O debate da Globo foi cancelado nesta quinta-feira (01), após duas decisões judiciais, expedidas em menos de uma hora que proibiram a exibição do espaço vazio de Lula e determinaram a inclusão de Renan Santos. Flávio Bolsonaro anunciou que não participaria do programa, e candidatos presentes acusaram o Judiciário de interferência e censura.
Lula havia informado dias antes que não compareceria ao confronto. Pelas regras acertadas entre a emissora e as campanhas, o púlpito de um candidato ausente poderia permanecer visível, e o regulamento previa tempo para perguntas dirigidas a quem não estivesse no estúdio.
Por que o debate da Globo foi cancelado?
A sequência começou por volta das 18h30 da quinta-feira (1º), quando a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, acolheu um pedido da campanha de Lula. A liminar impediu a Globo de mostrar vazio o espaço reservado ao presidente e proibiu perguntas destinadas a candidatos ausentes.
Às 19h24, Flávio Bolsonaro publicou que não compareceria ao programa. Três minutos depois, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que Renan Santos fosse incluído no debate.
A emissora anunciou o cancelamento às 20h39. A justificativa foi que as decisões de Estela Aranha, Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques haviam interferido nas condições previamente acertadas e provocado insegurança jurídica.
| Horário ou data | O que aconteceu |
|---|---|
| Terça-feira (29) | Nunes Marques considerou que o Novo atendia ao requisito de representação parlamentar |
| Por volta das 18h30 | Estela Aranha proibiu a exibição do espaço vazio e perguntas para ausentes |
| 19h24 | Flávio Bolsonaro anunciou que não participaria |
| 19h27 | Gilmar Mendes determinou a inclusão de Renan Santos |
| 20h39 | A Globo cancelou o debate |
O que as liminares mudaram nas regras?
Estela Aranha entendeu que a imagem do espaço vazio produziria efeitos além da informação sobre a ausência de Lula e apontou perigo de dano a poucos dias do primeiro turno. A decisão afastou dois pontos do regulamento: a exposição do púlpito desocupado e o tempo reservado a perguntas para candidatos ausentes.
Gilmar Mendes, por sua vez, acolheu um pedido apresentado pelo Solidariedade, sem o conhecimento de Renan Santos, e garantiu a presença do candidato do Missão. Renan já havia recebido duas decisões contrárias à participação, uma no TSE e outra no próprio STF.
A mudança relacionada a Romeu Zema havia ocorrido na terça-feira (29). Nunes Marques, presidente do TSE, considerou que o Novo preenchia o requisito de representação parlamentar, em interpretação diferente da utilizada até então na organização do programa.
Quem estava autorizado a participar?
A portaria do TSE citada na organização do debate estabelecia convite obrigatório para candidatos de partidos com pelo menos cinco parlamentares no Congresso Nacional. Com esse critério, a Globo havia convidado Augusto Cury, do Avante; Flávio Bolsonaro, do PL; Ronaldo Caiado, do PSD; e Lula, do PT.
A decisão de Nunes Marques tornou Zema apto a participar. Já a presença de Renan decorreu da liminar concedida por Gilmar Mendes poucas horas antes do início previsto para o programa.
Como os candidatos reagiram ao cancelamento?
Os candidatos que estavam preparados para o debate reagiram com revolta e acusaram o Judiciário de interferência e censura. Flávio Bolsonaro classificou a liminar do TSE como censura, defendeu imprensa livre e eleições limpas e acusou Lula de usar aliados no Judiciário para impedir o confronto.
Augusto Cury afirmou que o STF havia assumido protagonismo desproporcional e associou o episódio a um risco de colapso democrático. Zema falou em insegurança política, acusou o Judiciário de fazer política e disse que a Justiça estaria a serviço de Lula. Caiado classificou o cancelamento como um atentado à democracia e afirmou que os Poderes estavam sendo conduzidos ao descrédito.
Renan organizou um ato em frente à TV Globo, no Rio de Janeiro. Ele atribuiu o cancelamento à desistência de Flávio, declarou que o adversário teve medo e afirmou que a retirada ocorreu três minutos depois da oficialização de sua participação.
Lula acompanhou os acontecimentos à distância e participou, pouco depois das 21h, de um podcast de campanha. Na conversa, afirmou que esse formato de debate é infrutífero e acaba concentrado em piadas, pegadinhas e disputas por repercussão.
Por que o episódio foi chamado de ativismo judicial?
A especialista em Direito Constitucional Vera Chemin classificou a decisão de Gilmar Mendes como ativismo judicial. Segundo sua avaliação, as regras já estavam fixadas e haviam sido aceitas pelas campanhas, o que tornaria a intervenção incompatível com a conduta esperada de um ministro do STF e comprometeria a dignidade do cargo.
Chemin também criticou a liminar de Estela Aranha. Para a especialista, a ministra não deveria ter afastado regras previamente acertadas entre a emissora e os candidatos.
O que o eleitor perde com o cancelamento?
O efeito imediato foi a eliminação de uma oportunidade de comparação direta entre candidatos, propostas e respostas. Em lugar do confronto, o eleitor recebeu manifestações individuais, acusações políticas e decisões judiciais expedidas poucas horas antes do programa.
Para acompanhar os próximos passos, o leitor deve separar três elementos: eventuais novas decisões do TSE e do STF, alterações comunicadas formalmente pela emissora e compromissos divulgados pelas campanhas. As acusações dos candidatos expressam suas posições políticas; a cronologia das liminares, da desistência e do cancelamento mostra como as regras foram alteradas até a retirada do programa do ar.
