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CONEXÃO SEGURA

IA nas empresas: como dados e governança definem o resultado

Veja como três líderes com 30 anos de carreira usam IA para gerar produtividade real em 2026. Entenda dados, governança, cultura e riscos que sua empresa e

Empresas que ainda tratam inteligência artificial como experimento isolado tendem a perder produtividade e competitividade. A partir de conversas do programa Conexão Segura, da BM&C, com executivos de tecnologia experientes, esta reportagem organiza em três frentes práticas o que separa negócios preparados dos que ainda estão só no hype da IA.

As entrevistas conduzidas por Renato no programa Conexão Segura, da BM&C, com os executivos José Manuel Silva, Alessandro Almeida e Rafael Tobara, mostram um ponto comum: IA já está no centro das decisões de negócio, mas só gera valor onde há dados organizados, governança clara e cultura preparada para mudar.

Como saber se a sua empresa realmente está pronta para IA?

Pelas falas dos entrevistados, o primeiro filtro é simples: se a casa de dados não está arrumada, a IA não se paga.

José Manuel usa a metáfora do iceberg. A parte visível, no topo, são os agentes e modelos de IA que viram demonstrações impressionantes. A parte invisível é o conjunto de dados, integrações e governança que sustenta tudo. Sem essa base, a IA esbarra em limitações técnicas e de negócio.

Alguns sinais que surgem nas entrevistas indicam se a empresa está ou não pronta:

Sinal dentro da empresaO que isso indica sobre a prontidão para IA
Múltiplos ERPs e data lakes que “não conversam”Base fragmentada; IA tende a gerar respostas inconsistentes e pouco confiáveis
Dificuldade política para investir em dados porque “não dá retorno imediato”Risco de ficar preso ao curto prazo e não capturar valor estrutural de IA
Projetos de IA isolados em TI, sem dono de negócio claroProbabilidade alta de pilotos que não escalam nem mudam o resultado financeiro
Decisões ainda baseadas mais em opinião do que em fatos e dadosUso subótimo de IA; tecnologia vira enfeite, não parte do processo decisório

A experiência relatada pelos executivos indica que empresas “greenfield”, desenhadas desde o início em torno de dados, conseguem capturar valor de IA mais rápido do que organizações grandes, cheias de legados. José Manuel cita, por exemplo, a criação de uma operação de pagamentos separada da estrutura principal de uma grande companhia, desenhada já “a partir dos dados”.

Por que governança de dados e de IA não podem virar burocracia?

Os entrevistados diferenciam dois tipos de risco:

Reversíveis: testes de jornada de cliente, experimentos de UX, provas de conceito.
Irreversíveis: identidade da empresa, privacidade de dados, crédito, dinheiro e segurança.

Na visão de José Manuel, os riscos irreversíveis precisam nascer by design com “guarda‑corpos” claros. Ao mesmo tempo, ele alerta para o perigo da “miopia de governança”: quando o acúmulo de comitês, documentos e aprovações dá sensação de controle, mas na prática cria lentidão, inconsistência e até mais risco.

Alessandro complementa com um ponto técnico: sistemas tradicionais seguem regras determinísticas (se acontece A, então faça B). Já sistemas de IA generativa são não determinísticos. Sem limites claros, podem produzir respostas ou ações que a empresa não deseja.

Na prática, isso exige uma governança diferente:

1. Definir o escopo de decisão da IA (onde ela sugere, onde ela decide e onde um humano sempre revisa).
2. Monitorar continuamente o que entra e o que sai dos modelos, inclusive para detectar vieses e erros.
3. Conectar riscos à estratégia: segurança e privacidade são tratados como parte do modelo de negócios, não só como compliance.

Sem isso, a IA pode gerar desde prejuízos financeiros até danos de imagem, como mostram casos de mercado relatados por Alessandro no programa.

IA é só hype ou é obrigação estratégica em 2026?

Nas conversas, Renato traz uma dúvida recorrente entre executivos: depois do “hype” de transformação digital na pandemia, IA seria apenas mais uma moda?

Alessandro reconhece que existe hype, mas diferencia IA de ondas anteriores, como metaverso e algumas aplicações de blockchain. Para ele, essas tecnologias ainda não comprovaram impacto amplo e recorrente em negócios, enquanto IA já mostra efeitos concretos em:

Produtividade em desenvolvimento de software, com geração e teste de código mais rápidos.
Atendimento automatizado, com agentes capazes de resolver demandas simples sem fila de call center.

