos à saúde, à estética, ao bem-estar e à experiência de atendimento.
Apesar das diferenças entre os três segmentos, um ponto aparece de forma recorrente: o consumidor passou a exigir mais do que apenas o produto final. Hoje, tecnologia, atendimento, ambiente, personalização e identificação com a marca também entram na decisão de compra.
Como a tecnologia está mudando negócios tradicionais?
No setor de longevidade e emagrecimento, a tecnologia já aparece como uma ferramenta de acompanhamento mais próximo e individualizado.
Thiago Lima explicou que a Clínica Seven utiliza testes genéticos para identificar características específicas de cada cliente e combinar essas informações com dados de acompanhamento. Segundo ele, a proposta é entender diferenças individuais e adaptar estratégias de alimentação e rotina a partir dessas informações.
O empresário afirmou ainda que, antes mesmo da pandemia, a clínica já atendia clientes em mais de 80 países com apoio de balanças de bioimpedância enviadas para acompanhamento remoto. Os dados podiam ser acessados pela equipe de nutrição para avaliar a evolução dos pacientes à distância.
Mais recentemente, a empresa passou a utilizar uma pulseira capaz de acompanhar parâmetros biológicos continuamente. Na avaliação de Lima, tecnologia e longevidade passaram a caminhar juntas, mas o recurso tecnológico não substitui a interação com o profissional.
A lógica, segundo ele, é usar os dados para tornar o atendimento mais próximo e específico.
Personalização virou diferencial?
A busca por personalização também aparece de maneira forte no setor de beleza.
Nathalia Paulino afirmou que o comportamento dos clientes dentro dos salões se tornou mais diverso. Há pessoas que chegam sabendo exatamente qual mudança querem fazer, enquanto outras procuram orientação dos profissionais.
Essa variedade obriga os negócios a montar equipes capazes de atender perfis diferentes e oferecer serviços adequados a necessidades específicas.
Segundo Paulino, o ambiente também passou a exercer um papel importante. O consumidor não busca apenas um corte de cabelo, uma maquiagem ou outro procedimento estético. Ele também procura conforto, identificação e profissionais capazes de compreender suas expectativas.
No caso do salão citado durante o programa, a estrutura conta com dezenas de posições de atendimento, justamente para acomodar diferentes perfis de clientes e profissionais.
Gastronomia também vende experiência?
No setor de alimentação, o movimento é semelhante.
Silvia Levorin ressaltou que a relação do cliente com um restaurante vai além do prato servido. No Rodeio, segundo ela, a permanência de funcionários por longos períodos contribui para a construção de vínculos com frequentadores habituais.
A experiência também passa pelo ambiente físico.
Nos projetos mais recentes do restaurante, tecnologias voltadas para acústica e exaustão ganharam mais atenção. Silvia explicou que ruído excessivo e cheiro de fumaça podem interferir diretamente na permanência e no conforto do cliente.
A evolução da infraestrutura, portanto, não aparece apenas como uma melhoria operacional, mas como parte do produto oferecido ao consumidor.
Esse raciocínio também ajuda a explicar por que pratos tradicionais continuam relevantes. Durante o programa, Silvia destacou a picanha fatiada como um dos pratos mais pedidos da casa e ressaltou o caráter de compartilhamento e ritual associado ao consumo.
Longevidade deixou de ser assunto apenas da terceira idade?
Outro movimento discutido é a mudança na percepção sobre longevidade.
Thiago Lima afirmou que, anos atrás, o tema era frequentemente associado à geriatria. Hoje, porém, pessoas a partir dos 40 anos já procuram produtos e serviços com foco em prevenção, qualidade de vida e envelhecimento saudável.
Para ele, essa mudança está relacionada a uma geração mais informada e mais consciente sobre os efeitos de hábitos cotidianos.
O autocuidado masculino também ganhou espaço.
Os participantes observaram que homens passaram a procurar com mais frequência academias, dermatologistas, tratamentos estéticos e serviços de beleza. Nathalia Paulino citou o crescimento do chamado “dia do noivo”, com serviços de cabelo, barba, bronzeamento e outros cuidados antes de casamentos.
Ao mesmo tempo, ainda há diferenças de comportamento entre homens e mulheres.
Segundo Nathalia, parte dos homens demonstra maior preferência por ambientes reservados durante certos procedimentos, como coloração do cabelo. O consumidor masculino, portanto, amplia sua presença no mercado, mas ainda exige adaptações na forma de atendimento.
