Presidente abriu o debate geral da Assembleia das Nações Unidas com críticas ao Conselho de Segurança e abordou Gaza, Ucrânia, crime organizado, comércio, clima, inteligência artificial, PIX, economia e as eleições brasileiras
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (22) o debate geral da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, com um discurso que percorreu temas de política internacional e assuntos internos do Brasil. Entre eles estiveram as guerras em Gaza e na Ucrânia, soberania, segurança pública, tarifas comerciais, mudanças climáticas, inteligência artificial, PIX, jornada de trabalho e as eleições brasileiras de outubro.
Esta foi a décima vez que Lula abriu o debate geral da Assembleia. Logo no início do pronunciamento, o presidente afirmou que a ONU atravessa seu momento mais crítico desde que ele ocupou a tribuna pela primeira vez, em 2003. Lula direcionou parte das críticas ao Conselho de Segurança e ao poder de veto exercido pelas grandes potências.
“O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra”, afirmou.
Lula citou o aumento do número de conflitos armados e os gastos globais com a corrida armamentista. Segundo ele, a estrutura internacional precisa recuperar capacidade de negociação e atuação diplomática diante das crises.
“A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política”, disse o presidente.
O que Lula disse sobre Gaza e Ucrânia?
Os conflitos internacionais ocuparam uma parcela significativa do pronunciamento.
Ao abordar a guerra em Gaza, Lula responsabilizou o governo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu pela situação enfrentada pela população palestina e usou o termo genocídio para descrever as ações contra mulheres e crianças. No mesmo trecho, condenou os ataques terroristas do Hamas contra civis israelenses.
O presidente também voltou a defender a solução de dois Estados e criticou os assentamentos israelenses na Cisjordânia, que, em sua avaliação, dificultam essa alternativa.
Lula relacionou a escalada militar no Oriente Médio aos efeitos sobre a economia mundial. Segundo ele, a instabilidade no Estreito de Ormuz afeta o comércio e contribui para o aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos.
Na guerra entre Rússia e Ucrânia, o presidente voltou a defender uma solução negociada e mencionou o Grupo de Amigos da Paz, iniciativa criada por Brasil e China.
“A diplomacia é a única opção”, afirmou.
Soberania e América Latina ganham espaço no discurso
Outro eixo do pronunciamento foi a soberania dos países latino-americanos.
Lula criticou o que classificou como tentações hegemônicas, interferências estrangeiras em processos eleitorais e iniciativas de divisão do mundo em zonas de influência.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, declarou.
Na sequência, o presidente defendeu maior integração entre os países da América Latina, independentemente de divergências ideológicas.
Lula também tratou individualmente de alguns países da região. Defendeu que os venezuelanos definam o futuro político do país, criticou as restrições à participação da oposição nas eleições da Nicarágua e voltou a condenar o embargo econômico contra Cuba. O Haiti também foi mencionado diante da crise de segurança e institucional enfrentada pelo país.
Crime organizado e cooperação internacional
A segurança pública também ganhou um bloco próprio.
Lula afirmou que o Brasil pretende manter sob sua responsabilidade a proteção das fronteiras e criticou a presença de forças militares estrangeiras como resposta ao crime organizado na América Latina.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, afirmou.
O presidente disse ter apresentado aos Estados Unidos uma proposta de cooperação para combater a lavagem de dinheiro realizada no exterior por criminosos brasileiros.
Também mencionou a criação, em Manaus, do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, que reúne autoridades de segurança dos nove países amazônicos. Lula citou ainda operações realizadas contra organizações criminosas e defendeu o combate à corrupção.
“Ninguém está acima da lei”, declarou.
Lula critica tarifas e situação da OMC
O comércio internacional apareceu no discurso em meio às críticas do presidente ao enfraquecimento do multilateralismo.
Lula afirmou que a Organização Mundial do Comércio enfrenta uma situação de fragilidade e criticou governos que utilizam tarifas como instrumentos de pressão sobre outros países.
“A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos”, afirmou.
Segundo o presidente, o Brasil deverá registrar um novo recorde de exportações em 2026 apesar das tarifas impostas sobre produtos brasileiros. Ele também afirmou que o país é atualmente o terceiro maior destino de investimento estrangeiro direto. Os números foram apresentados por Lula durante o pronunciamento.
Clima, petróleo e minerais críticos
A agenda climática foi outro tema de destaque.
Lula criticou a redução do espaço dedicado ao assunto em fóruns internacionais e afirmou que o Brasil pretende combinar crescimento econômico e redução de emissões.
Ao mesmo tempo, defendeu a continuidade das pesquisas para exploração de novas reservas de petróleo, inclusive na Margem Equatorial, ao lado de políticas de descarbonização.
“Não renunciaremos à agenda ambiental”, disse.
O presidente citou a redução do desmatamento na Amazônia e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30, em Belém.
Lula também colocou minerais críticos e terras raras no centro da discussão sobre soberania econômica. Segundo ele, o acesso a esses recursos deverá ter como contrapartidas geração de valor no Brasil, transferência de tecnologia e abastecimento de setores considerados estratégicos.
“Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro e é em benefício dele que serão exploradas”, afirmou.
Inteligência artificial e Big Techs entram na pauta
Tecnologia também recebeu espaço próprio no pronunciamento.
Lula defendeu uma regulamentação das grandes empresas de tecnologia e da inteligência artificial. O presidente criticou a concentração de poder no setor e afirmou que o avanço tecnológico precisa estar acompanhado de regras e transparência.
“Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das Big Techs e da Inteligência Artificial”, declarou.
O presidente também tratou das apostas online. Segundo Lula, a expansão das bets tem provocado endividamento e prejuízos às famílias.
“A indústria bilionária das BETs transforma o vício em lucro”, disse.
Lula ainda mencionou medidas de proteção a crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital e defendeu remuneração para artistas, músicos e produtores de conteúdo audiovisual.
Por que Lula falou sobre o PIX?
Um dos temas domésticos levados ao discurso internacional foi o PIX.
O presidente vinculou o sistema de pagamentos instantâneos à soberania econômica e afirmou que o governo brasileiro resistirá a pressões de empresas estrangeiras em torno da ferramenta administrada pelo Banco Central.
“Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros”, afirmou.
Economia, desigualdade e escala 6×1
Lula também usou parte do pronunciamento para apresentar políticas econômicas e sociais de seu governo.
Ele defendeu distribuição de renda, geração de empregos, valorização salarial, aumento da produtividade, expansão do crédito e políticas de proteção social. Também afirmou que desigualdade e subdesenvolvimento são resultado de decisões políticas.
O presidente levou ainda à Assembleia da ONU um debate da política interna brasileira: o fim da escala de trabalho 6×1.
Segundo Lula, trabalhadores precisam de mais tempo para descanso, qualificação e convivência familiar. Ele defendeu dois dias livres por semana e associou a mudança também à redução da sobrecarga doméstica enfrentada pelas mulheres.
Eleições brasileiras encerram discurso
Na parte final, Lula tratou diretamente das eleições marcadas para 4 de outubro de 2026.
O presidente afirmou que o pleito será transparente e competitivo e que os candidatos terão liberdade de expressão. Também mencionou redes de desinformação e acusou interesses estrangeiros de tentar interferir no debate político brasileiro.
“Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão”, declarou.
Lula destacou ainda o sistema eleitoral brasileiro e citou o papel da sociedade e da imprensa no acompanhamento da disputa.
“A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano”, afirmou ao encerrar o discurso.