Ele observa, porém, que ainda há poucos casos realmente robustos em que IA muda a proposta de valor ao cliente e o resultado financeiro de forma clara. Por isso, sugere dividir a agenda:

– Em produtividade interna e processos repetitivos, quem não adotar IA tende a perder competitividade.
– Em iniciativas voltadas diretamente ao cliente, o conselho é mais cauteloso: testar, aprender e acompanhar a maturidade do mercado.

Quais são as mudanças culturais que ninguém te conta?

Um dos pontos menos visíveis nas apresentações sobre IA é a pressão sobre pessoas e cultura.

José Manuel destaca que hoje cinco ou seis gerações convivem no mesmo ambiente de trabalho. Isso amplifica choques de linguagem, prioridades e relação com tecnologia. Para ele, as capacidades necessárias deixam de ser apenas técnicas e passam a ser “humanas”: colaboração entre gerações, comunicação e entendimento dos impactos sociais da tecnologia.

Renato acrescenta um diagnóstico sobre o Brasil: o país não consolidou um letramento digital na base da educação, o que faz muitos profissionais chegarem ao mercado dominando ferramentas, mas com fundamentos frágeis em governança, exposição e risco digital.

O modelo de mudança cultural descrito nas entrevistas segue um “efeito sanduíche”:

De cima para baixo: conselho e C‑level se alfabetizam em IA, definem prioridades e dão exemplo de uso responsável.
De baixo para cima: times mais jovens funcionam como catalisadores, experimentando e mostrando na prática como IA pode alavancar atividades individuais e coletivas.

Sem esse duplo movimento, projetos de IA tendem a ficar isolados em TI ou inovação, longe dos centros de decisão.

Como aplicar IA sem perder o que há de melhor na criatividade humana?

Uma preocupação recorrente nas falas de José Manuel é o risco de atrofia da cognição humana. A facilidade de usar GPS, assistentes de e‑mail e modelos de IA para qualquer tarefa pode reduzir o exercício de pensar, argumentar e criar.

Ele usa a arte como metáfora: um modelo pode recombinar obras de um grande pintor em algo novo, mas não cria o próprio artista. O valor central continua na criatividade humana, que não pode ser terceirizada.

Na prática, isso leva a duas recomendações que atravessam o programa:

1. IA como aceleradora, não substituta. Alessandro reforça que, se o profissional apenas “terceiriza” a tarefa, o resultado tende a ser genérico. A responsabilidade pelo trabalho final continua sendo humana.
2. Tempo liberado precisa ter destino. A comparação com a Revolução Industrial aparece para lembrar que tecnologia historicamente devolve tempo às pessoas. A questão é se esse tempo será reinvestido em melhor decisão, melhor criação e melhor relacionamento com clientes.

No setor de saúde, tema da conversa com Rafael Tobara, isso fica ainda mais evidente. Ele destaca que IA já é usada desde projetos de genoma humano até robôs cirúrgicos, com o objetivo de reduzir dores, evitar doenças e prolongar vidas. O desafio é garantir que essa tecnologia chegue a todos de forma consistente, especialmente em países de dimensão continental como o Brasil.

Que passos práticos sua empresa pode começar a dar agora?

1. Mapear a base de dados e legados
– Levante quantos ERPs, CRMs, data lakes e integrações existem.
– Identifique onde estão os dados críticos para casos de IA que façam sentido para o negócio.
2. Escolher um problema real de produtividade
– Foque em tarefas repetitivas ou processos internos mal estruturados.
– Defina como medirá ganho de tempo, custo ou qualidade.
3. Desenhar governança simples e efetiva
– Estabeleça quem responde por risco, segurança e privacidade no projeto.
– Delimite o espaço de decisão da IA e onde sempre haverá revisão humana.
4. Criar o “efeito sanduíche” cultural
– Envolva conselho e C‑level no patrocínio explícito da agenda de IA.
– Monte uma rede de multiplicadores em áreas‑chave do negócio.
5. Iterar rápido, com aprendizado documentado
– Teste em ciclos curtos, registre erros e acertos e ajuste as regras de uso.

A partir daí, a orientação prática é clara: não esperar pela solução perfeita. Começar pequeno, com problemas concretos e governança pensada desde o início, aumenta a chance de que IA deixe de ser buzzword e passe a ser parte estável da operação e da estratégia da empresa.

Assista ao vídeo abaixo:

Apresentador e entrevistado em estúdio do programa Conexão Segura.