Canetas emagrecedoras mudaram outros mercados?
As canetas emagrecedoras também entraram no debate como exemplo de como uma inovação de um setor pode produzir efeitos em cadeias diferentes.
Thiago Lima afirmou que os medicamentos impactaram inicialmente clientes interessados em novidades, embora parte desse público continue valorizando o acompanhamento profissional durante o processo de perda de peso.
No mercado de beleza, Nathalia Paulino relatou mudanças claras no comportamento de consumo após o emagrecimento.
Segundo ela, algumas clientes passaram a investir mais em cabelo e estética depois de perder peso. Outras procuraram tratamentos voltados ao couro cabeludo, à aparência da pele e ao volume dos cabelos.
A empresária também citou maior procura por equipamentos estéticos e procedimentos não invasivos.
Os relatos feitos durante o programa refletem a experiência dos participantes em seus respectivos negócios e não substituem avaliação médica ou evidência clínica.
Mercado de beleza cresce com consumidor mais informado?
A discussão também mostrou como o consumidor de beleza passou a buscar soluções mais específicas.
Logo no início do programa, Nathalia Paulino destacou o crescimento do interesse por produtos coreanos, que ganharam espaço por meio da difusão de tendências de skincare, cuidados com o couro cabeludo e estética nas redes sociais.
Segundo ela, a tecnologia deixou de estar concentrada apenas no tratamento dos fios e passou a alcançar também o couro cabeludo e a origem do crescimento capilar.
Outro ponto citado foi a frequência de consumo.
Paulino afirmou que parte das clientes frequenta o salão semanalmente, seja para unhas, cabelo ou outros serviços, enquanto procedimentos estéticos costumam ter intervalos maiores.
Ela também atribuiu a força do mercado brasileiro de unhas a dois fatores: cultura de beleza e custo do serviço. Segundo a empresária, o Brasil tem uma frequência de manutenção superior à observada em mercados como Estados Unidos e Europa.
Consumo de álcool perde espaço?
Outra mudança mencionada pelos participantes foi a redução no consumo de bebidas alcoólicas.
Thiago Lima avaliou que consumidores mais atentos à saúde e ao próprio desempenho físico passaram a rever a relação com o álcool. Na percepção dos convidados, esse movimento também alcança gerações mais jovens.
Nathalia Paulino acrescentou que atividades como corrida, esporte e encontros em espaços de beleza passaram a ocupar parte do papel social que antes estava fortemente ligado ao consumo de bebidas.
No restaurante, Silvia Levorin relatou perceber um consumidor mais interessado em vinhos de maior qualidade, ainda que com um comportamento possivelmente mais moderado em relação à quantidade.
Também entram nessa mudança fatores como a Lei Seca e a maior preocupação com os efeitos do álcool no dia seguinte.
Saúde e prazer passaram a coexistir mais?
A conversa mostrou ainda uma mudança na forma como consumidores conciliam saúde e indulgência.
Silvia Levorin observou que clientes continuam frequentando restaurantes para celebrar, encontrar amigos, realizar negócios e buscar prazer gastronômico. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com proteínas, equilíbrio alimentar e composição das refeições.
Thiago Lima defendeu durante o programa que o cuidado com a alimentação não precisa eliminar momentos de prazer. Para ele, existe diferença entre alimentação cotidiana e ocasiões específicas de consumo.
Essa lógica também apareceu na discussão sobre dietas e restrições.
Os participantes defenderam que o excesso de privação pode dificultar a manutenção de hábitos no longo prazo e destacaram a importância da preservação da massa muscular durante processos de emagrecimento.
O que une gastronomia, longevidade e beleza?
Mesmo atuando em mercados distintos, os três setores apresentados no Money Report demonstram uma convergência.
O consumidor está mais informado, mais atento aos próprios hábitos e mais disposto a pagar por serviços personalizados. A tecnologia amplia a capacidade de coletar dados, acompanhar resultados e melhorar estruturas, mas a relação humana continua sendo tratada como parte essencial do serviço.
Na gastronomia, isso aparece na experiência e no ambiente.
Na saúde e na longevidade, na combinação entre dados e acompanhamento.
Na beleza, na personalização, no autocuidado e na criação de espaços adequados a diferentes perfis de consumidores.
O resultado é um mercado em que empresas tradicionais precisam atualizar processos sem necessariamente abandonar aquilo que construiu sua identidade. Ao mesmo tempo, negócios mais novos precisam combinar inovação com atendimento, confiança e experiência.
